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Manga faz 83 anos no Dia do Goleiro, e não é coincidência: a história de uma lenda do futebol e do Botafogo

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Gatito Fernández e Manga, ídolos do Botafogo, no Estádio Nilton Santos
Vitor Silva/Botafogo

Não é por acaso que o Dia do Goleiro no Brasil, 26 de abril, foi escolhido justamente na data de aniversário do lendário goleiro Manga, da seleção brasileira e de outros grandes times.

A ideia surgiu das cabeças generosas e conscientes de dois homens do esporte e das forças armadas, o tenente Raul Carlesso e o capitão Reginaldo Pontes Bielinski, ambos professores da Escola de Educação Física do Exército. Carlesso, aliás, foi o preparador de goleiros da seleção brasileira no tricampeonato mundial no México (1970).

Máscaras do FogãoNET para torcedores do FogãoNET durante a quarentena da pandemia do novo coronavírus (COVID-19)

A data, que começou a ser comemorada em 1976, não foi escolhida por coincidência. Haílton Correa de Aruda, o Manga, foi um dos melhores goleiros do Brasil e do planeta. Iniciou ainda menino nas divisões de base do Sport e logo desembarcou no Rio de Janeiro, onde fez história ao lado de outros gênios da bola como: Garrincha, Nilton Santos, Didi, Zagallo, Jairzinho, Gérson, Paulo Cezar Caju e Afonsinho, entre outros. Nos quase dez anos vestindo a camisa do Botafogo, conquistou 20 títulos, em um total de 442 jogos pelo clube. Viveu literalmente os anos dourados do futebol carioca enfrentando, inclusive, adversários do quilate de Pelé.

Saiu do Botafogo para tornar-se ídolo também no Nacional, do Uruguai. Além de quatro títulos nacionais, conquistou a Copa Libertadores e o Mundial Interclubes em 1971.

Estilo único e homenagem

Era um verdadeiro paredão que não admitia, em hipótese alguma, ficar no banco de reservas.

Era mais que um jogador raiz. Doido e destemido, saía nos pés de qualquer atacante, dando literalmente a cara à tapa toda vez que sofria um ataque das equipes adversárias.

Não usava luvas. Suas mãos gigantescas e seus dedos completamente tortos não permitiam que ele as vestisse se sentindo confortável. Passava óleo e areia nas mãos para criar aderência.

Um grande exemplo de coragem aconteceu quando Manga transferiu-se para o Internacional. Em 1975, quando o time colorado chegou à final do Campeonato Brasileiro, o goleiro estava com dois dedos da mão quebrados, e não teve dúvida: tirou o gesso e foi para o jogo. Enfrentou, mais uma vez sem luvas, um dos chutes mais potentes da história do nosso futebol, as bombas do ex-lateral Nelinho, do Cruzeiro.

Foi por causa desse histórico que Manga teve o dia do seu nascimento, 26 de abril, escolhido como o Dia do Goleiro no Brasil.

E ele continuou merecendo a grande homenagem nos anos seguintes, pois, já veterano, foi bicampeão brasileiro em 1976 contra o Corinthians. Um ano anos, ele por pouco ele não fechou contrato com o clube alvinegro, do então presidente Vicente Matheus.

Por isso que Manga não é tão falado no futebol paulista. Depois do Inter, jogou no Operário-MS, Coritiba, Grêmio (onde quebrou um pacto entre os gigantes do Sul que não contratavam jogadores que passaram pelo rival) e encerrou a carreira em 1982, ao 45 anos, no Barcelona de Guayaquil, do Equador.

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Encontros e desencontros

Manga sumiu por anos do Brasil, mas o Brasil nunca o abandonou.

Ele foi morar no Equador, onde encerrou a carreira, e arrumou um novo amor. Casado com Marial Cecília Cisneros há 40 anos, Manga praticamente trocou o português por portunhol fácil de entender, tanto para nós como para os Hermanos da América do Sul.

Nos arquivos da ESPN existem dois encontros. O primeiro aconteceu em Guayaquil, em 27 de março de 2009, onde Haílton preparava os goleiros do Barcelona local e da seleção equatoriana de futebol. À época, o repórter André Plihal gravou uma parte de uma entrevista que nunca foi ao ar, mas que será exibida agora, depois de mais de 10 anos.

