Durante 17 anos, João Leite da Silva Neto defendeu com vigor a meta do Atlético-MG. Maior vencedor de títulos do clube mineiro, ele ganhou 11 Campeonatos Mineiros, uma Copa Conmebol, virou lenda e trouxe ao mundo Helton Brant Aleixo Leite.

Hoje no Botafogo, após passagens por J.Malucelli-PR, Boa Esporte-MG, Ipatinga-MG e Criciúma-SC, ele demorou a seguir os passos do pai, chamado de “Arqueiro de Deus” pela torcida atleticana, já que pensava jogar em outra posição.

“Sempre joguei futebol em escolinhas e fui fazer teste na linha no Atletico-MG como volante, joguei um ano assim”, contou, em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.

Não era só o posicionamento diferente, mas também o gosto por outro esporte por influência da mãe, Eliana Aleixo, ex-jogadora de vôlei.

“Ao mesmo tempo eu jogava vôlei no Minas Tênis Clube. Era mais ponteiro, pelos lados da rede. Eu treinava três vezes por semana vôlei e três futebol. Ai eu conciliava até o meio de 2005, quando sai do Atlético e fui para o América-MG”, disse.

E a decisão de Helton finalmente tentar jogar futebol com as mãos veio de dentro de casa. Mas não de João.

“Eu não estava tendo muitas oportunidades e um dia cheguei em casa e minha mãe falou: ‘porque você não tenta no gol?’ No dia seguinte, pedi para ir para o gol. Já tinha brincado, sabia de toda história do meu pai. Falei para o treinador, que respondeu: ‘sim, vamos ver se você puxou seu pai’, comentou.

“Quando pedi o uniforme de goleiro, até o roupeiro se surpreendeu. Não tinha técnica, nem nada, mas tinha coragem e o vôlei meu deu todo o tempo de bola. É diferente, mas ajuda. Eu jogava e defendia, era mais de defesa e passes, não era o cara que fazia muitos pontos (risos)”, lembrou.

Apesar da curta carreira nas categorias de base do vôlei, Helton não jogou com nenhum Giba, Serginho, Dante, Gustavo ou Murilo da vida…

“Era muito novo, mas não lembro de ter atuado contra alguém famoso ou que tenha virado no vôlei. Eu jogava porque gostava bastante. Minha mãe falava: ‘se não der no futebol, vai para o vôlei’. Mas deu tudo certo e vi que não dava pra conciliar”, contou.

João Leite sempre foi importante para o crescimento do filho dentro e fora de campo. De acordo com o arqueiro botafoguense, o ex-jogador lhe deu liberdade para atuar em uma das posições mais crueis no futebol.

“Ele sempre me deu muitos conselhos de éticas de trabalho, como trabalhar pesado e ter sempre o melhor para ajudar os companheiros e ser feliz jogando ou não. Ele nunca entrou nas questões técnicas para ser invasivo. Ele quis me deixar livre e sabe que goleiro sofre demais, ele me deixou decidir”, comentou.

Família de esportistas

Não foram apenas João e Helton que seguiram a carreira de esportistas. Na família Leite, Daniela, irmã do goleiro, também se destaca, inclusive com medalha de ouro na ginástica rítmica por equipes dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Sua outra irmã, Débora Leite, seguiu os passos da mãe.

“Ela também jogou vôlei, era líbero e jogou profissionalmente. Depois foi para os EUA e parou. Em Pequim, ela parou com a ginástica”, lembrou. Além de pai e irmã esportistas, também teve o tio.

“O irmão da minha mãe também se chama Helton e jogou tudo… Futsal, vôlei e basquete. Era de todas as seleções de Minas Gerais”, garantiu.

Oitavo goleiro?

Com passagem nas categorias de base do Grêmio, onde jogou de 2008 a 2010, Helton Leite sofreu com a forte concorrência na posição.

“Lá foi muito bom. O primeiro ano de Júnior foi importante pra minha formação. Rafael Martins, Douglas Costa, Bruno César, uma turma boa… Tinha muitos caras bons e tinha tantos goleiros que era quase o oitavo (risos)”, gargalhou.

Multicampeão na base gremista, ele ainda teve oportunidade de treinar com os últimos grandes arqueiros da equipe tricolor.

“Ganhamos os Brasileiros em 2008 e 2009, Taça BH. A estrutura é muito boa de trabalho e foi importante treinar com o profissional e trabalhar com o Victor e Marcelo Grohe”, relatou.

Chegou ao Botafogo em 2014, quando a equipe disputava a Copa Libertadores da América. Com o time focado na competiçã continental, Hélton teve a chance de atuar em um clássico contra o Fluminense pelo Campeonato Carioca e não decepcionou. “Pegueri pênalti do Fred e ganhamos por 3 a 0. Foi muito marcante essa partida, ainda mais por ser contra um clube grande”, recordou.

No Brasileiro daquele ano, o arqueiro teve aquela que considera sua melhor atuação na carreira, na vitória diante do Corinthians.

“Achei que não ia mais jogar na competição, mas o Jéfferson foi convocado para a seleção principal e o Andrey pra olímpica ao mesmo tempo. Foi a maior guerra em Manaus contra o Corinthians, jogamos fechados e achamos um pênalti. Depois seguramos até o final mesmo com um jogador expulso”, recordou.

Mesmo assim a equipe terminou rebaixada, mas no ano seguinte conseguiu o acesso. Hoje, ele é o reserva imediato de Jéfferson ídolo do Botafogo e com diversas passagens pela seleção brasileira.

“Além de um amigo é um excelente goleiro. Você vê a qualidade dele no dia a dia. Mesmo com um estilo diferente do meu pego muitas coisas com ele, aprendo muito. É um dos que mais treina e leva à serio qualquer jogo, mesmo tendo ganhado muito. É o que eu vou levar para minha carreira”, afirmou.

Feliz na equipe de general Severiano, Hélton não tem planos de sair do clube. “A gente não sabe o dia de amanhã, futebol muda muito rápido, mas tenho vontade de permanecer aqui muito tempo. Tenho boa identificação com o time e torcida. Aqui me sinto respeitado”, finalizou.

Fonte: ESPN.com.br