Domingo de sol intenso no Rio de Janeiro. Eu, que passava o final de semana com amigos em Arraial do Cabo, resolvi trocar as últimas horas nas lindas praias da região dos lagos pelo clássico no Maracanã. Péssima escolha: além das filas enormes e desorganizadas da bilheteria – que em pleno 2018 ainda não aceita cartões – vi um time completamente exposto na defesa e muito displicente no ataque.

O resultado não poderia ser diferente. Mesmo diante de um time igualmente fraco tecnicamente, estivemos muito abaixo da exigência mínima no jogo coletivo. O resultado até engana sobre o andamento do jogo, pois os dois lados tiveram boas chances, mas a derrota foi merecidíssima pela incapacidade do time em defender e atacar.

O título da Taça Rio era mais importante para a autoestima do torcedor do que pela taça em si, isso é inegável. A conquista não tiraria o clube do patamar atual, mas daria esperança para uma reconstrução. No entanto, os erros que vimos foram preocupantes demais para a sequência da temporada. Se há equilíbrio com os rivais, a régua do Brasileirão já é bem mais acima.

Em campo, o Botafogo começou da pior forma possível: perdendo chances claras de gol. Um clássico não permite isso, uma final muito menos. Depois de jogar fora a chance de sair na frente, sofremos um gol que escancarou nossa fragilidade defensiva. É inadmissível que jogadores entrem tocando a bola pela frente da área até colocar a bola na rede.

Vítor Silva/SSPress/Botafogo

Vítor Silva/SSPress/Botafogo
Brenner perdeu duas grandes chances de gol na partida

Não há combate; o time é completamente exposto, tanto à frente da área quanto pelas laterais. Os meias não recompõem pelas pontas e deixam avenidas, facilmente exploradas por todos os adversários. Jogadas aéreas são um perigo, transformando cada escanteio em um princípio de ataque cardíaco.

O sistema ofensivo está um pouco mais organizado. Os jogadores se posicionam da maneira correta, buscam tabelas e criam oportunidades. O problema é na hora da finalização: um time com defesa frágil não pode se dar ao luxo de perder gols feitos. Só hoje foram uns quatro. Precisamos aprimorar o chute a gol e também o último passe, principalmente os cruzamentos.

A saída de bola, ainda bastante prejudicada pela perda de nosso melhor jogador, também joga contra. O time roda demais a bola até encontrar espaços ou apelar para o lançamento longo – geralmente feito pelos zagueiros, o que é bastante errado. Precisamos caprichar na transição. Se Lindoso e Marcelo não estão dando certo, que sejam testados Bochecha, Matheus e Wenderson.

O time foi facilmente envolvido e neutralizado pelo esquema montado por Abel Braga. Jogando com três zagueiros, o Fluminense congestionava seu campo defensivo com cinco jogadores e partia para o contra-ataque utilizando os alas Gilberto e Ayrton para explorar nossas fragilidades defensivas. Embora sua zaga tenha falhado e deixado espaços para nossos gols perdidos, a ideia de jogo foi boa e traduzida em derrota para nós.

Faltou espírito de final. Não que valesse muito, não que ganhar hoje significaria que todos os nossos problemas estariam resolvidos. A questão é que, com um elenco limitado como o nosso, precisaremos sempre tratar cada jogo como uma decisão. O campeonato nacional começa em menos de um mês e precisamos de muito foco para alcançar os 45 pontos o quanto antes.

O tempo não para. Com a derrota de hoje, estamos classificados, assim como o campeão Fluminense, para as semifinais do Campeonato Carioca. Parabéns à FERJ, novamente, pelo brilhante regulamento. Valentim terá dois dias para transformar água em vinho – pois assim funciona o nosso calendário. Que Garrincha e Nilton Santos olhem por nós.

Notas

Jéfferson: 5
Estamos mal acostumados. Jéfferson tomou três gols cara a cara com os atacantes, ainda conseguindo desviar a bola em dois deles. Já vimos nosso goleiro fazer muitos milagres, mas não podemos esquecer que eles não acontecerão sempre. Não teve culpa em nenhum deles.

