O técnico René Simões lapidou suas palavras com o mesmo cuidado destinado à montagem do time do Botafogo. Deixou de lado as metáforas e o viés filosófico e optou por um discurso simples, objetivo e eficiente: três características aplicáveis também ao estilo alvinegro de jogar.

Da teoria à prática, René percebeu a necessidade de criar um canal de comunicação mais simples com os jogadores do Botafogo diante de uma temporada de desafios enormes, como a volta à Série A e o resgate da dignidade de um clube recém-rebaixado. Ao assumir o time em dezembro de 2014, pouco antes de seu aniversário de 62 anos, o experiente treinador, com um currículo respeitável no mercado do futebol, teve a humildade de reconhecer que nunca é tarde para mudar.

— O trabalho está sendo coroado agora. Tenho certeza que a torcida do Botafogo está satisfeita com o desempenho da comissão técnica — disse o volante Marcelo Mattos.

Ao assumir um time ainda em construção para o Carioca, René teve a chance de começar o trabalho do zero e de zerar a fama que o acompanhava. Estudioso do futebol, autor de livros premiados sobre o tema, o técnico ficou marcado muito mais pelas letras que escreveu do que pelos resultados alcançados dentro das quatro linhas, onde começou no fim da década de 1970.

O discurso enxuto fez as atenções se voltarem para a galeria de troféus do treinador, campeão da Série B com o Coritiba, baiano, com o Vitória, e medalha de prata com a seleção brasileira feminina nas Olimpíadas de Atenas-2004, entre outros.

Nos bastidores do Botafogo, a mudança de René foi natural, mas passou a ser visível para o público quando o técnico pediu licença durante uma entrevista para comparar a vantagem de jogar no Engenhão ao embate entre um leão e um jacaré, no qual o vencedor seria aquele que disputasse a batalha em seu terreno. Foi a única metáfora em quatro meses.

Pouco a pouco, o treinador trocou aquele tipo de discurso, comum em outras épocas, como quando treinou o Flamengo e o Fluminense, por uma palestra mais objetiva, com base em táticas e estatísticas, que ele chama de “indicativos”. Mesmo após uma goleada do Botafogo, René usou os indicativos para explicar a insatisfação com o números de passes errados, faltas e etc.

GEGÊ NO LUGAR DE ELVIS

René descobriu que a geração atual de jogadores prefere aprender através de exemplos do que ouvir conselhos ou palestras. Assim, ele expõe para o grupo na prática, no cotidiano do Botafogo, como é ser um vencedor. Para isso, ele conta na comissão técnica com Jairzinho, herói do Botafogo e o Furacão da Copa de 1970.

Além de Jairzinho, Antônio Lopes, outro campeão mundial (em 2002, era coordenador técnico da seleção pentacampeã), compõe a comissão como gerente. Ontem, ele assistia ao treino no Engenhão com a naturalidade de quem tem mais uma decisão pela frente.

Em vez de fazer mistério, René abriu o treino e o jogo ao testar Gegê no meio, para o lugar do lesionado Elvis. Henrique entrou no ataque como garantia caso Bill, com torção no tornozelo direito, não conseguir se recuperar a tempo do primeiro jogo da final com o Vasco, domingo, no Maracanã. René também treinou jogadas de bola parada, uma das armas mais eficientes do rival.

Fonte: O Globo Online