Lembra Dele? Artilheiro da Conmebol pelo Bota, Sinval hoje tem três motéis

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Em 1988, o jovem Sinval Ferreira da Silva, à época com 17 anos, viu na revista “Placar” uma reportagem sobre o meia Mendonça, ex-Botafogo, e seu curioso investimento: um motel em Sorocaba, no interior de São Paulo. O futuro atacante de Portuguesa, do próprio Glorioso e de tantos outros clubes não esqueceria aquela matéria. Como ele mesmo definiu, “a semente havia sido plantada”. E brotou 14 anos depois. Quando estava em sua segunda passagem pela Portuguesa, em 2002, Sinval já se preocupava com o futuro após sua carreira no futebol. Com o dinheiro que ganhou jogando no Lugano, da Suíça, construiu seu primeiro motel.

– Não sei exatamente por que fiquei com isso na cabeça, mas só sei que, quando comecei a juntar meu dinheiro, logo pensei nesse negócio. E hoje estou realizado.

Aos 42 anos, Sinval administra três motéis em Andradina, no noroeste de São Paulo, e diz gostar da tranquilidade do interior paulista. Uma de suas funções na nova profissão é pensar na decoração das suítes temáticas. Ele sorri ao mostrar suas criações.

– O que lembra Las Vegas? A iluminação. Então eu procurei fazer a suíte Las Vegas com muitas luzes para a pessoa achar que realmente está lá. Hollywood são os artistas, cinema…  Isso foi o que eu consegui achar para me distrair depois de jogar futebol.

O ex-jogador é reconhecido como o ‘Sinval da Portuguesa’, mas, segundo ele mesmo, deveria ser ‘Sinval do Botafogo’, graças à artilharia da Conmebol de 1993, com oito gols. No entanto, foram pelo menos 30 clubes na carreira, encerrada em 2007, no Imperatriz-MA. Mas as duas passagens pelo Glorioso – especialmente a primeira – marcaram. Na Lusa, o jovem atacante surgiu e foi o goleador da conquista da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 1991 – ao lado de Dener e Tico –, com 12 gols. A vice-artilharia do Paulistão de 1993 pelo Novorizontino o levou ao Botafogo.

Sinval Lembra Dele (Foto: Thiago Fernandes)
Sinval, em uma das suítes de seus motéis, e as camisas dos vários clubes por onde passou
(Foto: Thiago Fernandes)

Mas, por pouco, o jogador não ficou sem o Alvinegro de seu currículo. O clube vivia um momento de transição. Emil Pinheiro, presidente até 1992, deixou o cargo após o vice-campeonato brasileiro para o Flamengo. Com ele foi o dinheiro que era investido no time. O ano de 1993 começou cheio de incertezas, com a aposta na base e em algumas contratações de clubes paulistas. Sinval era uma delas. Entretanto, quando chegou ao Caio Martins, onde a equipe treinava na época, deu meia volta e foi embora.

– A dificuldade era muito grande. Cheguei e vi que não tinha bola para treinar. Uma vez, o Carlos Alberto (Torres) comprou bola do próprio bolso para treinarmos. Não tinha roupa, não dava para ficar ali. Eu fui embora, ia voltar para a Portuguesa, que tinha meu passe. Não tinha como. Mas o Edson Santana (diretor de futebol na época) me ligou e me fez mudar de ideia. Ele disse: “Estou sabendo que você vai embora porque aqui não tem bola, não tem camisa. Com todo respeito à Portuguesa, que pode ter tudo isso, lá você vai jogar para 3 mil pessoas, e aqui você joga para 60 mil”. Eu me convenci e logo na estreia fiz dois gols.

De time que não marcava no Brasileiro a campeão da América

No Campeonato Brasileiro daquele ano, o Botafogo só não foi rebaixado porque não havia descenso. Ficou em 31º lugar, com seis pontos em 14 jogos, dos quais fez gol em apenas quatro. Certa vez, lembrou o ex-atacante, um torcedor entrou no gramado do Caio Martins para “ensinar” aos jogadores como fazer um gol. Como tal equipe conquistou a América? Na superação. E na inspiração de um líder: Carlos Alberto Torres.

