Exemplo de Messi, razão da saída de três e construção com os jogadores: Enderson destrincha estilo no Botafogo

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Por FogãoNET

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Exemplo de Messi, razão da saída de três e construção com os jogadores: Enderson destrincha estilo no Botafogo
Vitor Silva/Botafogo

O aproveitamento de 74% fala por si só. O título antecipado e o acesso para a Série A do Campeonato Brasileiro mais ainda. Enderson Moreira pegou o Botafogo na 14ª posição, sem grandes perspectivas e foi campeão da Série B.

Em excelente entrevista ao podcast “Prancheta”, do “GE”, Enderson Moreira deu detalhes da forma de jogo do Botafogo, do que pensa de futebol e como não impôs seu modelo aos jogadores. Pelo contrário: construiu em conjunto.

– Todo pós-jogo nosso vamos lá conversar sobre o que aconteceu no jogo. Tínhamos duas tabelas, mostrávamos os lances e construíamos dois slides. Um do que foi muito positivo no jogo, isso tudo construído por eles (jogadores), e outra com o que não foi tão bom e pode ser melhorado. Havia uma construção do jogar, não foi uma coisa de cima para baixo. Há muito tempo não acredito nisso. Não quero que façam porque estou pedindo ou mandando, quero construir com eles essa forma de jogar. Tenho certeza absoluta pela minha experiência de mais de 20 anos trabalhando com equipes que a construção do jogar é mais eficiente se tem a participação dos atletas. Eu falo como gosto de jogar, mas se eles não acreditam muito em algo podem falar, para repensarmos o que pode ser feito – explicou Enderson.

– Geralmente faço essa conversa 48 horas pós-jogo. Porque 24 horas após ainda estamos muito machucados pelo jogo, ou muito felizes pela vitória ou muito tristes pela derrota. Espero o coração ficar um pouco mais de lado e o racional se apresentar novamente. Então, 24 horas depois eu tinha uma reunião com equipe de análise, três meninos fantásticos, Alfie (Assis), (Rodrigo) Mira e Vinicius (Bispo). Cada um é responsável pela nossa área. Alfie pelo nosso jogo, Mira pelo adversários e Vinicius pelo mercado. Fazíamos uma reunião prévia, ia a comissão técnica, mais o (diretor de Eduardo) Freeland, que sempre gostou de participar, o Lucio Flavio, que é da casa. Separávamos os melhores lances e depois fazíamos a reunião com os jogadores – acrescentou.

Leia os principais pontos sobre a parte tática:

Estilo de jogo

– Tenho uma concepção muito clara de questões defensivas e ofensivas. Na minha opinião, acho que na de todo mundo que vive no futebol, é importante atualmente todos os atletas terem a mesma capacidade defensiva e ofensiva. O que determina? É só a questão da bola, quando tem, você ataca, quando não tem, você tem responsabilidade defensivas. Comecei a responsabilizar um pouco mais os jogadores de frente na questão defensiva, fazer entender que se tivessem comportamento adequado as chances do adversário seriam menores. Falei da importância de fechar principalmente o corredor central. Se os adversários tivessem a posse de bola, que seja em U, de lateral para zagueiro, até o outro lateral. Uma posse que não produz nada. O problema é quando o lateral liga o volante, que já toca no outro volante e chega no outro lateral. Aí já começamos a sofrer muito. Passei isso para eles, tirei as referências individuais, nossa marcação é setorizada, bem compactada, passei quando subia a linha defensiva. Nossa defesa passou a jogar muito mais alta, em bloco mais curto, e muito mais perto de pressionar o homem da bola. Foram medidas importantes para podermos sofrer poucas ações dos outros adversários. Foram apenas um ou duas chances cara a cara com o Diego Loureiro nesses 25 jogos. Conseguimos bloquear bem. Saber a hora de pressionar e estar preparado para a bola longa. É importante para o atleta você dar palavras-chaves para eles entenderem o momento de tomar atitudes.

Forma de marcação

– São fases bem importantes. Eu tinha bem claro definido quando o time subia mesmo a marcação. Falava que marcar pressão o tempo todo não dá, é muito complicado. Quando há um tiro de meta temos obrigação de marcar em cima. O segundo momento é quando o adversário de alguma forma dá um passo para trás. Quando recuperávamos essa bola, o que tínhamos? Se fosse jogada em área defensiva nossa, precisávamos rapidamente iniciar posicionamento para atacar o adversário. Se rouba a bola e tem condição de acelerar, tem perspectiva de transição rápida… Todo time faz pressão pós-perda, precisamos de um passe de ruptura para tirar essa bola da pressão. Aí tem espaço, é decisão importante, de contra-atacar ou manter posse. Essa decisão é deles, de acordo com o momento.

