Na segunda parte da entrevista com Paulo Autuori, o Botafogo de 1995. Dentro e fora de campo, fazendo um paralelo com o momento atual do futebol brasileiro.

BLOG – O Botafogo campeão brasileiro de 1995 seria competitivo em 2020?

PAULO AUTUORI – Eu vivi muitos anos em Portugal e aprendi lá uma frase: “As comparações são odiosas”. São contextos diferentes, pessoas diferentes, momentos diferentes. No futebol brasileiro e mundial. Por outro lado, eu converso muito com Wilson Gottardo, Gonçalves e Wilson Goiano e todos são unânimes: se jogássemos hoje conseguiríamos fazer muitas coisas e sermos competitivos.

BLOG – Mas um time que aplicava compactação, trabalho coletivo sem bola, talvez com exceção do Túlio, os meias Beto e Sergio Manoel fechando pelos lados na execução de um 4-2-2-2 típico da época, mas na prática se defendendo com duas linhas de quatro…

PAULO AUTUORI – Sim, era uma equipe que tinha conceitos do futebol atual. Bem distribuída em campo, que ocupava os espaços com inteligência. A compactação dos setores já era bem clara, assim como as coberturas próximas. De fato, a contribuição do Beto e do Sérgio Manoel sem bola era fundamental.

Eu também apostava muitos nas parcerias, que é algo bem natural no futebol brasileiro. O lateral que combina com o meia e o atacante pelo lado. Ou do volante com o meia e o atacante por dentro. Muitas triangulações. E marcação por zona, até porque eu vinha do futsal.

BLOG – Os jogadores assimilaram as ideias com facilidade?

PAULO AUTUORI – Era um grupo de jogadores inteligentes. Donizete e Gonçalves vieram do futebol mexicano já com uma boa leitura. E tínhamos um jogador muito inteligente no meio-campo, que era o Leandro Ávila. Posicionamento perfeito na frente da defesa.

BLOG – O que você vê na dinâmica de jogo agora que você já trabalhava na época?

PAULO AUTUORI – Tirávamos bem a bola da zona de pressão. Aliás, uma das discussões mais estéreis do futebol é essa em relação ao uso de termos mais modernos. Ora, isso funciona na vida. Na minha época se chamava o amigo de “bicho”, mais recentemente eles se chamam de “brow”, hoje já deve ser outra coisa. Cada época tem seu vocabulário e no futebol também é assim.

Abrir o campo para avançar mais rapidamente. Trabalhávamos com inversões do Leandro Ávila para o André Luís pela esquerda e o mesmo do outro lado, com Jamir passando ao Wilson Goiano. O Jamir ganhou a vaga do Moisés no meio-campo por conta dessa facilidade.

BLOG – O Botafogo era de propor o jogo ou trabalhava de forma mais reativa?

PAULO AUTUORI – Há várias formas de jogar futebol e vencer. Não concordo com essa visão de que todos os times têm que construir o jogo desde a defesa, ter mais posse de bola. Isso é uma ditadura que não combina com o esporte. O contraditório é fundamental.

Eu adquiri conceitos aprendendo ao longo da carreira. Eles não são meus. E é sempre possível aprender até com aquele que você critica. Por exemplo, o Giovanni Trapatonni, treinador italiano, me irritava com o defensivismo das suas equipes, mas eu fui estudar a sua maneira de trabalhar sem bola e trouxe na época algumas coisas para acrescentar ao meu trabalho. Mas não consigo jogar à espreita, apenas especulando.

BLOG – Nós, jornalistas, erramos ao exigir mais de equipes com potencial para entregar mais?

PAULO AUTUORI – O que eu critico é a falta de respeito com alguns profissionais. E a exigência de se jogar apenas de uma maneira. Nem sempre é possível. Adiantar marcação só se for um movimento coletivo, não individual. Se as características dos jogadores permitirem. Essa é a beleza do futebol.

Muito me espanta vermos na TV Globo, por exemplo, uma programação que respeita minorias, diversidade e liberdade na parte artística e no jornalismo. Mas no futebol os analistas não respeitam visões diferentes. Cheira a hipocrisia.

BLOG – Você chegou desacreditado por ser um desconhecido. Como foi reverter isso?

PAULO AUTUORI – Nem eu esperava trabalhar no futebol brasileiro. No Botafogo eu havia trabalhado em 1986, mas na equipe de juniores (sub-20). O Antonio Rodrigues e o Leo Rabello que acreditaram em mim. O Carlos Augusto Montenegro teve a coragem de me dar uma oportunidade.

Meus primeiros trabalhos foram atrás do gol do Estádio Caio Martins. O campo estava passando por uma reforma. E de cara eu mostrei uma variedade de trabalhos táticos que começou a construir a credibilidade que eu tinha com o grupo.

BLOG – Mas havia problemas internos, inclusive divergências entre jogadores.

PAULO AUTUORI – O problema era que o Gottardo e o Sergio Manoel achavam que o Túlio, por ser a estrela, deveria ser mais participativo na reivindicações dos jogadores junto à diretoria. Tinha também a questão dele receber do patrocinador, enquanto o elenco sofria com meses de salários atrasados. Mas o grupo se ajudava, inclusive financeiramente, e todos se uniam em torno de um objetivo comum.

BLOG – Parece que em termos administrativos não mudou muita coisa no clube.

PAULO AUTUORI – De 1995 para cá não conseguimos dar passos à frente com solidez. Isso de forma geral, em relação aos clubes. Só Athletico, Grêmio e Bahia, em termos de gestão. E o Flamengo começando com o Bandeira de Mello e conseguindo as conquistas agora.

O Botafogo é gigantesco, tem história enorme. E tudo que sou eu agradeço ao Botafogo. Por isso voltei e trabalhando como treinador, função que não pretendia mais exercer. Era minha hora de contribuir.

Mas por consequência de sua grandeza há uma cobrança por vitórias na mesma proporção. Só que se cria uma incompatibilidade entre a exigência e as condições de formar uma equipe vencedora, que corresponda às expectativas e também as pressões de torcida e imprensa.

BLOG – O que falta, então, aos clubes brasileiros?

PAULO AUTUORI – Coragem na gestão. Para chegar aos resultados precisa planejar e executar. Citando novamente o Flamengo, ali só tem como dar errado se os gestores fizerem muita besteira. Não pode se fechar para as quebras de paradigmas, ao novo. Sem discurso populista, contratar jogador sem ter como pagar, demitir treinador para agradar torcida e imprensa.

Acho que essa transformação dos clubes em empresas pode ajudar. Tenho conversado muito com o Montenegro sobre isso. Também acredito na boa solução que é dar oportunidades aos ex-atletas que se preparam para gerir, como, por exemplo, o Mauro Silva na Federação Paulista de Futebol. Uma das raras boas iniciativas e que deve servir de exemplo.

Fonte: Blog do André Rocha - UOL