O ano de 1995 foi emblemático para os cariocas. Os flamenguistas se empolgaram com a chegada de Romário, os tricolores celebraram o gol de barriga de Renato Gaúcho, mas nenhum torcedor viveu emoções mais fortes do que o botafoguense. Foi em 1995 que o improvável sorriu para o Glorioso.

Na semana do aniversário de 20 anos do título brasileiro, as histórias de um time que partiu do descrédito para a glória são relembradas nos livros “95 – A tua estrela brilha” (Mauad, preço a definir), dos jornalistas Claudio Portella e Rafael Casé, e “O Botafogo de 95” (independente, R$ 35), do jornalista e historiador Thales Machado.

Contam a história de um time envolto em dificuldades financeiras e estruturais. Num contexto em que parecia difícil criar um ambiente vencedor.

A mudança de rumo começa com a chegada de Leandro Ávila, Gonçalves e Donizete. Para comandar o time, o desconhecido Paulo Autuori, após quase dez anos em Portugal.

— O (ex-presidente Carlos Augusto) Montenegro, depois de entrevistar o Autuori, fala: “Que cara educado, que cavalheiro. Eu tinha certeza que tinha contratado o cara errado”. O Paulo chegou a ser barrado em General Severiano e no Caio Martins. Ninguém conhecia ele — conta Portella.

Depois de um segundo turno quase irretocável, o Botafogo chegou ao mata-mata. Após passar pelo Cruzeiro, foi à final com o Santos. O primeiro jogo da decisão, no Maracanã, terminou com vitória por 2 a 1 e um episódio curioso. Com o apito final, os santistas presentes no estádio vibravam mais do que os alvinegros.

— Eu estava indo em direção ao túnel, olhei aquilo e pensei: “não é possível”. Aí me dirigi à torcida (do Botafogo) e pedi que gritassem. Eu dizia: “Os caras estão vibrando. Estamos na nossa casa” — relata Gonçalves.

Havia outra preocupação para os alvinegros: Donizete, com lesão muscular, era dúvida para a final do Pacaembu.

— Ficávamos no mesmo quarto, e eu estava desesperado. Eu tinha um sebinho de carneiro que esfreguei na perna dele. Se ajudou, não sei — diz o ex-volante Leandro Ávila.

— O Túlio me disse: “Agora, você vai ser o Túlio, e eu vou ser o Pantera. Eu vou correr por você” — lembra Donizete.

Lesionado, o ponta jogou no 1 a 1 do dia 17 de dezembro. Santistas até hoje reclamam do gol de Túlio em impedimento. Era o 23º gol do atacante, artilheiro da competição pelo segundo ano seguido e responsável por tornar alvinegras muitas crianças da época.

— Achávamos engraçado o jeito dele promover o jogo. Diante das câmeras, fazia todo um marketing mas, no dia a dia, não tinha essa característica — conta Gonçalves.

Na chegada ao Aeroporto Santos Dumont, torcedores invadiram a pista e alguns subiram nas asas do avião.

— Tinha tudo para dar errado: rixa entre capitão (Gottardo) e principal jogador (Túlio), jogadores quase sem salário, precisando vencer para receber o bicho — lista Portella.

— A gente resolvia no vestiário — afirma Donizete.

Financiamento na internet

O mineiro Thales tinha só oito anos em 1995, mas a conquista marcou sua vida de torcedor. Por muito tempo, o projeto de celebrar os 20 anos do título esbarrou nas dificuldades do mercado editorial no Brasil. Então, recorreu à internet. No Twitter, criou um perfil (@obotafogode95) onde conta, como em tempo real, histórias de duas décadas atrás.

— A grande fonte é o Acervo O GLOBO, que é sensacional. Também tiro coisas do arquivo do “Jornal do Brasil” e faço pesquisa. Hoje, leio sempre o jornal do dia e também o de 20 anos atrás — conta Thales.

O sucesso na rede viabilizou o livro. Uma campanha de financiamento coletivo arrecadou, em dois meses, quase R$ 26 mil. Hoje, como faz habitualmente, Thales vai postar tweets sobre a repercussão da vitória contra o Santos no primeiro jogo da final, como este:

“Primeiro que isso aqui não é o Fluminense, e segundo que pra ganhar do Botafogo vai ser muito difícil, quase impossível, ou seja, não tem jeito: o Botafogo é campeão” Túlio Maravilha.

OS LIVROS

O Botafogo de 95

Escrito pelo jornalista e historiador Thales Machado, será lançado na quarta-feira, às 19h, na Livraria Travessa de Botafogo.

A tua estrela brilha

Dos jornalistas Claudio Portella e Rafael Casé, pela Mauad, o lançamento será, na quinta-feira, na sede de General Severiano, às 19h.

Fonte: O Globo Online