A briga entre facções organizadas de Botafogo e Flamengo, no domingo passado, no entorno do Engenhão, reascendeu a discussão sobre a punição das torcidas. Por enquanto, está em vigor a torcida única no estado. Sem fazer juízo de valor, um levantamento feito pelo GLOBO mostra que apesar da suspensão das facções organizadas estar sendo mais rigorosa, desde 2013, as quatro facções principais (Força Jovem Vasco, Fúria Jovem do Botafogo, Torcida Jovem Fla e Torcida Young Flu) não conseguem ficar nem um mês sem ser punidas, isso desde 2012. Várias delas não frequentam, oficialmente, estádios desde 2013 e mesmo durante o período de punição elas voltam a se envolver em brigas.

O levantamento feito com base nas decisões judiciais do período de 2012 até esse ano, mostra que em 2012 e 2013 as penas ainda não eram tão rigorosas, elas variam entre um número específicos partidas e até seis meses de punição. E mesmo assim, foram raros os casos que uma dessas torcidas campeãs em punições puderam de fato voltar a frequentar estádio de futebol.

Foi em um desses raríssimos momentos de não-punição que aconteceu o episódio responsável por aumentar a pena das organizadas. No dia 8 de dezembro de 2013, as facções organizadas Força Jovem Vasco e Os Fanáticos (Atlético Paranaense) brigaram na arquibancada da Arena Joinville, na última rodada do Brasileiro daquele ano.

A partida que decretou o rebaixamento do Vasco foi interrompida por causa de uma briga generalizada nas arquibancadas. O jogo, aliás, já estava sendo realizados fora Curitiba porque a mesma torcida atleticana já havia arrumando confusão e, com isso, o clube foi punido com a perda do mando de campo.

Por causa da briga, que passou ao vivo, em rede nacional e chocou o paí, as facções organizadas foram punidas de frequentar qualquer praça esportiva — o que antes era limitado a jogo de futebol — por um ano. 2013, alias, foi ano mais violento do futebol no Brasil. Nesse ano, o país ganhou o título nada honrado de ser o país que mais mata por causa de futebol no mundo.

Além da suspensão por um ano, que passou a ser padrão para brigas de facções organizadas, os torcedores identificados em brigas também começaram as ser mais duramente punidos. Eles ficam proibidos de ir a jogos e obrigados a nos dias das partidas de seus clubes a se apresentar a delegacia mais próxima:

— Temos recursos legais não apenas para prender como também tirar dos jogos os torcedores briguentos. O Estatuto do Torcedor é claro: reclusão de 1 a 2 anos, e caso a conduta não seja tão grave, é possível permitir a conversão da pena de reclusão para proibição de comparecimento a jogos por até 3 anos — explica Carlos Eduardo Ambiels advogado especializado em direito desportivo.

PUNIÇÃO FALHA

No entanto, a própria Justiça sabe que a punição é falha. Uma vez que é recorrente que esses brigões e suas facções briguem durante a punição.

— Funciona assim: o individuo precisa se apresentar na delegacia, se ele não for, o delegado avisa à Justiça o não comparecimento, isso é anexado do processo do brigão em questão. Quando isso chega à Justiça, mandamos um mandado de prisão preventiva, por não obedecer uma ordem judicial. Mas, muitas vezes, nesse meio tempo, esse indivíduo já brigou de novo — explica o juiz Marcello Rubioli, que acabou de deixar a titularidade do Juizados Especial do Torcedor e Grandes eventos.

A sensação de impunidade parece alimentar esses torcedores. O Grupamento de Especial de Policiamento em Estádios (Gepe) tomou há alguns anos a decisão de começar a tentar obrigar o cadastro das torcidas organizadas. Para liberar um número grande de instrumentos e bandeiras os matérias precisam ser proporcionais ao número de cadastro. Vinha funcionado e as brigas acabaram sendo deslocadas para longe dos estádio. Mas, na rua, as confusões, com mortes, como a de domingo, continuaram acontecendo:

— A sensação de impunidade é o problema. O indivíduo, quando está no meio da torcida, tem a sensação que está no grupo e pode fazer coisas que individualmente não faria. O histórico recente mostra que aqui no Brasil os atos de violência dos torcedores têm um índice de punição muito baixo. Não há identificação correta de quem praticou — afirma Ambiels.

Fonte: O Globo Online