Em um dos melhores textos já escritos sobre o botafoguense, um dos mais fanáticos deles, o cineasta João Moreira Salles diz que o botafoguense vive a lógica do pior, que seria aquele sentimento inefável que “mais dia, menos dia, a vaca voltará para o brejo, como de fato volta, apesar do que dizem os padres e os pastores”. Ainda que o time deste ano fizesse o alvinegro duvidar menos do destino inevitável, guerreando e surpreendendo em cada jogo, o fato é que ela voltou. Porém, há de se convir de que é um retorno diferente. Lá de longe, mais longe do que se esperava, a vaca trouxe algo para o brejo alvinegro que cabe ao Botafogo aproveitar ou não: um legado.

Coisas da bola, a mesma baliza da Arena do Grêmio que colocou o Botafogo na Libertadores, com o gol de Bruno Silva na última rodada do Brasileiro do ano passado, tirou o Alvinegro do torneio, com o gol de Barrios, do mesmo lado. Não dá pra dizer, porém, que não há diferenças entre o Botafogo daquela vitória do ano passado e o da derrota de ontem. O do revés da noite passada é, no mínimo, muito maior.

Em campo, o time não fez sua melhor campanha na Libertadores (em 1963 e 1973, foi até a semifinal), mas foi a mais longeva: 14 jogos. Fosse a Libertadores de dez anos atrás, o Botafogo teria uma campanha de vice-campeão: passou por um grupo (difícil), venceu três mata-matas (dificílimos), e perdeu, lutando, seu último compromisso (no detalhe). Foi o maior número de vitórias em uma edição: sete. Pimpão é o maior artilheiro da história do clube no torneio, cinco gols, junto com ninguém menos que Jairzinho e Dirceu. Venceu um jogo internacional fora de casa pela primeira vez depois de 25 anos. Na Libertadores, depois de 44. O Botafogo não será o campeão, mas, depois de muito tempo, finalmente é alguém na América.

Dos 14 jogos, sete foram em casa e, ao todo, mais de 222 mil pessoas foram ao estádio Nilton Santos, que se finalmente ganhou cara e caiu no gosto da torcida, muito se deve à campanha que terminou ontem.

No faz-me rir, quase R$ 13 milhões em renda, outros mais de R$ 14 milhões em premiação. A folha salarial do time é de R$ 3,8 milhões. A do arquirrival Flamengo, eliminado na fase de grupos, quase três vezes maior. Do Palmeiras, que ficou na fase anterior, quase quatro. O Botafogo paga menos aos seus heróis do que o Vitória paga aos seus jogadores. O time baiano está na zona de descenso do Brasileiro, e Libertadores, naquelas bandas de Salvador, não chega nem a ser sonho sureal. O Alvinegro, por sua vez, conseguiu disputar três competições em alto nível até agosto, duas até setembro, e, deixando o Brasileiro de lado, mas sem brincar, nem se tocou no assunto rebaixamento, temor maior, pauta inevitável até ano passado. Fala-se, ao invés e com merecimento, em ir à Libertadores pela segunda vez seguida (algo que seria inédito na história do clube!).

Hoje, o time é sétimo, mas dentro da zona de classificação, com três pontos de folga, porque Cruzeiro ou Flamengo, no G-6, irão pela Copa do Brasil. O objetivo é ficar aí nesse G-7, mas a seis pontos do Grêmio, vice-líder, não é delírio se Jair quiser sonhar em ser segundo colocado no Brasileirão. O time pode ser capaz, e duvidar deste time já se provou aposta furada.

Para ajudar, são 36.645 sócios-torcedores na carteira, mais de 26 mil deles que vieram com cada gol do Pimpão na Libertadores. Haverá certa debandada? Não há dúvida. A espécie torcedor-safado que só vai na boa é comum a todos os clubes, talvez maior em uma torcida calejada pela dor feito a alvinegra. Mas é preciso esforço da diretoria e da própria coletividade de amantes da estrela solitária em tentar manter o espírito. A Libertadores acabou, mas esse time segue, o clube é eterno e as dificuldades, por enquanto, perenes, e maiores no ano que vem. Apoio é fundamental, estar sempre que possível na Libertadores é ideal.

A melhor história do futebol carioca, quiçá do brasileiro, de 2017, era a do Botafogo no torneio continental, a ponto de dar a impressão que a eliminação foi pior até para a Libertadores do que para o clube de General Severiano. Foram cinco campeões derrotados. Um grupo da morte sobrevivido. Um Grêmio que por detalhes não ficou para trás. Falar sobre como tudo isso era inesperado é se afundar em várias camadas de clichês ditas já há algum tempo, afinal, faz algum tempo que o Botafogo espanta.

A palavra eliminação é a que mais lateja hoje a cabeça do torcedor, do dirigente e do jogador. Mas é o conceito de legado que dever ser pensado, refletido, usado e abusado a partir de amanhã. Para começar a análise com João Moreira Salles e terminar com Gustavo Lima, cabe encerrar dizendo que foi bonito, foi. Foi intenso, foi verdadeiro. Definitivamente, o Botafogo fez demais.

*Thales Machado é editor-assistente de Esportes do jornal “Extra”

Fonte: Thales Machado - O Globo Online