O país ganhou 12 estádios com padrão Fifa, mas isso não quer dizer que serão usados em sua plena capacidade. Em 2013, o Brasileirão teve média de 15 mil torcedores – foi somente o 15º campeonato com mais frequentadores. Com taxa de ocupação de apenas 39%, também se deixa de ganhar dinheiro com o público fora dos estádios.

“A ociosidade de público é de 61%. No ano passado, 9 milhões de ingressos não foram vendidos. Estamos falando só de bilheteria ao preço médio do ingresso brasileiro. São 450 milhões de reais que se deixa de ganhar. Espaço vazio é uma atrocidade. Aí, vão descobrir que o ingresso é caro e que tem de baratear. Se isso se confirmasse, todos os times da Série A teriam patrocínio e não iriam precisar da esmola de uma estatal. A realidade seria outra”, diz Fernando Ferreira, economista e fundador da Pluri Consultoria.

Com o baixo público, o Brasileirão perde também em publicidade, e, somado ao que se deixa de arrecadar com bilheteria, os prejuízos podem passar facilmente da casa de R$ 1 bilhão por ano. Um dos principais fatores a afastar o público é a violência dentro e no entorno dos estádios. O Rio é um dos estados que melhor coíbe os confrontos de torcedores desde que o Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe) entrou em ação. Ainda assim, muitos fatores afastam o público de sua paixão.

“Nada resolve tudo, não existe mágica e, sem um conjunto de medidas, não dá para isolar as agressões. O Brasil é o 34º no ranking de público. Por pesquisas, os problemas são trânsito, horário, preço, transporte, TV e, principalmente, violência. São milhões de ingressos que não são vendidos”, explica Mauricio Murad, sociólogo da Uerj e professor do Mestrado da Universo.

O Brasil é bicampeão no ranking de mortes relacionadas ao futebol e caminha para um nada glorioso tri.

“Em 2014, até o fim de abril, foram nove mortes. Em 2012, o número chegou a 23 e, em 2013, a 30. O ano de 2014 é atípico por causa da Copa. O que projeta o mesmo número para o ano, já que, no fim de campeonato, os torcedores são comprovadamente mais violentos”, explica.

Ocupação menor que a Série C da Inglaterra

A taxa de ocupação nos estádios brasileiros é apenas a 34ª do mundo, segundo estudo da Pluri Consultoria. Só 38,6% da capacidade dos estádios são ocupados. O Campeonato Alemão, com 97,7%, é líder, seguido de Inglaterra (97,5%) e Estados Unidos (90,7%).

Os números são ainda piores porque o Brasileirão fica atrás da Série C inglesa (7º lugar), e das Séries B alemã (8º), inglesa (12º), francesa (18º) e espanhola (19º). Países sem tradição futebolística como China, Japão e Austrália também aparecem à frente do Brasil.

“A sensação que temos é de estado abandonado. Vimos a diferença com a Copa do Mundo. Futebol é uma grande festa. Elogiamos a Alemanha, mas o Borussia Dortmund tem parte do estádio para as organizadas, sem cadeiras. Faz parte do espetáculo, a torcida pulsa”, explica Fernando Ferreira.

O Dortmund tem a maior média de público do mundo, com 80,3 mil, seguido de Manchester United e Barcelona. Os melhores brasileiros são Cruzeiro (70º lugar, com 28.911), Santa Cruz (89º, 26.578) e Corinthians (103º, 24.451).

Propostas para conter os casos de violência

O sociólogo Mauricio Murad listou três medidas para se diminuir a violência nos estádios brasileiros, responsável pela morte de mais de 60 pessoas nos últimos três anos.

“A curto prazo, a repressão, com a aplicação das leis. A médio prazo temos a prevenção, como o controle das redes sociais, que, geralmente, são usadas para que brigas sejam marcadas. E, a longo prazo, a reeducação, com campanhas antiviolência de jogadores e clubes, ingressos mais baratos para trazer as famílias de volta e policiamento ostensivo”, explica.

Para Fernando Ferreira, a CBF e os clubes precisam lutar pela volta do público.

“Conseguiremos atingir os objetivos se fizermos como qualquer empresa: para cada problema, um plano de ação”, diz.

Fernando lembra que só estádios não são suficientes: “No Brasil, um por cento da população vai aos estádios uma vez por ano. Isso é pouco. É como os cinemas, que tinham aquelas salas empoeiradas, com mofo. Hoje, estão em shoppings, com estacionamento, lugar marcado. Você não vai ao cinema para conhecer a sala, mas para ver um filme.”

Fonte: O Dia Online