Marcinho: 2,5
Partida trágica. Deixou muitos espaços na defesa e errou todas as jogadas individuais, sendo desarmado com facilidade. É um garoto em desenvolvimento e vai oscilar, é natural. Temos duas opções: cobrar, incentivar e ajudá-lo a crescer ou aturar pragas como Luis Ricardo ou Arnaldo. Não me parece muito difícil escolher.

Marcelo: 5
Acima do seu companheiro de zaga, lutou como pôde, mas teve muitas dificuldades contra o ataque mediano do rival. Não conseguiu anular o garoto Pedro, contra quem teve muito sucesso na base.

Igor Rabello: 3
Hoje, sim, falhou em todos os gols adversários. Bote errado no primeiro gol, permitindo a infiltração de Pedro; posicionamento péssimo no escanteio, dando espaço para entrada de Marcos Júnior; carrinho errado no terceiro gol, deixando Jádson na cara do gol.

Moisés: 4,5
Lutou sozinho pelo lado esquerdo, abandonado na marcação por Valencia. Às vezes erra no posicionamento, centralizando e deixando espaço na linha de fundo. Suas arrancadas não surtiram efeito no setor ofensivo.

Marcelo: 3,5
Sua presença em campo é inútil. Não colabora na defesa e nem no ataque, além de fazer faltas desnecessárias e errar passes bobos. A impressão é que estava passeando no gramado do Maracanã. Fraquíssimo. Precisa sair do time o quanto antes.

Rodrigo Lindoso: 4
Tentou organizar a saída de jogo, mas não obteve êxito. Deixou vários espaços na zona central do campo, além de não voltar em algumas subidas ao ataque. Com essa média de atuação, talvez não consiga manter a titularidade.

Luiz Fernando: 5
Não deu sequência à ótima atuação contra o Vasco na quarta-feira. Tímido, pouco apareceu no ataque. Perdeu duas ótimas chances no ataque. Novamente deixou a desejar na recomposição; precisa ser orientado a cumprir a função para não comprometer o funcionamento do esquema tático.

Marcos Vinícius: 4
Só foi visto ao acertar bom chute de longe no primeiro lance da partida e, depois, ao perder chance incrível com o goleiro caído, chutando na rede pelo lado de fora. Precisa ter mais intensidade, pois tem qualidade técnica. Talvez seja jogador para o segundo tempo.

Leo Valencia: 5,5
Bastante participativo, isso não tem como negar. Como cobrávamos dele, botou a cara e jogou bola. Partindo da esquerda ou centralizado, tentou chamar a responsabilidade. No entanto, errou praticamente todos os chutes e cruzamentos. Precisa caprichar no último toque, senão de nada vale a correria.

Brenner: 4
O oposto da partida de quarta passada: paradão, desinteressado, displicente. Perdeu gol feito quando o placar ainda mostrava 0 a 0.

Luis Ricardo: 3
Totalmente sem ritmo de jogo e com a ruindade que lhe é peculiar, nada acrescentou. Queimou uma substituição e não fez nada de diferente em relação ao Marcinho.

Renatinho: 5,5
Entrou e deu algum capricho a mais no toque de bola e na movimentação ofensiva. Uma ou duas boas enfiadas, importantes para recuperar a confiança pós-lesão. Precisa de sequência para ganhar ritmo de jogo e mostrar seu potencial. Será importante.

Rodrigo Pimpão: 5
Melhorou a recomposição quando entrou, mas logo o time se lançou de vez ao ataque para tentar buscar o resultado. Ainda acho que precisa ser titular, já que não há outro que faça o papel tático com a mesma eficiência.

Alberto Valentim: 4
O time fez sua pior atuação do ano. A defesa está uma bagunça, individual e coletivamente. Não há proteção à zaga e nem aos laterais. No ataque, seu trabalho é bem melhor, mas ainda esbarra na falta de pontaria e confiança dos jogadores. Terá muito trabalho para quarta e, principalmente, para o Brasileirão e a Sul Americana.

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPN FC