O camarão ao alho e óleo chegou à mesa ainda fumegante, como acompanhamento da temperada conversa sobre o Fluminense x Botafogo deste domingo, a partir das 18h30m, no Raulino de Oliveira. Mas não queimou a língua dos dois amigos. Da mesma forma, mágoas requentadas não esfriam o amor de Aílton pelo Tricolor e de Wagner pelo Botafogo.

– O gol do título carioca de 95 é meu. Guardei a súmula num envelope, e está lá escrito: Aílton, camisa 8, fez o gol. Mas insistem em dizer que foi o Renato. Fico chateado. Se você compra uma casa e a escritura está no seu nome, ela é sua – reclamou Aílton, há quase 21 anos mastigando, sem digerir, a barriga de Renato Gaúcho, no meio do caminho entre o seu chute e a fama de herói que não veio, na final contra o Flamengo.

– O Botafogo ainda me deve. Sou o 17º da fila de espera no ato trabalhista – resmungou o ex-goleiro Wagner, campeão brasileiro em 1995 pelo Alvinegro, seu emprego durante nove anos.

O restaurante de Wagner, no Mercado São Pedro, em Niterói, foi o ponto de encontro da dupla. Enquanto o Botafogo não engorda sua poupança, o ex-goleiro, aos 47 anos, leva a vida servindo pratos especializados em frutos do mar.

Já o ex-meia Aílton, de 50, treinador do Resende até o início do mês, quando foi demitido, compensa o desemprego com o aluguel de cinco imóveis. Mas o orgulho de verdade vem do passado, dos tempos de campo e bola.

– Não vejo, no Rio, nenhum jogador que lembre meu estilo – lamentou o ex-meia: – No Corinthians, o Elias tem tudo a ver. Eu marcava e chegava para fazer gol.

– Hoje, muito jogador que ganha rótulo de craque nem disputaria coletivo na nossa época – ressaltou Wagner.

A amizade vem de 1997, quando foram campeões do Estadual pelo Botafogo.

– O Joel Santana só dava treino de manhã. Ele fazia um x-tudo: físico, tático e técnico no mesmo treino. E, nós, jogadores, éramos bem bagunceiros – lembrou Aílton.

– A gente fazia festa todo dia – concordou Wagner.

E hoje, quem fará a festa?

– O Fluminense, que tem um plantel mais qualificado – avaliou Aílton.

– Mas o Ricardo Gomes está fazendo tudo direitinho – rebateu o ex-goleiro, providenciando um guaraná para um brinde antes da despedida.

– Eu bebia muito. Agora, ando devagar – disse Aílton, com sede de gol, especialmente daquele que foi parar em outra barriga.

Fonte: Blog da Marluci Martins - Extra Online