Blindagem. Essa palavra tem sido recorrente no futebol. Os clubes brasileiros tem cada dia mais se fechado para evitar o vazamento de informações de bastidores e algo que deixa o cabelo em pé dos treinadores às vésperas de qualquer partida: a escalação.

O Atlético-MG, nesta temporada, foi um dos últimos clubes ‘liberais’ a utilizar alguns métodos na Cidade do Galo para blindar o elenco como lista de relacionados que deixaram de ser divulgadas, zona mista em desembarque extinguida e treinos com as portas fechadas. E no Rio de Janeiro, o Botafogo, clube que ainda resiste quanto a democracia com a imprensa também começa a se utilizar de tal metodologia no dia a dia.

Ao longo da temporada, apesar de não ter sido uma constante, o departamento de futebol tem aprovado atividades restritas em jogos-treino e determinados períodos de ‘turbulência’, como em queda de treinador, considerando-se que já que são quatro até aqui em oito meses em General Severiano.

Na primeira atividade do novo técnico Zé Ricardo, o acesso dos jornalistas foi proibido. Privacidade foi a palavra de ordem para a atitude.

Mas como fica a relação com a exposição dos patrocinadores no cotidiano? Até 1985, o Botafogo não fez qualquer tipo de publicidade de empresas em seu uniforme de jogo, embora a Adidas fornecesse o material esportivo desde 1976 sem estampar sua marca.

O primeiro patrocinador do clube foi a rede de postos ‘Atlantic’, por um curto período de tempo. A partir de 1987, a Coca-Cola passou a estampar sua marca no uniforme de diversas equipes brasileiras. No Botafogo, permaneceu de 1987 a 1994, sendo até hoje a publicidade de maior duração na história do clube.

Um dos patrocinadores de maior sucesso no Botafogo é, até os dias hoje, o refrigerante ‘Seven Up’, marca de uma gigante norte-americana, que esteve na camisa na campanha do título brasileiro de 95. Segundo pesquisas, a marca conquistou 35,4% do segmento limão do mercado nacional de refrigerantes, tendo o Botafogo como um dos principais responsáveis por alavancar as vendas no país.

Atualmente, o Botafogo conta com oito patrocinadores sem contarmos o hotel, que serve de concentração para o elenco no Rio de Janeiro e a fornecedora de material esportivo. Apesar do clube ainda não ter assinado contrato com a Caixa, o banco estatal segue tendo seu logotipo estampado como patrocinador master do Alvinegro desde o início do ano.

Para o vice de comunicação e marketing do clube, Marcio Padilha, os treinamentos fechados não afetam o relacionamento do Botafogo com os parceiros e projeta uma intensificação da exposição pelas redes sociais para diminuir o impacto sem a mídia presente nas dependências do Nilton Santos.

“A ideia é conciliar os interesses do futebol, comercial e marketing. Está chegando um treinador novo e há uma estratégia de fazer uma aproximação do técnico com os jogadores. O Botafogo tem feito a divulgação de um farto material nas redes sociais com fotos e imagens. Não há prejuízo para o patrocinador. Eles estão todos em evidência. O patrocinador entende que há uma estratégia que deve ser respeitada. Os nossos números são excelentes. Nossa exposição é muito grande. Acredito que todos estão bem satisfeitos. Não acredito que por um treino ou outro a relação será prejudicada”, afirmou.

Em contato com a reportagem da Radio Globo, um dos principais apoiadores da atual administração do clube, o Youtuber Felipe Neto colocou a paixão em primeiro lugar e afirmou que não se opõe a decisão do departamento de futebol.

“Acredito que há momentos e momentos. O Botafogo vai passar por um período complicado. O Zé, que é um treinador absolutamente competente e estudioso, chega agora no meio de um trabalho onde precisa conhecer o elenco, pegar adaptação e conduzir tudo para sua forma de trabalhar. Eu apoiarei qualquer decisão que seja no sentido de unir o grupo, melhorar o desempenho e levar o Botafogo à parte de cima da tabela. O Botafogo é maior e mais importante que qualquer patrocinador e no dia em que suas decisões passarem a ser tomadas pensando primeiro no patrocinador e depois no clube, aí sim eu irei criticar abertamente.”

Atualmente, o Botafogo fechou todas as suas posições no uniforme para patrocínios até o final do ano. Apenas o meião está sem parceiro.

