Com a calma de quem defende um pênalti de Lionel Messi pela seleção brasileira, Jefferson anunciou, no começo da temporada, que se despediria do futebol. Não sabia, ainda, que seria um ano complicado, com uma lesão que o tiraria, pelo menos, a chance de disputar posição com Gatito no gol do Botafogo, espaço que ocupa desde o fim de 2009. Mas goleiro sabe decisão tomada não se pode voltar atrás. O ex-goleiro da seleção pulou para o canto da aposentadoria e não vai mudar de ideia.

O Botafogo anunciou, oficialmente, na tarde desta quinta, que a partida contra o Paraná, segunda-feira no Nilton Santos, será para a torcida e o goleiro se despedirem. É o último jogo do goleiro em casa, e ele deve ser titular, mesmo com a boa fase de Gatito. A ideia é homenageá-lo, e só foi confirmada após a rodada do meio de semana, quando acabaram as chances do Botafogo de se classificar para a Libertadores. Internamente, a diretoria não queria dar um tom festivo a um jogo que valesse algo, mas com o time sem maiores pretensões no campeonato, tudo foi resolvido.

Ainda que não tenha pedido, Jefferson vai ganhar um jogo de despedida. E há razões de sobra para isso, todos eles reunidos num só, o fato de que o goleiro conseguiu um espaço na estrelada galeria de ídolos do Botafogo. O GLOBO relembra o porquê em sete (já que o número é histórico para o clube) motivos.

Pódio com Nilton Santos e Garrincha

O jogo contra o Paraná será o 458º de Jefferson pelo Botafogo. Não é nem metade das 1237 partidas de Rogério Ceni pelo São Paulo, o recorde de um jogador por um mesmo clube, mas coloca o goleiro alvinegro em um pódio que qualquer jogador de futebol gostaria de estar. Só o lateral Nilton Santos (721 jogos) e a lenda do futebol Garrincha (612) vestiram mais a camisa do Botafogo. Na lista daqueles que Jefferson “deixou para trás”, nomes como Manga (442), Jairzinho (412) e Didi (313).

Muitos Botafogos, um só goleiro

O time que escapou da Série B em 2004, o Botafogo do Loco Abreu, do Seedorf ou o que caiu para a segunda divisão em 2014. O que subiu de novo no ano seguinte, o que conseguiu classificação para a Libertadores. A equipe armada por Papai Joel, Oswaldo de Oliveira, Ricardo Gomes, Jair Ventura ou Zé Ricardo. Jefferson foi goleiro de todos esses times. Há dez temporadas seguidas no clube, com outra passagem entre 2003 e 2005, Jefferson fez parte de vários momentos recentes da história do clube, bons e ruins. O suficiente para saber o que é vencer, perder, subir, cair e ser campeão. No novo século, ninguém foi mais Botafogo do que ele.

O pênalti de Adriano em 2010

Ao longo de 12 temporadas, Jefferson fez muitas defesas milagrosas, históricas e importantes. Nenhuma delas, porém, marcou mais que o pênalti contra o Flamengo na final da Taça Rio em 2010, marcada pela cavadinha de Loco Abreu, em outro pênalti, contra o goleiro Bruno. Vencendo por 2 a 1, o Botafogo precisava da vitória para garantir o título carioca após três vices consecutivos contra o Flamengo, maior rival e adversário daquela tarde. Um pênalti para o Rubro-Negro na segunda metade da etapa final fez a torcida voltar ao trauma. Se empatasse, a decisão seria por penalidades, maneira como o Fla tinha vencido os títulos de 2007 e 2009. O Imperador era um dos craques do país no momento, com o título do Brasileiro conquistado há alguns meses. Confiante, Jefferson pulou para o canto esquerdo, espalmou a cobrança para fora e garantiu o título, seu primeiro pelo Botafogo.

Goleiro da seleção, e da Série B

No Brasileiro de 2014, Jefferson foi eleito o melhor goleiro do campeonato, mas o Botafogo não se encontrou e caiu para a Série B pela segunda vez em sua história. Com sondagens do Santos e de outros clubes europeus, Jefferson poderia sair. E a desculpa estava pronta: reserva da seleção na Copa de 2014, ele começou o novo ciclo com o técnico Dunga o confiando a posição de titular. Ainda assim, ele renovou seu contrato com o Botafogo e foi fundamental na campanha do acesso e do título. Por todo 2015, ano da Série B, foi, também, o titular da seleção brasileira.

Na Copa, pelo Botafogo

O Botafogo é líder de poucos rankings comparativos entre os clubes brasileiros. Um deles é motivo de orgulho entre a torcida e é repetido em qualquer discussão: nenhum time cedeu tantos jogadores à seleção brasileira em Copas do Mundo quanto o Botafogo. A convocação de Jefferson, em 2014, é quem desempata: o Botafogo segue na frente, com 47 jogadores, contra 46 do São Paulo.

Pênalti contra Messi

São poucos os goleiros do mundo que tem a oportunidade de tentar defender um pênalti de Lionel Messi, um dos maiores jogadores de todos os tempos, quando mais de defender. Jefferson não só conseguiu, como o fez com a camisa da seleção brasileira, e mais, em um dos maiores clássicos entre seleções, um Brasil x Argentina, amistoso disputado em 2014, logo após a Copa do Mundo.

Quem mais levantou troféus no século XXI

Campeão carioca três vezes (2010, 2013 e 2018) e da Série B em 2015, Jefferson é o jogador que mais conquistou título pelo Botafogo no novo século. Se contar as Taças Guanabara e Rio, Jefferson levantou dez troféus em dez temporadas no Alvinegro.

Não é uma época gloriosa para o clube em títulos, mas o coloca em um bom ranking na História. Só Manga, Paulistinha (8 títulos cada), Nilton Santos (6), Garrincha (5), todos dos esquadrões alvinegros da década de 60, ganharam mais títulos oficiais (Conmebol, Brasileiro, Taça Brasil, Rio-São Paulo e Cariocas) que Jefferson pelo Botafogo na era do profissionalismo.

Fonte: O Globo Online