Para o torcedor movido a paixão cega, o possível rebaixamento de um rival sempre é motivo de festa. Mas especialistas e dirigentes pensam diferente, e já externam preocupações. Diante do enorme risco que o Vasco vive, a hipótese de outra temporada com apenas três grandes do Rio na Série A preocupa como um todo um futebol que enfrentará em 2016 um racha institucional, a crise que dificulta o acerto de patrocínios e um longo tempo fora de Maracanã e Engenhão devido ao Rio 2016.

Do ponto de vista econômico, perder um rival na principal competição do país enfraquece os clubes que dividem com ele a “marca” de um clássico, afirmam especialistas do mercado.

— A força dos clubes está muito associada à questão da rivalidade acirrada, no bom sentido. Essas disputas trazem mais valor não só para as marcas, mas para todos os envolvidos no negócio. São estádios mais cheios, jogos mais atraentes, maior interesse de quem consome futebol. O maior valor é a disputa. Mas como futebol envolve paixão, tem muita cegueira do outro lado — disse Cesar Gualdani, sócio-diretor da Stochos Sports & Entertainment.

O consultor de marketing esportivo Amir Somoggi concorda e acrescenta que a economia da cidade também sai prejudicada.

— A ausência de um deles enfraquece o mercado. O volume de dinheiro de TV, bilheteria, dos patrocinadores, muda e isso interfere na arrecadação gerada para as cidades. O impacto econômico pode ser pior do que o esportivo — afirmou Sommogi. Para ele, a situação piora com a impossibilidade de jogar a maior parte da temporada no Engenhão e no Maracanã. — Se o Vasco for rebaixado e os outros três jogarem fora do Rio, isso vai desaquecer a economia local. O clube pode até faturar pontualmente, mas não terá receita gerada. Um jogo de 50 mil pessoas no Maracanã tem um impacto grande naquela região.

Diretor de marketing do Maracanã, Marcelo Frazão lamenta o mau momento.

— Numa situação assim, você perde de imediato clássicos que naturalmente são jogos que podem ter maior renda, especialmente no Rio, onde há boa presença em clássicos locais independente da posição na tabela — afirma Frazão.

RIVAIS SOLIDÁRIOS

Mesmo na condição de desafeto da Federação do Rio, que é aliada do vascaíno Eurico Miranda, o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, avalia que o constante rebaixamento de clubes grandes não é bom para ninguém do Rio. O tom é diplomático:

— Para o futebol carioca seria melhor que todos tivessem sucesso e estivessem disputando a Libertadores. Esquecendo a rivalidade, o ideal para todos os clubes é que seus rivais estejam sempre bem até para valorizar a superioridade.

Campeão da Série B em 2015, o presidente do Botafogo, Carlos Eduardo Pereira, afirma torcer para que o Vasco não caia.

— Eu quero que todos os grandes estejam na Série A. Vivemos a experiência de jogar a Série B este ano e é horrível. O local dos grandes é a Série A. Mais do que o aspecto financeiro, o principal é a autoestima. O ano seguinte da queda é um desastre, isso contamina a torcida, quebra a confiança do trabalho. Não desejo a ninguém.

A logística e a preparação física também entram na conta. Afinal, com todos na primeira divisão, cada um faria seis clássicos no Rio. As longas viagens, por exemplo, aumentam a predisposição de lesões.

— Sempre há um desgaste maior numa viagem para Recife, Salvador. Tem que ter uma preparação específica por causa das distâncias. Em todos os aspectos, o melhor é todos na Série A — disse o preparador físico do Flu, Luiz Fernando Goulart.

Por si e pelo futebol carioca, o Vasco se apega ao bom momento e aos números. Se tem o pior aproveitamento como mandante (quatro vitórias), enfrentará o Santos, domingo, que venceu apenas uma vez fora de casa. E o time estará inteiro para o desafio, diz o coordenador da fisiologia vascaína, Alex Evangelista:

—Estamos com o selo de lesão zero e isso nos dá segurança para permanecer na Série A.

Fonte: O Globo Online