Jorginho e Ricardo Gomes nasceram com os destinos cruzados. Cariocas, vieram ao mundo em 1964, ano em que um golpe militar jogou para escanteio a democracia no Brasil. Sem direito à expressão e ao voto, os dois jovens pelo menos puderam decidir que profissão seguir.

Optaram pela bola — ou foram escolhidos por ela. Encontraram-se como adversários e companheiros nos campos de futebol, foram tantas vezes que perderam as contas. Depois, trocaram as chuteiras pelas pranchetas, viraram técnicos e seguiram se reencontrando, desta vez sempre em lados opostos.

O clássico deste domingo, às 19h, em São Januário, marca mais um destes confrontos. Justamente no momento em que lideram as duas equipes com melhor campanha no Estadual.

Estudiosos, os ex-jogadores não fazem o estilo boleiro e, com serenidade, tentam superar as adversidades que os clubes atravessam. Como recompensa, esperam escrever o nome na história de um gigante. Jorginho aposta em Nenê, coração e mente da equipe dona do melhor ataque da competição. Já Ricardo tem em Jefferson seu porto seguro, o sentido do time que se destaca por saber se defender como ninguém no Rio.

“Se o Jorginho quiser poupar o Vasco, não reclamo”

Canhoto no futebol e destro na escrita, Ricardo Gomes adaptou-se à sequela mais cruel do AVC sofrido em 2011. Passou a assinar com a mão esquerda, aperfeiçoando a cada dia o garrancho e a falta de jeito. Tem feito o mesmo como treinador do Botafogo, onde transforma em caligrafia bonita um time que mais parecia um rabisco após a perda de 17 jogadores na virada da temporada.

— Faço vários exercícios. A fonoaudióloga me pede para falar 15 palavras com as letras “a” e “m” — explica Ricardo, muito mais fluente na conversa tête-à-tête do que nas coletivas: — Gaguejo porque os repórteres me perguntam, por exemplo, qual é a escalação, e eu não quero revelar.

No último check-up, diante do Fluminense, a equipe mostrou-se saudável: uma incontestável vitória por 2 a 0. Hoje, contra o Vasco, Ricardo Gomes terá mais um desses testes que mexem com o coração. Amigo de Jorginho, técnico rival ao lado de quem vestiu a camisa da seleção nas Eliminatórias das Copas do Mundo de 1990 e 1994, o ex-zagueiro tricolor viverá um dia especial.

— Tenho um carinho diferente pelo Fluminense, pela minha formação, e também pelo Vasco, pelo apoio que recebi durante e após o AVC. Mas, se o Jorginho quiser poupar o time, não vou reclamar de nada — provoca, sem antecipar um diagnóstico para o teste em São Januário.

O Vasco traz boas lembranças não apagadas pelo AVC de agosto de 2011. Seis meses antes do drama, Ricardo era contratado para o lugar de PC Gusmão, criticado após derrotas para Resende, Nova Iguaçu e Boavista.

— Cheguei para livrar o Vasco do rebaixamento no Estadual. Aí, vi Dedé, Anderson Martins e Rômulo. Ah, e o Felipe jogava muito. Contratamos o Alecsandro e o Diego Souza… — lembra o campeão da Copa do Brasil naquele ano.

Assim como no Vasco, Ricardo ainda reestrutura o Botafogo, posição por posição, como faz há quase cinco anos, intimamente com o cérebro, organizando cada palavra. Da fragilidade do ataque alvinegro, nasceu a ideia de fortalecer a defesa de forma quase cirúrgica. Deu tão certo que o time, com apenas dois gols sofridos, é o menos vazado do Estadual. E o única com 100% de aproveitamento.

“O mais importante é ver o Ricardo Gomes no futebol. Isso é o que me deixa mais contente”

O sorriso se abre quando Jorginho é questionado a respeito de Ricardo Gomes. São muitas lembranças de um tempo em que Fla-Flu era certo de acontecer no Maracanã, numa época em que o lateral-direito rubro-negro, depois de passar por Branco, sabia que o zagueiro grandalhão e com corrida torta viria na cobertura. Passar por ele não era fácil, melhor era tê-lo ao seu lado.

Pela seleção brasileira, transformaram-se em companheiros ainda nas categorias de base. Em 1988, fizeram parte da seleção olímpica que ganharia a medalha de prata nos Jogos de Seul, na Coreia do Sul.

Quando Jorginho precisou, Ricardo Gomes, no alto de seu 1,89m, deixou de ser zagueiro e virou guarda-costas.

— Temos uma história engraçada na seleção olímpica. Estávamos em um hotel em Nova Friburgo, a comissão técnica ficava em um lado e os jogadores no outro. Aconteceu algo na concentração, que não vou falar, e o pau comeu — lembra Jorginho, aos risos: — Eu e mais um contra dois, mas o Ricardo era meu amigo, parceirão. Quando ele apareceu no meio da confusão, grandão daquele jeito, apartou logo a briga. Foi maneiro.

O semblante do técnico muda quando a memória salta até 2011. Já haviam se enfrentado no Brasileiro daquele ano, e o empate por 1 a 1 entre Vasco e Figueirense agradou aos dois. O que abalou Jorginho foi saber que o amigo havia saído da partida entre Vasco e Flamengo por causa de um AVC. O longo tempo de amizade permitia que Jorginho entendesse um pouco melhor por que aquilo estava acontecendo.

— Acompanhei bem aquele problema, foi um momento de tensão muito grande que passamos. Conhecendo o Ricardo, sei que ele tem um problema sério no joelho. Por isso, não pode fazer muito exercício para relaxar. Eu corro sempre. Já ele não pode — compara.

Neste domingo, o técnico vascaíno não conta com a marcação do zagueiro e nem a proteção do guarda-costas. O único Ricardo Gomes que Jorginho espera rever em São Januário é o campeão da vida:

— O mais importante é tê-lo em campo, no futebol. Isso é o que me deixa mais contente.

Fonte: Extra Online