Para tentar impedir o atraso no pagamento de salários, a CBF seguiu em frente e alterou a regra do Brasileiro. A mudança determina a perda de pontos já neste ano. É um avanço, e poderá deixar para trás, com razão, os clubes cariocas maus pagadores. Se for levado em conta o retrospecto financeiro, não há jogo limpo trabalhista, como exige a entidade, por parte de Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco. Em algum momento de 2014, os quatro atrasaram o pagamento durante os campeonatos nacionais das séries A e B.

A obrigação dos grandes é estar em dia com as vitórias e com as folhas de pagamento. Se em campo nem sempre é possível ganhar, fora dele a derrota poderá vir antes mesmo de a bola rolar. Em todas as séries do Brasileiro, o clube que ficar 30 dias ou mais sem depositar os salários dos jogadores perderá três pontos por partida jogada até o pagamento ser normalizado.

A constatação da irregularidade precisa ser confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), após denúncia feita pelos jogadores, ou seus advogados e sindicato. Isso significa que o jogador não precisará passar pelo constrangimento de fazer a denúncia, muitas vezes tornada pública em entrevistas. Como aconteceu com o Fluminense em 2014. O tricolor chegou a outubro com dois meses de atraso e, apenas no dia 8 daquele mês, pôs em dia os vencimentos para evitar que os jogadores fosse à Justiça reivindicando rescisão contratual, direito garantido por lei após três meses de atraso.

A situação do Fluminense foi exposta pelos jogadores em diversas ocasiões. Em uma delas, o ex-jogador do clube Rafael Sóbis revelou que o atraso nos direitos de imagem chegavam a 15 meses. Levando em conta um atraso de apenas 30 dias, o clube já perderia os pontos referentes a um mês inteiro de competição. Se um time jogar duas vezes por semana, disputa oito jogos mensalmente. Ou seja, uma punição de 24 pontos.

– Há jogadores com 20, 15 meses de salários atrasados. Muitos nos chamaram de mercenários, mas chega uma hora que eles botam para fora – declarou Sóbis à época.

ACESSO DO VASCO ESTARIA AMEAÇADO

A outra ponta do clássico Fla-Flu não deixou por menos em 2014. O Flamengo, em julho, usou de um artifício para driblar o problema de atraso nos salários, que começou em maio daquele ano. O clube, para amenizar a situação, depositou R$ 40 mil nas contas de quem ganhava a partir desse valor. A exemplo do Fluminense, os jogadores não esconderam o problema.

– Queremos receber os nossos salários em dia, temos contas a pagar e precisamos do dinheiro. Porém, é preciso entender a situação do clube, que não vem conseguindo honrar seu compromisso. Não podemos fazer nada – disse o zagueiro Wallace na ocasião.

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Vasco e Icasa jogam no Maracanã, pela Série B do Brasileiro de 2014 – Ivo Gonzalez / Agência O Globo

O Botafogo mostrou entrosamento ao reivindicar coletivamente o pagamento de salários. No clássico com o Flamengo, em julho, os jogadores entraram em campo com uma faixa na qual detalhavam o tamanho do rombo em suas contas devido ao atraso de cinco meses de direito de imagem, três meses do salário previsto em CLT e mais os depósitos do FGTS. Sindicato de Empregados de Clubes do Rio (Sindiclubes) precisou intervir e liberar uma cota de TV no valor de R$ 2,5 milhões para pagar ao menos um mês de salário.

“Estamos aqui porque somos profissionais, e por vocês torcedores”, dizia a faixa exposta pelo goleiro Jefferson e companhia.

Na Série B, o Vasco precisou armar um esquema dentro e fora do campo para subir de divisão e sair do atraso em todos os sentidos. Em outubro, o clube conseguiu pagar dois meses atrasados após pegar um empréstimo de R$ 9 milhões com o banco BMG. Com a reta final da competição se aproximando, o clube não poderia correr riscos. Se fosse este ano, com a nova regra em vigência, o time perderia pontos e poderia continuar na Série B.

Fonte: O Globo Online