Técnico do CRB, Ademir Fonseca lembra seus 12 anos no Bota

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Muitos botafoguenses podem não lembrar, especialmente os mais novos, que o técnico do CRB, adversário desta quarta-feira, pela Copa do Brasil, tem uma longa história no Glorioso. Ademir Fonseca chegou ao clube ainda adolescente e jogou com a estrela solitária no peito por 12 anos. Ele, no entanto, participou de uma geração que ficou marcada pela falta de títulos. Quando o Bota encerrou o jejum, em 89, com o famoso gol de Maurício, contra o Flamengo, ele havia deixado General Severiano dois anos antes.

A casa de Ademir em Bento Ribeiro, na Zona Norte do Rio de Janeiro, permanece um reduto alvinegro. Seu pai, José, iniciou esta paixão. No local, o técnico do CRB mantém diversas fotos, camisas e recortes de jornais da época em que defendia o Glorioso. Ele confessa que sempre que precisa enfrentar o Bota sente algo diferente.

– Já enfrentei algumas vezes, no Carioca, na Série B… mas bate aquele frio na barriga. Foi o clube que me abriu as portas quando eu tinha 12 anos. Depois que saí do Botafogo, fiquei uns dois ou três anos sem olhar uma foto minha no clube por causa da frustração de não ter sido campeão, algo que a gente sonhava – disse o ex-volante.

O ex-jogador tem muitas histórias para contar, muitas delas de dificuldades, já que viveu um período em que o clube não se encontrava dentro de campo e tinha muitos problemas estruturais.

– Fiquei dos 12 anos até os 24, em uma época difícil. O Botafogo naquela época não ganhava títulos, ficou 20 anos na fila. Era motivo de gozação para todos os lados. Tinha umas situações complicadas. Naquela época, o clube não remunerava bem os funcionários e não pagava seus credores. Passava em Marechal Hermes, e lá tinha a “Pensão da Carlota”, onde nós garotos almoçávamos. Era motivo de gozação. Quando passávamos na rua, as pessoas gritavam: “Olha a Carlota, olha a Carlota”. Era bastante vergonhoso.

Ademir Fonseca - Botafogo (Foto: Fred Huber)Ademir com sua família botafoguense, mas que nesta quarta estará na torcida pelo CRB (Foto: Fred Huber)

Confira a entrevista completa com Ademir Fonseca:

GLOBOESPORTE.COM: A maioria da sua família torce pelo Botafogo. Como vão ficar nesta quarta-feira?

ADEMIR FONSECA: Minha mãe (Maria Teresa) não acompanha muito, mas meu pai sempre gostou muito de futebol e é botafoguense roxo e anti-flamenguista (risos). Mas nesta quarta a torcida dele é pelo CRB, pelo vermelho e branco. Minha esposa Patrícia é botafoguense também, mas não se envolve muito. Se não for CRB amanhã, é divórcio (risos).

Você tem um grande acervo em sua casa. É uma forma de matar saudade, apesar de ser um período com frustrações?

Guardo para os meus filhos. Os mais velhos (Wilander e Winicius, que são seus auxiliares no CRB) não quiseram seguir o caminho alvinegro, são rivais, são flamenguistas. Espero que os gêmeos (Gianlucca e Matteus) sigam a raiz da família. São muito novos, mas se depender de mim serão botafoguenses e vão jogar no clube.

Ademir Fonseca - Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal)
Marinho, Alemão, Leís, Josimar, Luis Carlos e Vágner (em pé). Helinho, Renato, Baltazar, Elói e Ademir (agachados) – equipe do Botafogo em 1985 (Foto: Arquivo Pessoal)

Naquela época de dificuldades, como era a reação com a torcida?

A cobrança era intensa, os botafoguenses sempre foram muito exigentes. O clube sofria bastante porque fazia boas equipes e não conquistava títulos. Revelava jogadores, mas infelizmente não tinha muita estrutura, bem diferente do que é hoje. Hoje em dia está bem organizado em todos os aspectos, por isso que vem brigando por títulos nos últimos anos.

Qual era a maior dificuldade? Lembra de alguma história?