– O time era muito limitado. Mas quando quer, ele consegue. A gente comprou a ideia do cara e conseguiu. Tinha treino que o Carlos Alberto começava a dar, mas todo o time estava mal, e ele simplesmente mandava todos para casa. Ele era assim: “Eu não vou ficar batendo cabeça com vocês, não.” Ele nos carregou para aquela conquista.

Sinval Botafogo Conmebol 1993 (Foto: Júlio César Guimarães / O Globo)
Sinval fez oito gols na Copa Conmebol de 1993, inclusive um na final com o Peñarol. Errou um pênalti, mas comemorou no fim (Foto: Júlio César Guimarães / O Globo)

A situação era adversa. Para a maioria do time, criada na base do clube, os salários estavam atrasados. Alguns não recebiam havia três meses ao fim da Copa Conmebol. Como viera de fora, Sinval tinha certo privilégio. Recebia, às vezes, em dinheiro vivo em uma loja de tintas do vice de futebol Antônio Rodrigues. Mas, diante das adversidades, o Botafogo avançava na Copa Conmebol. Contra o Caracas, no primeiro jogo das quartas de final, o time carioca venceu por 1 a 0, com gol de falta de Sinval. Logo ele, que nunca havia cobrado uma falta na vida.

Na fase seguinte, derrota por 3 a 1 para o Atlético-MG no Mineirão e vitória por 3 a 0 no jogo de volta no Caio Martins. Era possível. Foi possível. Na final, o ex-atacante fez o gol da virada diante do Peñarol, que viria a empatar por 2 a 2 e levar a decisão para os pênaltis. Sinval errou sua cobrança, mas viu Suélio, Perivaldo e André Santos acertarem suas penalidades e William Bacana pegar duas dos rivais. Mas ele, que terminou com oito gols no torneio, acredita que tal conquista não é valorizada como deveria.

– Mesmo com aquela virada diante do Atlético-MG e o 1 a 1 no primeiro jogo com o Peñarol, não acreditavam na gente. Na final, acho que a diretoria só colocou 30 mil ingressos para vender, e chegaram 40 mil pessoas. Tiveram que abrir os portões para poder deixar o torcedor entrar. Foi sensacional, mas quase não somos lembrados. Hoje a Copa Sul-Americana tem importância muito maior, o “business” não era igual ao de hoje. Qualquer tacinha vale muito porque precisa vender. Nós somos desvalorizados. É aquela coisa, torcedor brasileiro tem memória curta. Mas é gostoso para o ego, sei que fui importante em um título importante. Isso já é ótimo – declarou, em tom conformista.

Eros Ramazzotti, cantor italiano (Foto: Reprodução/Twitter oficial)
Sinval é fã do cantor italiano Eros Ramazzotti (Foto: Reprodução/Twitter oficial)

A dúvida: Eros Ramazzotti ou homenagem do Botafogo?

Além de Portuguesa, Novorizontino e Botafogo, Sinval jogou em clubes como o Coritiba – onde foi campeão paranaense em 1999 –, Santa Cruz, Vitória, São Caetano, Fortaleza, América-MG e Paraná. Entre 1994 e 1997, o ex-atacante atuou no Lugano, time do norte suíço, parte italiana do país. A herança de tal época está marcada de duas formas diferentes na vida do ex-jogador. A primeira é a filha mais nova, chamada Chiara. A segunda é a paixão pela música italiana.

O cantor romano Eros Ramazzotti é um dos preferidos dele, e a oportunidade de encontrar o ídolo surgiu justamente no último dia 28, um sábado, quando o artista fez um show em São Paulo. Os ingressos foram adquiridos há mais de dois meses. No entanto, na quarta-feira anterior, o telefone de Sinval tocou. Era um representante do departamento de marketing do Botafogo, que o convidou para uma homenagem que o clube faria aos campeões da Copa Conmebol de 1993 antes do confronto contra a Ponte Preta, no Maracanã, pela 24ª rodada do Brasileirão. A dúvida persistiu até o fim, mas um amigo o convenceu a aceitar o convite do Alvinegro.

– Minha filha foi sozinha. Eu só fui à homenagem porque um amigo meu comprou a passagem. O Botafogo infelizmente não poderia custear minha ida, e esse amigo meu me convenceu a ir. Ele falou: “São 20 anos do título, se você não for agora, nos 30 anos não vão lembrar de você”. Gastei R$ 400 com o ingresso para o show, mas não tem problema. Até sou mais fã do Eros (Ramazzotti) que a minha filha, mas não me arrependo de ter perdido o show – revelou Sinval.

