O túnel do tempo de Manga: ídolo volta ao passado no Bota

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O passado e o presente de Manga estão resumidos em seus dedos. Eles são tortos, quebrados, quase assombrosos, em um resgate de tudo que sofreram (e de tudo que conquistaram) em décadas e mais décadas dedicadas ao futebol. Em um deles, no anular da mão esquerda, repousa uma aliança de casamento. É ao lado de Cecília que Haílton Corrêa de Arruda, de 76 anos, passa seus dias desde 1980, quando eles se conheceram no Equador. E foi ao lado dela, seu presente, que o ex-jogador veio ao Brasil para visitar o Botafogo, palco essencial de seu passado. Em quatro dias no Rio de Janeiro, um dos maiores goleiros que o futebol brasileiro já deu à luz viveu um mergulho em sua própria história. Profissional e pessoal.

Manga visita à sede do Botafogo (Foto: Alexandre Alliatti)
Manga encontra sua própria imagem na sede do Botafogo em General Severiano (Foto: Alexandre Alliatti)

No último dia 13, Manga foi a General Severiano, onde não pisava desde os anos 80. Carregava consigo olhos curiosos, lembrança agitada, passos curtos, corpo levemente curvado para a frente. E Cecília. E um filho. Um filho que não via há 38 anos. Era como entrar em um túnel do tempo: ver imagens dele próprio no passado, jovem, com a estrela solitária bordada no meio do peito, e se reconhecendo em Wilson, sangue de seu sangue. Eles são muito parecidos: o corpo esguio, a pele morena, as maçãs do rosto salientes, as entradas no cabelo. Quando andam lado a lado, parecem cópia um do outro – como se uma linha invisível unisse o hoje e o amanhã de um mesmo homem.
Manga visita à sede do Botafogo (Foto: Alexandre Alliatti)
Manga e Wilson se reencontram: semelhança entre eles impressiona (Foto: Alexandre Alliatti)

Manga fala portunhol. Não tem nem o sotaque de Pernambuco, onde nasceu, nem do Rio de Janeiro, onde se eternizou pelo Botafogo, nem do Rio Grande do Sul, onde tatuou a história do Inter com seu nome. Ele mora com Cecília há mais de três décadas no Equador. Também viveu no Uruguai – é enorme ídolo do Nacional – e nos Estados Unidos. É um homem extremamente simples, silencioso, de frases curtas. Quando alguém o convida para tirar uma foto, ele automaticamente espalma as mãos para a frente e expôe seus dedos tortos. São sua carteira de identidade.

As mãos de Manga encontraram na sexta-feira o cimento fresco de uma placa que o Botafogo pretende fazer em homenagem a seu histórico goleiro. Em um par de horas na sede do clube alvinegro, ele percebeu que segue muito querido por ali.

– Sempre gostei de ficar sob os três paus. Depois de me aposentar, fui um pouco esquecido, mas voltei novamente para cá. Estou novamente aqui no Rio de Janeiro, vivendo como antes tudo aquilo. Vi minha foto, tão jovem, tão novinho. Foi muito emocionante – disse o ex-goleiro.

MOSAICO-   MANGA Visita Botafogo (Foto: Editoria de Arte)
Manga deixa o Equador e visita General Severiano, em dia de volta no tempo (Foto: Editoria de Arte)

Volta ao passado

Manga teve infância extremamente pobre no Recife. Seguiu o caminho de tantos meninos em condições parecidas com a sua e buscou salvação no futebol. O Sport foi o caminho. Foi lá que ele se profissionalizou nos anos 50. Mas naqueles tempos, talvez até mais do que hoje, o centro do futebol brasileiro estava no Rio de Janeiro e em São Paulo. O Botafogo, germinando o maior time de sua história, resolveu apostar no goleiro. Não poderia ter dado mais certo. Manga, com 20 títulos, é o atleta mais vezes campeão pelo Alvinegro, segundo dados do clube.

Manga visita à sede do Botafogo (Foto: Alexandre Alliatti)
Manga observa painel com time dos sonhos do Botafogo. Ele é o goleiro (Foto: Alexandre Alliatti)

O ídolo foi duas vezes bicampeão estadual: 61/62 e 67/68. Ganhou três vezes o Torneio  Rio-São Paulo. Notabilizou-se por provocar o Flamengo ao dizer que já gastava, antes do jogo, o prêmio por vitórias nos clássicos. Foi via Botafogo que ele foi parar na seleção brasileira. Não por acaso, foi emocionante a visita a General Severiano.

O ex-goleiro reencontrou as taças dos Estaduais conquistados. Viu imagens de ex-colegas – gênios como Nilton Santos e Garrincha. Encontrou-se em um painel com o time dos sonhos do Botafogo. Reviu antigos funcionários, antigos torcedores. Foi abraçado por eles. Voltou a viver a rotina de ídolo alvinegro. Um dia depois, foi ao treino do atual elenco e recebeu um quadro das mãos de Jefferson, o atual dono da camisa 1.

