O velho Grêmio x Botafogo da década de 60 desbotou na memória de Valdir Espinosa. O placar foi esquecido. Se alguém fez gol, não importa mais. De reminiscência, apenas a razão que o fez trocar a sala de aula pelo Estádio Olímpico.

– Eu era torcedor do Renner, campeão gaúcho de 1954. Mas o time acabou. E eu matei aula para ver o Garrincha. Cada vez que ele tentava driblar, levava porrada do Ortunho.

Esse foi o primeiro Grêmio x Botafogo da vida de Valdir Espinosa. Saiu dali ainda mais impressionado com o gênio das pernas tortas, mas, vai entender, tomado de paixão pelo Grêmio. Emoção maior foi defender a camisa do clube gaúcho já aos 15 anos, como lateral-direito da base.

O que não impediu o destino de cruzar no seu caminho tantas outras vezes as duas bandeiras. Já com as chuteiras penduradas, o treinador Valdir Espinosa levou o Grêmio às conquistas da Libertadores e do Mundial de Clubes, em 1983. E, no Botafogo, foi o comandante do time que interrompeu um jejum de 21 anos sem títulos, com a conquista do Carioca de 1989.

Sua última casa foi o Grêmio, onde era coordenador técnico. Demitido há pouco mais de um mês, Espinosa não estará no estádio nesta quarta-feira. Ainda morando em Porto Alegre, assistirá ao jogo pela televisão. E garante não ter preferência, apesar da evidente mágoa.

– Não adianta olhar para trás e administrar tristezas. Preciso estar preparado para outras situações. No fim do jogo, terei a alegria de quem ganhou e a tristeza de quem perdeu.

Embora ainda não tenha conversado com o técnico do Grêmio, Renato Gaúcho, após a demissão, Espinosa garante que a amizade continua.

– Pais e filhos podem discordar, mas se respeitam. O amor não foi conquistado do dia para a noite. Não foi um título, mas comportamentos e situações que vivemos. Com certeza, vamos nos encontrar. Deixa passar isso tudo – diz, buscando na memória as lembranças que desbotam, mas não morrem.

São muitas.

MUNDIAL E CARIOCA COM O MESMO PESO

O Mundial ou o Carioca? Se fosse obrigado a abrir mão de um deles, Valdir Espinosa passaria a vida pensando. E talvez não chegasse a conclusão nenhuma, embora a escolha pareça óbvia.

– Eu não comparo. No Grêmio, vivemos um sonho. No Botafogo, acabamos com um pesadelo. O time passou 21 anos ouvindo a torcida adversária cantar parabéns pra você. Quando fui contratado, encontrei o Telê Santana num restaurante. Ele disse: “Botafogo? Você tá maluco” – lembra Espinosa.

O maluco deu certo. Fez história e amizades nos dois clubes que se enfrentam nesta quarta-feira, a partir das 21h45, no Engenhão. No Grêmio, foi consolidada a boa relação com Renato Gaúcho, iniciada em 1978, no Bento Gonçalves, onde Espinosa era lateral do time principal e, o então atacante, uma promessa da base. No Botafogo, nasceu a bagagem romântica dos tempos do então vice de futebol Emil Pinheiro, que se tornaria presidente do clube.

O Carioca de 1989 representou o fim de um jejum de 21 anos
O Carioca de 1989 representou o fim de um jejum de 21 anos Foto: Custódio Coimbra / 21.06.1989

– Uma das maiores pessoas que conheci na vida. Ele tinha uns 200 cheques no talão, pois assinava um a cada pedido de ajuda. Vi jogador matar o filho três vezes. Nenhum jogador morava na Barra da Tijuca. Só os do Botafogo, porque o Emil tinha 500 apartamentos lá e emprestava aos caras. Eu mesmo morava em um deles – conta, empolgado com o passado.

Fonte: Blog da Marluci Martins - Extra Online