Torcida única nos clássicos do Rio divide opiniões entre entidades e especialistas

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A ação civil pública, do Minstério Público Estadual (MPE), que pede torcida única nos clássicos cariocas ainda será apreciada pelo Juizado do Torcedor e Grandes Eventos. Porém, as autoridades envolvidas diretamente nos casos de brigas entre facções organizadas tendem a concordar com a proibição, ou alguma solução mais efetiva. O argumento voltou à tona após os episódios de violência no confronto entre Botafogo e Flamengo, no último domingo, no Engenhão, que terminaram com a morte de um torcedor e deixaram oito feridos.

A decisão será do juiz Guilherme Schilling, que assumiu o Juizado do Torcedor e Grandes Eventos, este mês. O ex ocupante do cargo, o juiz Marcelo Rubioli, agora no Tribunal de Justiça do Rio, considera que esse pode ser o primeiro degrau para se chegar a um modelo mais seguro para os torcedores.

– Acho que é um caminho. O próximo, talvez, seja inserir os espetáculos esportivos no planjemanto das forças armadas, que estão em caráter excepcional no Rio até o fim do Carnaval. A possibilidade de jogo com portões fechados não é viável do ponto de vista dos clubes. Mas estamos tratando do Estatuto, que prevê a proteção dos torcedores – sugere Rubioli, acrescentando que o interior dos estádios não tem tido problemas graves de segurança, salvo o caso recente do jogo entre Flamengo e Corinthians, no Maracanã. – Hoje, o estádio é um local seguro. No caso de torcida única em clássicos, não haveria aglomeração daquela que não vai entrar nas proximidades. Não tem como garantir qual medida vai ser mais eficaz.

Comandante do Grupamento Especial de Policiamente em Estádios (Gepe), o Major Silvio Luís, informou que vai conversar com o MPE e o Juizado para saber detalhes do pedido, antes de emitir uma opinião sobre o assunto. Porém, o responsável pelo policiamento nos estádios e acompanhamento das organizadas em dias de jogo, ressalta que, diante do comportamento das torcidas, algo precisa ser feito.

– Preciso avaliar o que estão propondo, mas o que posso dizer é que o comportamento das torcidas já passou do tolerável – afirmou o Major, destacando que os clássicos do Rio só não são com torcida dividida igualmente quando a configuração do estádio não permite. – Já tivemos casos assim em São Januário e na Arena da Ilha, onde os visitantes só podem receber 10% dos ingressos.

QUESTÃO ALÉM DOS ESTÁDIOS

As evidências, contudo, apontam que o problema vai além dos estádios. Antes do caso no Engenhão, a última briga de grandes proporções entre torcedores de Flamengo e Botafogo havia acontecido em julho de 2016, terminando com um morto. O conflito ocorreu em Bento Ribeiro, bairro da Zona Norte localizado a mais de 20 km do Estádio Luso-Brasileiro, onde os times se enfrentavam naquele dia.

Para o antropólogo Renzo Taddei, professor da Unifesp e autor de pesquisas sobre torcidas organizadas no futebol, o problema principal não é sequer a falta de policiamento, seja dentro ou fora de estádios. Na avaliação do especialista, torcedores e polícia desenvolveram, ao longo de décadas, uma relação turbulenta que tem questões sociais como pano de fundo:

– Não é à toa que a maior parte da violência a que uma torcida é submetida ou se submete em sua existência são conflitos contra a polícia, e não contra alguma torcida inimiga. O Estado impõe a segmentos inteiros da população um código de comunicação onde não há palavras, apenas brutalidade – avalia.

Taddei argumenta que o distanciamento entre torcidas organizadas e o restante da sociedade tende, na verdade, a acentuar a presença de membros que infringem a lei. Na opinião do antropólogo, lidar com a questão da violência no futebol depende de mais diálogo.

– Se houvesse uma interlocução saudável entre as comunidades das torcidas e o poder público, a mídia e a sociedade em geral, essas situações seriam mais fáceis de serem evitadas. O que eu estou dizendo é que muito menos do que 1% dos integrantes das torcidas causam problemas. Veja só: os Gaviões da Fiel tem cerca de 25 mil associados; as torcidas do Flamengo são também imensas. E qual o saldo do problema com as torcidas? Em 2016 foram 9 mortos em estádios. É muito mais perigoso andar de bicicleta do que ir ao estádio.

PROCURADOR VAI CONTESTAR NA JUSTIÇA

Segundo o blog Gente Boa, a Procuradoria Geral do Estado vai contestar na Justiça o pedido do Ministério Público para que os clássicos do Rio tenham torcida única nos estádios.

– É uma medida inadequada – diz o procurador-geral do Estado, Leonardo Espíndola – O Fla-Flu, por exemplo, é um patrimônio nacional que não pode ser banido por conta da ação de vândalos.

O Botafogo, por meio de nota da assessoria de imprensa, elogiou o trabalho do Gepe, mas se mostrou aberto a experiências que possam tornar os estádios mais seguros.

“Apesar de considerar que no último domingo houve um ponto fora da curva, pois o Gepe sabe fazer escolta, chegada e saída de organizadas, o Botafogo é favorável a experiências no sentido de melhorar as condições de segurança do futebol. Esse tipo de experiência, de torcida única, já deu certo em outros estados. O que o Botafogo não considera simples é ter a responsabilidade de cadastramento de membros de organizadas. É uma premissa quase impossível, porque os clubes não têm poder de fichar torcedores nem tem como controlar acesso a um local. Para o poder público, pode ser mais viável. Se for a decisão dos órgãos competentes, o Botafogo estará pronto para colaborar”, diz a nota.

Já o Flamengo, através de seu presidente Eduardo Bandeira de Mello, disse ser “totalmente contra” a torcida única em clássicos. O Fluminense, por sua vez, mostrou preocupação de que a medida acabe adotada de forma definitiva.

Além do veto à divisão das arquibancadas em clássicos, o promotor Rodrigo Terra também pede aos clubes que “se abstenham de fornecer gratuitamente ingressos às suas torcidas organizadas”. O Botafogo garante que não distribui bilhetes para as organizadas.

Fonte: O Globo Online