Manga visita à sede do Botafogo (Foto: Alexandre Alliatti)
Manga eterniza suas mãos em cimento no Botafogo (Foto: Alexandre Alliatti)

– Foi muito bonito. Eu não esperava tudo isso. Estou muito agradecido com essa homenagem. Meu coração está aqui no Botafogo. Joguei dez anos aqui. Conheço muita gente daqui. Tive muito respeito de todos. E, graças a Deus, fiz um bom trabalho e pude ser campeão no Botafogo.

Manga esteve o tempo todo ao lado do filho. Wilson, prestes a completar 50 anos, não via o pai desde a década de 70. Com o tempo, eles passaram a ter contato telefônico e por e-mail. A proximidade aumentou nos últimos anos, quando Manga voltou ao Brasil para trabalhar no Inter como uma espécie de cônsul do clube na busca por novos associados. Mas havia um problema.

– Tenho muito medo de avião. Eu estava longe. Fiquei afastado do meu filho, mas estou muito contente de estar de volta com ele. É parecido comigo, né? E foi goleiro!

Foi mesmo. Wilson chegou a defender o Náutico profissionalmente. Mas não foi adiante na carreira – até um pouco atrapalhado pelo peso da fama do pai. Virou biólogo ambiental. Há quatro anos, no dia do aniversário de Manga (não por acaso, o 26 de abril também é conhecido como o Dia do Goleiro), ele resolveu telefonar para o pai. O contato foi emocionante.

 – Nunca guardei mágoa do meu pai. Nunca guardei rancor. Sempre o admirei muito como profissional. Depois que o conheci, passei a admirá-lo muito como pessoa também. É um homem muito íntegro, muito simples – comentou Wilson.

Manga teve outro filho que passou décadas sem ver. Adílson, irmão de Wilson, morreu há cerca de dois anos. Também voltara a falar com o pai por telefone, mas não teve oportunidade de revê-lo pessoalmente. A mãe deles morreu há 12 anos.

De Porto Alegre ao Equador

Manga (Foto: Divulgação/Museu do Internacional)
Manga pelo Inter nos anos 70: ídolo histórico do clube
(Foto: Divulgação/Museu do Internacional)

Manga é tão idolatrado no Inter quanto no Botafogo – talvez até mais. Pelo clube colorado, foi bicampeão brasileiro, em 1975 e 1976. Jogou com dois dedos lesionados contra o Cruzeiro na final de 75. Fez defesas impressionantes, mudando de posição quase no ar, em chutes de Nelinho que iam para um lado e depois rumavam para outro. A forte relação fez com quem ele retornasse ao clube gaúcho recentemente.

O ex-goleiro mora no Equador desde o início da década de 80. É quase uma divindade por lá – especialmente no Barcelona de Guaiaquil, onde foi preparador de goleiros depois de aposentar as luvas. Foi lá que ele conheceu Cecília em 1980.

– Ele jogava no Barcelona. Eu nem sabia direito o que era futebol. Mas ele me viu e me seguiu, me seguiu, me seguiu. Foi aí que começou essa linda história de amor que já dura 33 anos – comentou a esposa de Manga.

O casal também morou nos Estados Unidos. Em 2008, retornou ao Equador. Manga não tinha emprego. A situação financeira chegou a ser uma preocupação. Dois anos depois, quando o Inter foi jogar em Guaiaquil pela Libertadores, contra o Emelec, o ídolo foi ao hotel onde a delegação colorada estava concentrada. E pediu trabalho ao clube. Queria treinar os jovens goleiros da base vermelha.

Um mês depois, ele estava de volta ao Beira-Rio. Mas a atribuição acabou sendo mais diplomática do que no campo. Manga virou uma espécie de relações públicas do clube. Viajava para o interior a fim de angariar novos sócios. Em janeiro do ano passado, porém, pediu desligamento do Inter. Ele e Cecília não se adaptaram a Porto Alegre. Preferiram voltar ao Equador, onde hoje o ex-goleiro planeja criar uma escolinha de goleiros. Um eventual convite do Botafogo poderia fazê-lo mudar de ideia, porém. O casal é apaixonado pelo Rio de Janeiro. Em 2009, quando o Alvinegro esteve em Guaiaquil para jogar pela Sul-Americana contra o Emelec, Manga chegou a pedir emprego à diretoria.

Os últimos três anos fizeram bem a Manga. Em 2010, estava menos lúcido. Demonstrava esquecimento, formulava frases com pouco sentido e aparentava alguma fragilidade física. Hoje, está mais forte e consciente. Conversa com naturalidade. Conta histórias. Dá sinais de estar completamente saudável.

– Ele está muito feliz. Sempre se cuidou muito, por isso é tão forte. E sempre fala do Botafogo. Ele adora o Botafogo – contou Cecília.

Manga e Cecília moram na província de Santa Elena, no Equador. É uma região litorânea. Estão à beira-mar. Têm uma vida tranquila, bem diferente dos tempos em que 100 mil pessoas viam o goleiro em ação no Maracanã.



Fonte: Globoesporte.com
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