Botafogo homenagem título 1993 (Foto: Nina Lima / Agência O Globo)
Sinval (primeiro agachado da esquerda para a direita) compareceu à homenagem do Botafogo aos campeões de 1993 (Foto: Nina Lima / Agência O Globo)

“A Novela das 8 acabou”: o fim da carreira
 
Do ano 2000 até o fim de sua carreira, Sinval não parou. Eram sempre dois ou mais clubes por temporada, e em 2007 decidiu parar. Ele escolheu se dedicar exclusivamente ao que havia começado cinco anos antes. Ele se “cansou da bola”. No momento em que atendeu a reportagem, jogava uma partida de tênis, algo que não poderia fazer no dia a dia incessante do futebol. Chegou a treinar o Misto-MS, em 2010, mas foram três meses e uma fraca campanha no Campeonato Sul-Mato-Grossense que o fizeram sair do time. Mesmo com um estágio na Portuguesa, um curso de gestão esportiva com José Carlos Brunoro e convites esporádicos, Sinval preferiu a tranquilidade de sua cidade natal.

– Sem condições. No Misto os jogadores me ligavam às 7 horas da manhã dizendo que não tinha café, que não tinha remédio, que não tinha dinheiro para mandar para casa, e eu não podia trabalhar em um lugar sem condições. A Portuguesa já me fez convite para ser treinador do infantil por 1,5 mil reais por mês. Só o condomínio em São Paulo é mil. Tem que abdicar de muita coisa, meu negócio está aqui em Andradina, do lado da minha mulher, meus filhos.
 
Sinval diz que conta em uma das mãos os amigos de verdade que tem no futebol. Um deles foi Dener, colega das categorias de base da Portuguesa. A morte trágica do craque que despontava, em um acidente de carro em 1994, o abala até hoje.

– Eu o via no caixão e falava: “Nego, para de brincadeira. Acorda, nego, não é verdade, levanta daí.”

Para o ex-jogador, a vida no futebol pode ser resumida em um lema: o jogo é para 11. Somente para os que entram em campo. Com mágoa e firmeza nas palavras, ele lembra  que não poderia dizer isso quando era atleta. Com tanta disputa e guerra de egos e vaidades, decidiu seguir outro caminho. Mas não nega que tem saudade.

– Aquela vida não tem preço, mas passou. A novela das 8 acabou e começou uma nova. Acabou meu ciclo como jogador, agora é como pai, empresário. Um dia a novela tem que acabar, não é verdade? E uma nova precisa começar. Uns precisam morrer para outros nascerem. E depois que você para de jogar bola percebe que bola é bom só para 11, no máximo 14, com os três que entram, que são sempre os mesmos. Quem diz que torce pelo colega está mentindo. Torce nada.

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Sinval Lembra Dele (Foto: Thiago Fernandes)
Sinval, em um de seus três motéis em Andradina-SP (Foto: Thiago Fernandes)

A família e a vida de dono de motéis

Sinval é marido de Tanize e pai de Victoria, Wendell e Chiara. Hoje vive para dar conforto à família e sem as preocupações que a vida no futebol poderia trazer. A filha mais velha, Victoria Dafner, faz faculdade de cinema e tem uma banda de pop-rock. Para ajudá-la na carreira artística, Sinval desembolsou R$ 10 mil e pagou às rádios de Andradina para tocar as músicas de sua primogênita. “Se não pagar, não toca”, diz, sem arrependimento.

Mas o dia a dia está em outro ramo. Com o irmão, o ex-atacante do Botafogo administra três motéis, que têm preço médio de R$ 60 para cada três horas. Ele, além de dono, é o responsável pela decoração dos estabelecimentos. No entanto, tem que lidar com os mais variados tipos de problema. Desde o cliente que usufruiu do serviço e não tinha dinheiro para pagar até a ajuda à polícia com pessoas que passaram por um de seus motéis. Tenta se ocupar e não pensar no futebol.

– Hoje coloco papel de parede nos quartos, faço tecidos, tudo na decoração. Entro no quarto para esquecer. Procuro estar longe do futebol – disse o ex-artilheiro.

Fonte: Globoesporte.com

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