Importância da saída de três

Fazíamos saída de três, tínhamos dois volantes que não voltavam antes da primeira linha adversária, posicionávamos o meia entrelinhas e colocávamos o outro lateral para formatar linha de quatro na frente. Porque para quem joga no 4-4-2 ou 4-2-3-1, é extremamente incômodo marcar linha de quatro na frente. Cria insegurança no adversário. Pode recuar extremo e formar linha de cinco, aí ganharíamos espaço atrás. Com um lateral espetado, ganhamos muito em amplitude e possibilidade de atacar pelos lados. É claro que nem tudo saiu redondo, porque foi pouco tempo, isso vem com repetição. Nosso processo foi muito rápido.

Questão matemática

A saída de três não é uma coisa feita por mim, é muito antiga, lavolpiana. É matemática. Geralmente o adversário marca sua saída em inferioridade. Se você sai com quatro, ele deixa três. Os campos estão padronizados, são 68 metros de largura, cada jogador vai ter aproximadamente 22,5 para marcar. Quando sai com três, um adversário tem que retornar. Então dois jogadores vão precisar bloquear 34 metros. É muito mais difícil marcar. Tem essa questão matemática. Se rodar a bola, eles não conseguem mais fechar, você sai com a bola limpa, começa a desconstruir o castelo defensivo do adversário, vão saindo jogadores deles e vamos criando linhas de passes para explorar as lacunas. Não gosto de tirar a referência dos dois zagueiros, deixar um aberto de um lado e outro do outro, porque quem melhor defende o centro são os zagueiros. Tem quem faça com volante entrando pelo centro, eu prefiro deixar eles mais acostumados com a função. O único que sai totalmente é o lateral espetado, pode ser o esquerdo ou o direito futuramente.

Agressividade

Costumo falar com os atletas, se quer saber se a equipe é agressiva é se faz movimentos de profundidade. Temos estimulado muito, valorizámos muito o jogador que faz o movimento para receber a bola na frente. É um ponto que precisamos melhorar cada vez mais. Às vezes criar o espaço, mesmo que não receba a bola, fazer a defesa se preocupar. Sempre incentivamos muito dentro de um padrão. A preferência de passe não é quem está livre, é para frente, quando não dá, para o lado, quando não dá, para trás. Não pode perder essa sequência. Se há possibilidade de passe para frente, tem que priorizá-la. Não o passe lateralizado ou para trás, que não cria espaço dentro do adversário. O jogador tem que olhar para longe, para o jogador mais distante. Às vezes você ganha muito espaço com um passe, tem que visualizar os jogadores livres à frente.

Exemplo de Messi

– Em 2014 eu tive a oportunidade ver o Messi jogando na Copa do Mundo. Estava em Porto Alegre, fui ver Argentina x Nigéria para ver o Messi jogar, porque o pessoal falava que ele ficava desligado, não participava. Mas ele o tempo todo faz movimento de pescoço, é como se tirasse fotografias, mapeasse o time adversário. Quando a bola cai no pé dele sabe o mapa da mina, as zonas mais vulneráveis. Muitas vezes a questão de olhar longe não é com a bola, é quando está sem ela. Para quando a bola chegar já ter uma definição melhor.

Formação do ataque

– Um extremo, como Diego Gonçalves ou Marco Antônio, tem que ser um segundo atacante ou um meia-atacante. Precisa ser jogador com facilidade de jogar de fora para dentro, que chegue mais. Do outro lado quero um mais agudo, por isso fiz a opção pelo Warley tantas vezes. Ou o Marco Antônio, que pode jogar em três posições. O Ronald tivemos poucas oportunidades de usar. O (Rafael) Navarro posicionávamos mais pela direita, não gostava dele no meio dos zagueiros, queria tirar a referência deles. Ficava mais próximo do lateral-esquerdo adversário, fazia flutuação interessante e atraía para Pedro Castro ou Daniel passarem. Ele é um jogador que faz muito movimento de profundidade, ataca o espaço e tem força absurda. Tem muita potência para chegar nesses cruzamentos e bolas que abríamos pelo lado. Fez um campeonato fantástico, não só nas questões ofensivas, com 14 gols e nove assistências. Não é só fazer gols. No jogo contra o Operário, em determinado momento, o Ronald faz jogada aos 45 minutos do segundo tempo e o Navarro dá pique para trás, sai da intermediária ofensiva para a defensiva em velocidade impressionante. Foi muito importante até defensivamente.

Fonte: Redação FogãoNET e podcast Prancheta (GE)

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