Plihal já tinha feito, ao lado do repórter cinematográfico Nilson Pas, várias imagens de Manga andando pelo estádio. Em um determinado momento, pediu para gravar uma passagem, nome técnico dado ao texto com a cara do repórter no vídeo contando uma história que não tem imagem para ilustrar. Veja com atenção a saia justa que o repórter entrou e, claro, o entrevistado também. Talvez, a cena que vem a seguir possa explicar um pouco o que aconteceu com a vida financeira de Manga, anos depois.

O segundo foi em Porto Alegre, em 18 de agosto de 2010, quando o ex-goleiro veio para acompanhar a campanha do time colorado, campeão da Libertadores. Na oportunidade, ele entrou ao vivo no programa “Bate-Bola” com João Carlos Albuquerque na apresentação, ao lado do comentarista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, e do repórter Rubens Pozzi, em frente ao estádio Beira-Rio.

Uma vida de altos e baixos

Manga foi muito famoso no Brasil e no Uruguai. Evidentemente ganhou dinheiro, mas não como os ídolos da época.

Na vida particular, foi casado até quando o momento que o Botafogo o vendeu para o time uruguaio. À época, a esposa, também pernambucana, não acompanhou o marido para o exterior. Resolveu voltar com os filhos para Recife.

Ali houve a maior ruptura com a família brasileira de Manga. Ele teve dois filhos. Adílson, o mais velho, morreu aos 52 anos de idade. Um infarto não deixou que os dois jamais se reencontrassem. Já Wilson, o mais novo, ficou 38 anos longe do pai que tanto se parece com ele. Há anos que os dois não se encontravam.

Wilson diz que não guarda mágoas, apesar da ausência de décadas do pai. “Ele foi embora e poucas vezes ajudou a mim, meu irmão e a minha mãe, já falecida. Lembro que, quando ele voltou para jogar no Internacional, a minha mãe colocou um advogado para que ele ajudasse com uma pensão, mas não era muito. A gente passou muita dificuldade financeira, mas eu não o condeno por isso, ele tinha os motivos dele.”

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Crise financeira

Manga deixou de ganhar dinheiro assim que perdeu o emprego de preparador de goleiro nos times equatorianos. Sabe como é. A idade chega e, se o cidadão não se prepara para a velhice, geralmente o tombo financeiro é inevitável. Foi o que aconteceu com ele, que ganha um salário mínimo no Brasil de aposentadoria, coisa que não dá nem para se alimentar no Equador, já que lá a moeda é o dólar.

Manga e Cecília moravam em uma casa de aluguel em San Antonio de Pichincha, paga pelo filho mais velho de Cecília, Yoryi, de 57 anos, que trabalha com consertos e instalações de aparelhos de ar-condicionado em Quito.

A pandemia do COVID-19 também atingiu o filho de Cecília, que perdeu o emprego, entregou o apartamento do casal e pretende ir morar em Miami. Lá vivem outros dois irmãos e, segundo Cecília, também passam por sérias dificuldades financeiras.

A reportagem da ESPN viajou a Quito a fim de fazer uma reportagem especial com o ex-goleiro. Nossa proposta era trazer o casal para o Rio de Janeiro, onde o sonho de Manga era assistir, quem sabe, ao último jogo do Botafogo, em vida.

Os planos mudaram a partir do momento em que começamos a entrevista, ainda em terras equatorianas. Em um momento da gravação, ele desabou a chorar, implorando que alguém o ajudasse a voltar para o Brasil e ficar definitivamente no país.

Neste momento, não há como separar o entrevistador do lado humano e olhar apenas como um entrevistado. Assim, resolvemos tentar ajudar.

Ligamos para o Retiro dos Artistas, consultando se haveria a possibilidade da instituição recebê-los. Para a nossa surpresa, três dias depois, exatamente na data em que viajaríamos para o Brasil, recebemos o recado do ator e presidente do Retiro, Stepan Nercessian. Ele anunciava que, pela primeira vez na história de mais de 100 anos da instituição, um ex-jogador era convidado a residir no local onde, até então, só moravam artistas.

