O colapso do BID (Boletim Informativo Diário), registro de atletas publicado no site da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), criou uma caça às bruxas no futebol brasileiro. Desde que os últimos casos tornaram clara a ineficiência do sistema, times começaram a vasculhar registros antigos em busca de erros que ainda possam ser denunciados.

Dois advogados consultados pelo UOL Esporte disseram que cresceu assustadoramente nos últimos dias o volume de times que estão avaliando súmulas e registros antigos. A ação tem duas frentes: buscar erros de rivais e proteger falhas próprias.

“O sistema erra, e erros podem acontecer para os dois lados, mesmo que não exista má fé. Os casos recentes não são isolados, e os times já perceberam isso”, relatou um advogado que trabalha com equipes das principais divisões do futebol brasileiro e que pediu para ter identidade preservada.

Os problemas sobre o BID causaram a demissão de Luiz Gustavo Vieira de Castro, que era diretor de registros da CBF. Ele foi substituído interinamente por Reynaldo Buzzoni, gerente responsável pelo sistema de transferências internacionais de atletas da entidade.

Vieira de Castro vinha estudando maneiras de reformular o BID – a parte de registro de contratos é considerada satisfatória pela CBF e pelos clubes. A CBF segue insatisfeita com o atual modelo, mas o processo de reformulação sofreu um atraso pela demissão do executivo.

Foi uma falha no BID, por exemplo, que gerou polêmica na decisão da Copa Verde de 2014. O Brasília bateu o Paysandu nos pênaltis e ficou com o título, mas perdeu a taça e uma vaga na Copa Sul-Americana do próximo ano porque foi punido pelo STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva).

A primeira comissão disciplinar do tribunal considerou que quatro jogadores do Brasília estavam em situação irregular. Todos tinham contratos até 20 de abril, um dia antes da decisão da Copa Verde, e estenderam os vínculos até 20 de maio. A renovação foi feita a tempo e registrada pela CBF, mas não apareceu no BID.

O caso foi denunciado pelo Paysandu. Dias depois, porém, a CBF emitiu ofício em que admitiu que os jogadores não tinham aparecido no BID por um erro de sistema. A diretoria do Brasília recorreu da decisão do STJD e cobrou explicações da entidade nacional para levar ao julgamento do pleno do tribunal.

Nesta semana, CBF e Icasa tiveram audiência conciliatória sobre outro caso de erro no BID. O time denunciou o Figueirense pelo uso irregular de um jogador na Série B do Campeonato Brasileiro de 2013. Se os catarinenses tivessem sido punidos, perderiam o acesso à elite nacional.

A procuradoria-geral do STJD não aceitou a denúncia do Icasa porque ela foi feita fora do tempo limite. Em fevereiro de 2014, contudo, a CBF admitiu que o tal atleta do Figueirense estava em situação irregular e que o sistema utilizado pela entidade não havia apontado isso.

“Em menos de 12 meses, foram detectados dois casos que mudariam competições importantíssimas. Isso significa que o sistema precisa ser alterado. Todas as pessoas de boa intenção concordam com isso”, disse Carlos Eduardo Guerra, advogado do Icasa.

O time cearense move duas ações contra a CBF. A audiência conciliatória desta semana, na qual a entidade não aceitou falar em acordo, foi sobre a inclusão do Icasa na Série A do Campeonato Brasileiro. Agora, o departamento jurídico do clube espera uma sentença nesse caso. A outra frente é um pedido de indenização de R$ 33 milhões pelo prejuízo causado pela falha de sistema.

No domingo passado (27) houve outro problema sobre o BID. Antes do clássico entre Botafogo e Flamengo, a diretoria alvinegra recebeu aviso de que o lateral Edilson e o atacante Emerson Sheik não tinham condições de entrar em campo.

Edilson e Emerson haviam sido suspensos porque discutiram em jogo contra o Grêmio, antes da pausa para a Copa do Mundo. Cumpriram punição em 19 de julho, diante do Coritiba, mas um erro no sistema da CBF impediu que isso fosse registrado no BID. O Botafogo assumiu o risco e usou os atletas contra o Flamengo.

Outra celeuma causada pelo BID começou na quarta-feira (30), quando Novo Hamburgo e ABC jogaram pela Copa do Brasil. O time gaúcho venceu, mas pode ser eliminado do torneio nacional por ter usado o jogador Preto.

Preto tinha recebido do STJD uma suspensão de dois jogos. Por causa disso, como o Novo Hamburgo está fora das quatro divisões do Campeonato Brasileiro, ele deixou de atuar contra J. Malucelli e no primeiro duelo com o ABC. Segundo a procuradoria do tribunal, contudo, ele não tinha contrato vigente na segunda partida. Portanto, não cumpriu de fato a punição.

Fonte: UOL