Através de números do IBOPE/REPUCOM, no ano passado, o Botafogo esteve presente na mídia em 100% dos dias, sendo: 54 jogos transmitidos ao vivo, 239 VT’s e compactos. De acordo com o relatório apresentado pelo vice de comunicação, na sede do clube, no final de 2017, o espaço ocupado pelo Glorioso nos veículos de comunicação foi equivalente a R$ 786 milhões, e pelos patrocinadores alvinegros, de R$ 484 milhões. Desse número, R$ 130 milhões são o que o Ibope chama de “retorno de exposição qualificada aos patrocinadores”.

De qualquer modo, para especialistas, o Centro de Treinamentos pode ser um espaço a ser explorado com a presença de mídia, que os clubes acabam não sabendo negociar ao fechar um contrato com um novo patrocinador. Quem defende essa tese é o professor de marketing e gestão esportiva, coordenador do curso Escola de Negócios da PUC-RIO, Ricardo Mathias.

“Um Centro de Treinamentos é um potencial de exposição de marca para o clube. Um exemplo é a Seleção Brasileira. Não há exposição na camisa. Mas, há nos dias de jogos em torno do campo, backdrop, entrevistas… O momento para expor a marca no treino potencializa. É mais uma oportunidade”, disse.

Para o economista e professor de gestão e finanças, Ruy Quintans, os patrocinadores precisam analisar a frequência que as marcas são expostas e que os treinos fechados acabam sendo um complicador em um mercado que vive em crise.

“Se fosse dono de uma marca não gostaria que ela ficasse oculta. Quero que apareça o tempo todo. É o que acontece na F1. Se o sujeito (piloto) for a um casamento de smoking, ele precisa usar um boné para mostrar o patrocinador. Na Seleção, a camisa de treino parece um outdoor, mas é o momento que tem para apresentar. Não abriria mão de jeito algum de apresentar a marca em uma vitrine a qual desembolsa-se milhões”, garantiu.

Os clubes tem reforçado seus departamentos de marketing para a exploração da imagem própria. O Botafogo apesar do crescimento com a parceria com os irmãos Neto, ainda não aparece no Top 10, entre os clubes com maior visibilidade nas redes sociais com um número pouco acima dos 3 milhões de visitações, segundo dados do IBOPE/REPUCOM de agosto. De acordo com Ruy Quintans, esse caminho parece sem volta, mas ainda há a dependência da grande mídia para fortalecer na exposição de mercado.

“A imprensa é fundamental. Não deve haver regras cerceadoras no futebol. Os departamentos de comunicação não podem criar barreiras. Eles devem se esmerar em tornar uma relação profícua. Preparem os principais jogadores da equipe e os dirigentes. Existem alternativas para isso. Torne a relação amistosa. Torne isso positivo”, afirmou.

O jornalista Emerson Gonçalves, do blog Olhar ‘Cronico Esportivo’, do Globoesporte.com foi sucinto ao afirmar, que ‘transformar as camisas em veículos de propaganda foi a saída encontrada pelos clubes para tentar manter receitas altas de patrocínio, o que, a rigor, acabou acontecendo apenas parcialmente’. Com as atividades cada vez mais restritas, as empresas se voltam para as transmissões dos jogos para expor suas marcas. Tal exemplo implica no número de patrocinadores pontuais crescer ano após ano para Ricardo Mathias.

“Pode ser uma fragilidade. Se não há tanto potencial de exposição por mais tempo, é necessário ter uma profissionalização. Os clubes precisam buscar um equilíbrio com os parceiros comerciais de longo prazo e não pontual. Tudo isso passa pela capacidade de gestão, modelo de governança, transparência. Nenhuma empresa quer associar sua marca a um clube que não tem boa gestão ou seja desorganizado, sem sustentabilidade financeira e econômica. Quanto mais forte seu clube é, maior o seu poder de negociação. O CT é uma ativo importante. Se não há mais espaço para a marca, sua contrapartida é menor e surgem os patrocínios pontuais. Por isso, que hoje os clubes que tem seus estádios próprios, tem uma capacidade maior de engajamento e interação entre marca e torcedor”, completou.

O Botafogo fechou a temporada 2017 em 10º, no número de patrocínio master na Série A, com 10 milhões da Caixa, e em sétimo com 13 milhões da Topper, como fornecedor de material esportivo.

A exposição em uma competição de relevância como a Libertadores no ano passado deixou o Botafogo mais atraente para os patrocinadores. O clube embolsou R$ 18,9 milhões em receitas com patrocínios e publicidade. Quase o dobro do ano anterior, no qual lucrou R$ 9,3 milhões.

Esse ano, em meio aos problemas em campo, vai conseguindo se sustentar buscando um equilíbrio entre marketing, comercial e futebol.

Fonte: Rádio Globo