Avançar em três competições simultâneas não é tarefa para qualquer time. No Brasil, em 2017, só dois conseguem render acima da média em mais de duas frentes: Botafogo e Grêmio. São os únicos clubes que estão nas oitavas de final da Libertadores e na semifinal da Copa do Brasil – os gaúchos avançaram na quinta-feira, vencendo o Atlético-PR por 3 a 2 na Arena da Baixada. Para melhorar, ambos estão na metade de cima da tabela do Brasileiro.

O Grêmio, vice-líder da Série A com 32 pontos, tem sido o principal perseguidor do líder Corinthians, oito pontos à frente. Já o Botafogo é o sétimo, com os mesmos 24 pontos do Sport, time que abre o G-6 atualmente. Além de Botafogo e Grêmio, só o Flamengo tem chances de conseguir vaga na Libertadores do ano que vem através de três competições – só que o rubro-negro disputa a Sul-Americana, por ter sido eliminado na fase de grupos da Liberta deste ano.

A caminhada de sucesso de Botafogo e Grêmio começou em meados de 2016, quando o país ainda vivia clima de Olimpíada e Paralimpíada. Os times mudaram de treinador, aprimoraram sua forma de jogo e aprenderam a conviver com desfalques importantes sem perder desempenho.

MUDANÇA DE COMANDO

Quando Jair Ventura foi efetivado como técnico do Botafogo, em agosto de 2016, a reação de boa parte da torcida foi de incredulidade. A experiência anterior com um técnico das divisões de base alçado ao time profissional – com Eduardo Húngaro, em 2014 – não trazia boas lembranças.

Jair assumiu o time principal após a saída de Ricardo Gomes, que optou por ir ao São Paulo. Embora o time estivesse na zona de rebaixamento, muitos acreditavam que a situação estaria ainda pior sem Gomes, responsável por um padrão de jogo pautado na busca por solidez defensiva.

Pois Jair não só manteve o DNA tático como ainda aprimorou o sistema de jogo. Quando Renato Gaúcho assumiu o Grêmio, no mês seguinte, o Botafogo já estava em nono, à frente do time gaúcho (11º) na Série A.

Renato Gaúcho também inspirava certa desconfiança ao chegar a Porto Alegre, em setembro do ano passado. Apesar de respeitarem o ídolo do clube gaúcho, muitos torcedores questionavam o critério na substituição de Roger Machado, que havia imprimido um estilo de jogo ofensivo e atraente no Grêmio, sem consertar no entanto problemas defensivos. Se o problema era equilíbrio tático, Renato era capaz de resolver?

Ele vem provando que sim. Além de manter a intensidade do time no ataque, Renato desenvolveu uma equipe que também consegue marcar forte e diminuir espaços na defesa. Hoje, os pontos fortes de cada time ficam evidentes: enquanto o Botafogo de Jair tem a quarta melhor defesa da Série A (14 gols sofridos), o Grêmio tem o melhor ataque (31 gols) e a sexta zaga menos vazada (17 gols).

SOBREVIVER COM MUDANÇAS NO TIME

Em 2017, tanto Botafogo quanto Grêmio acabaram trilhando seus caminhos de sucesso até aqui sem peças-chave no meio-de-campo. Por motivos distintos, Douglas e Camilo saíram de cena, e ambos os times mostraram que um estilo de jogo sólido é capaz de suprir ausências importantes.

Douglas, responsável por articular o meio-campo gremista sob o comando de Renato Gaúcho, rompeu ligamentos do joelho esquerdo em fevereiro e mal jogou neste ano. Sem ele, o Grêmio passou a apostar ou no recuo de Luan para armar as jogadas ou em um meio-campo sem um camisa 10 tradicional.

Graças à velocidade de Pedro Rocha na ponta-esquerda, às infiltrações de Ramiro pela direita e ao dinamismo dos volantes Arthur, Michel e eventualmente Maicon, o time sobreviveu. Além de avançar na Copa do Brasil, o time gaúcho se vê em boas condições de chegar às quartas de final da Libertadores, já que venceu o jogo de ida contra o Godoy Cruz, fora de casa, por 1 a 0.

Foi o mesmo resultado obtido pelo Botafogo contra o Nacional-URU, também fora de casa, no jogo de ida das oitavas de final. O autor do gol, João Paulo, é quem tomou a vaga de Camilo no time titular neste ano. Embora sinta-se confortável chegando à área adversária, João Paulo tem perfil mais marcador do que Camilo, que perdeu espaço por opção tática de Jair Ventura.

O técnico alvinegro avaliou que o time podia ser ainda mais perigoso no contra-ataque se tivesse um meio-campo mais combativo e que segurasse menos a bola. Deu certo, e Camilo perdeu tanto espaço que decidiu ir embora para o Internacional.

Agora, o desafio tanto de Botafogo quanto Grêmio será mostrar que as escolhas de seus treinadores resistem às fases decisivas de competições importantes, além do desgaste natural da temporada – ainda mais quando se disputa, e com chances de sucesso, três torneios simultâneos. Parafraseando o já batido lema do filme Homem Aranha: com grandes façanhas, surgem grandes responsabilidades.

Fonte: O Globo Online