A Libertadores para o Botafogo não precisa acabar no Grêmio.

A campanha heroica, repleta de grandes adversários e façanhas, é o mais evidente sinal de um trabalho de reconstrução de um clube rapinado por tenebrosas transações e incompetências sucessivas.

Há críticas a serem feitas à gestão Carlos Eduardo Pereira, mas há um legado inegável, que tem de servir de base para tudo que se fizer no mais imediato futuro. Nada é fácil em General Severiano, mas o ano de 2017 mostra que é possível estabelecer prioridades, evitar vexames e trabalhar com orgulho, mesmo que os balanços financeiros apontem para longa escassez de recursos. Basta respeitar certos pactos.

Primeiro, os pactos internos. A base que o Botafogo montou em seu futebol é um trunfo. O Botafogo tem técnico, tem goleiro e tem uma espinha dorsal dedicada. Criou dentro de seu departamento de futebol uma cultura que não aceita vedetismos — e por isso expurgou insatisfeitos como Sassá e Camilo. A liderança de Jair Ventura, aliada a seu conhecimento tático, fez com que se extraísse de um time limitado o melhor. Houve reconhecimento em certas apostas que deram errado, como Montillo — e, no futebol, é preciso ter margem para alguns azares. A diretoria priorizou a Libertadores sem abrir mão de pagar salários em dia — obrigação que ganha ares de mérito num país em crise. E os jogadores se sentiram ainda mais obrigados a corresponder.

Resulta daí que desse Botafogo nunca se esperou nada, mas foi possível sonhar com muito.

Esse pacto foi estendido ao estádio. Enfim, o botafoguense adotou o Engenhão, rebatizado Nilton Santos. No ano da graça de 2017, não há mais botafoguense que reitere que arena fica longe, que o trem é hostil, que o Maracanã é melhor: o compromisso de estar presente, na cadeira que leva ou não o nome do sócio-torcedor, foi assumido. A política alvinegra de ingressos favoreceu essa adoção, por mais que especialistas argumentem que o tíquete médio podia ser mais caro. Neste momento, não. Neste momento, menos significa mais gente no estádio, e mais gente no estádio significa que quem fica em casa negligenciou um dever e se negou um momento único de comunhão com o amor antigo. São estranhos os caminhos que levam o torcedor ao estádio, mas um dos mais inegáveis é a sensação de que está todo mundo indo.

Houve outros pactos externos. A torcida entendeu o momento financeiro e adequou suas cobranças. Abraçou cada jogador em sua funcionalidade, entendeu que o Estadual e o Brasileiro ficariam em segundo plano. Do Botafogo, nada foi exigido além de seriedade e empenho. Se alguém quis show, ou reforços astronômicos, não foi percebido. E mesmo entre os críticos mais ácidos da imprensa, o que se via nos jogos da Libertadores e do Brasileiro foi algo perto da condescendência, mas com um bom motivo: a percepção de que o pequeno milagre alvinegro deveria continuar, pelo bem de todos. Ganha o futebol enquanto se perpetuar a ideia de quem nem só os melhores (e mais abastados) vencem. O conto do clube emerso da Série B que abatia campeões e campeões a cada rodada magnetizou a todos, com raras exceções.

E, de novo, os jogadores se sentiram motivados a dar o máximo, porque se sentiram parte de algo especial.

Todos esses pactos apontam para o futuro: o elenco atual da Estrela sabe jogar a Libertadores. Sabe o quanto é preciso de garra, de pilha e de técnica, o que é raro nos competidores nacionais. Não são poucos os clubes brasileiros que, para jogar o torneio continental, remontam elencos inteiros em busca de um perfil de competição que quase sempre se confunde com excesso de gana. O Botafogo, por sua vez, só teve um expulso em sua campanha: o lateral Victor Luis, num jogo em que o Nacional-URU recebeu três vermelhos. Ganhou fora de casa. E ontem, a bola na trave de Bruno Silva, ainda no primeiro tempo, poderia ter mudado tudo. Manter 70% a 80% desse elenco é uma tarefa difícil, já que haverá assédio ao fim do ano. Mas, se o clube confirmar vaga continental no Brasileiro — o que é amplamente possível — o esforço será imperativo. É preciso impedir ao máximo o recomeço do zero.

Por fim, é fundamental trazer a torcida para os sábados e domingos, e continuar a proposta da Libertadores nessa reta final do Brasileiro. O torcedor obviamente precisa fazer sua parte, mas o desafio do marketing alvinegro é criar estímulos para que taxa de ocupação se mantenha semelhante. Lembrar a todos que, eliminação à parte, 2017 foi um dos anos mais orgulhosos da história alvinegra, por tudo que se reconquistou. Esse carinho gera uma sensação de pertencimento, que poderá inclinar muitos jogadores na hora de renovar contratos. Porque, sim, alguns ainda balançam. Muitos viveram o auge de suas vidas ali. Cativá-los e estimulá-los é preciso.

É óbvio que é duro falar de longo prazo em meio à depressão da eliminação, mas não custa tentar. Afinal, em 2018, se estiver de novo na Libertadores, o Botafogo será visto com outros olhos. Não será mais um “penetra” sem favoritismos. Terá menos simpatia eventual e precisará do seu núcleo duro de apoio incondicional. E ficará proibido de estagnar, sob pena de esmorecer o coração que sabe sofrer, mas não vive só disso.

Fonte: Márvio dos Anjos - O Globo Online