Viemos para o Brasil sem anunciar a notícia que mudaria a vida de Manga e Cecília ao casal.

Repatriando Manga

A chegada ao Brasil estava prevista para o dia 13 de março e o retorno ao Equador, de onde buscamos o casal, no dia 17.

Em terras brasileiras, Manga foi a um treino do Botafogo, onde conheceu o novo ídolo da torcida, o japonês Honda, o técnico Paulo Autuori e ainda deu uma rápida palestra para os goleiros Gatito Fernández e Diego Cavalieri.

No dia seguinte, Manga recebeu um telefonema de seu filho Wilson, que nos pediu para que levasse o pai até Jacarepaguá, onde vive e busca trabalho como biólogo.

O reencontro dos dois foi emocionante e revelador.

ESPN Brasil produz ‘A Última Cartada de Manga’

Todos os detalhes estão na série especial de reportagens que estamos produzindo para ir ao ar na ESPN, que será finalizada quando a COVID-19 permitir. No início desta reportagem, há um aperitivo da série de três capítulos, “A última cartada de Manga”, com a visita do ídolo do Botafogo a um jogo só para ele entre o time do coração contra o Bangu, no estádio Nilton Santos, além do convite-surpresa de Stepan Nercessian para que o casal viva o resto da vida no Retiro dos Artistas.

O combinado com o casal era que Manga e Cecília voltassem ao Equador, para buscar documentos, algumas peças de roupas e se despedirem do filho de Cecília. Enquanto isso, uma campanha realizada por jornalistas e torcedores do Botafogo foi aberta para arrecadar fundos, por intermédio de uma vaquinha virtual. Este dinheiro seria usado para que casa do Retiro fosse reformada e mobiliada.

Os planos mudaram na data do retorno deles, dia 17, quando o governo equatoriano fechou os aeroportos do país. Assim, Manga e Cecília viajaram com a equipe de reportagem para São Paulo, onde a ESPN arcou com todos os custos de hospedagem, alimentação, remédios, enfim, tudo que o casal precisasse já que. Com muita dificuldade financeira, eles viajaram ao Brasil com apenas US$ 10 no bolso.

De lá para cá houve duas oportunidades para o retorno ao Equador, onde eles resolveriam os últimos detalhes, para enfim, voltarem definitivamente para morar no Brasil. A produção da ESPN entrou em contato com o consulado equatoriano e se dispôs a pagar as passagens de volta, a hospedagem e a alimentação na quarentena que o casal teria que cumprir no retorno a Quito. A segunda oportunidade de retornar ao Equador seria hoje, dia 26, exatamente no Dia do Goleiro, ou seja, na data em que Manga completa 83 anos de idade. Porém, o casal preferiu, por conta própria, permanecer no Brasil. Decidiram ir ao Rio de Janeiro e passar um período na casa de Wilson, em Jacarepaguá, coincidentemente próxima ao Retiro dos Artistas que, também por causa da quarentena, segue fechado para a chegada ou saída de residentes.

Solidariedade de torcedores e da imprensa

Assim como a mobilização ocorrida em setembro do ano passado, quando os torcedores do Nacional, do Uruguai, se uniram para resolver um problema grave de saúde de Manga, desta vez foi a imprensa e os repórteres de vários veículos de comunicação que conseguiram, de forma solidária, ajudar a arrecadar quase R$ 20 mil para que o casal pudesse ter uma vida mais tranquila, com a reforma e a mobília da nova casa.

Gente como PVC e Fred Gomes, do Grupo Globo, Vanderlei Lima, do UOL, Milton Neves do Grupo Band, e outros tantos jornalistas do Nordeste e do Sul do país, todos conseguiram de alguma forma, por intermédio de suas reportagens, mobilizar um número grande de torcedores para que dessem, definitivamente, o melhor presente de aniversário de Manga dos últimos anos de vida dele e de sua esposa Cecília.

Parabéns, Manga, e a todos os guerreiros-goleiros do Brasil!

Fonte: ESPN Brasil

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