Quando a gente saía em Marechal Hermes depois de uma derrota era complicado. No Maracanã mesmo. Era constrangedor sair, tinha que esperar as luzes se apagarem para que todos saíssem. Arranhavam os carros, queriam agredir… Eles não aceitavam. Teve um jogo que nós perdemos para o Flamengo por 6 a 1 que foi terrível para sair do Maracanã.

Ademir Fonseca - Botafogo (Foto: Fred Huber)
Ademir Fonseca guarda um acervo em sua casa  no Rio de Janeiro (Foto: Fred Huber)

Alguns jogadores da sua geração se destacaram, como o Josimar e o Alemão. Por que acredita que o clube ficou tanto tempo sem ser campeão?

A cobrança nos garotos que vinham da base era enorme. Na minha geração, muitos bons jogadores foram revelados, mas poucos se destacaram. Posso citar alguns desses, como Helinho, Alemão e Josimar. Talvez o Luizinho tenha sido o último a ter destaque. Saímos de General Severiano para Marechal Hermes, e as pessoas não aceitavam muito isso, houve uma divisão. Nesta transição, o clube sofreu muito. Faltou investimento e apoio, o que fez com que o Botafogo ficasse 20 anos sem ganhar nada.

Qual sua melhor recordação?

Quando subi para o profissional, minha primeira viagem foi para Europa para enfrentar a seleção francesa no Parque dos Príncipes. Meu primeiro gol foi neste estádio, uma coisa que jamais vou esquecer.

Nestes 12 anos, você jogou com muitos jogadores. Quais lembranças tem destes personagens?

Fiz grandes amigos. Paulo Sérgio, que foi um grande goleiro, Luis Carlos, Marinho, Brasília, Osvaldo, Demétrius, Ataíde, Baltazar, Robertinho, Elói, Renato… tínhamos grande valores. O falecido Neca teve grande importância na minha carreira, ele que apostou em mim. Joel Martins também. Sebastião Leonidas, que coordena a base, ainda contribui muito com o clube.

Ademir Fonseca - Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal)
Ademir Fonseca em ação pelo Botafogo em  partida contra o Flamengo (Foto: Arquivo Pessoal)

O jejum terminou em 89, dois anos depois da sua saída. Quais foram os motivos para que deixasse o clube?

Vivi um conflito até os 29 anos. Mas era muito imaturo e rebelde, achava que podia romper tudo no peito. Eu não aceitava algumas atitudes da diretoria. Os jogadores de renome eram tratados de uma forma, e os humildes de outra. Me tornei rebelde. Já era um líder. Emil Pinheiro (que foi presidente) chegou ao Botafogo e fez um bem ao clube, conseguiu um título, mas ele excluiu a base. E eu estava nesta exclusão. Acabei me prejudicando, pois colocava a cara. Deus me deu oportunidade de continuar no futebol e hoje sou melhor técnico do que fui jogador. Não permito que meus atletas tenham os mesmos erros que eu.

Com tanta história no Bota, como vai ser para você ficar do lado adversário novamente nesta quarta?

Até antes de começar o jogo, é um conflito muito grande. Meu organismo se prepara para um jogo como se eu ainda fosse jogador, ainda mais contra o Botafogo. Quero alcançar este objetivo importante para a minha carreira e preciso da vitória.

Ademir Fonseca - Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal)
Ademir com a taça do Alagoano 2013 entre os
filhos, que são seus auxiliares (Arquivo Pessoal)

Qual é a estratégia para tentar eliminar o Botafogo e seguir na Copa do Brasil?

Vamos para o campo com muito respeito, já que o Botafogo tem uma grande equipe e excelentes jogadores. O Seedorf é a referência, mas tem uma espinha dorsal de dar inveja a qualquer time. Mas não podemos ficar acovardados. Temos que respeitar, ter calma e, se cochilarem, podemos surpreender. Se conseguirmos, será nosso segundo “título” no ano.

Você não conseguiu ser campeão no Bota como jogador. Quem sabe no futuro não tem a chance como técnico?

Tive uma oportunidade alguns anos atrás, quando fui campeão paulista pelo Ituano, em 2002, e estava excursionando pela Europa, e veio uma sondagem para acertar com o Botafogo. Meu coração foi a mil. Eu disse: “Meu Deus, chegou minha hora”. Só que eu era muito jovem, e aquela oportunidade não se concretizou. Vamos ver daqui para frente.

Fonte: Globoesporte.com

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