Jorge Braga revela ter aceitado acordo de Textor para receber 70% a menos por bônus antes de ‘calote de proporções bíblicas’: ‘Me senti assediado, humilhado’

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Por FogãoNET

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Jorge Braga foi CEO do Botafogo de 2021 a 2022
Vítor Silva/Botafogo

Ex-CEO do Botafogo, Jorge Braga se pronunciou pela primeira vez nesta terça-feira (25/10) após acionar a SAF do clube na Justiça para ser ressarcido e obter a rescisão do contrato. Em entrevista ao blog “Negócios do Esporte”, do “GE”, do jornalista Rodrigo Capelo, o ex-executivo deu mais detalhes do que o motivou a acionar a esfera judicial.

Braga disse que chegou a aceitar um acordo proposto por John Textor para receber 70% a menos do que estava combinado como bonificação da venda da SAF para continuar como CEO agora da empresa, mas que não recebeu nada.

– Esse é o motivo da minha ação. Eu tomei um calote de proporções bíblicas. Daqueles de envergonhar antigas práticas amadoras. O que aconteceu? Antes de a gente celebrar todos os documentos, eu tinha direito no meu contrato a uma bonificação, pela reestruturação, por tirar um clube que valia menos centenas de milhões para uma venda de mais de bilhão. E é um percentual pequeno, menos do que média de mercado, mas que chama atenção porque o crescimento de valor foi muito grande. Ninguém esperava que a venda do Botafogo fosse desse patamar. Como é possível uma transação desse tamanho? Foi porque o Botafogo estava saneado, estruturado, estava na Série A, crescendo receita – disse Braga, continuando:

Então, no final do trâmite, antes de a SAF ser transacionada, o John me fez a seguinte proposta. “Jorge, eu entendo o contrato, as suas cláusulas, mas eu preciso de um desconto de 70% do valor que você tem a receber, e eu vou te pagar em três anos, sem juros e sem correção monetária, pela transação, pela recuperação, pela conclusão do negócio, e você segue comigo como CEO. A gente mantém seu contrato nas mesmas condições com o Botafogo. Você aceita?”. Imediatamente, eu aceitei. Então, veja. 70% de desconto, em três anos, sem juros. Eu disse para ele: se é isso que você precisa, e você vai honrar, então eu aceito essa sua proposta. A partir daí, o que foi prometido nunca aconteceu. Isso foi em 10 de março. Meu contrato foi migrado, as minhas condições, o meu bônus, as minhas cláusulas, eu sou lá o contrato número um de prestação de serviço.

Ato contínuo, eu fiquei três meses sem receber coisa alguma. Absolutamente nada. No meio daquela correria. Um belo dia, depois de três meses sem receber absolutamente nada… E falar disso é muito difícil, Capelo, porque me deixa muito constrangido, eu nunca passei por nada parecido na minha vida, e olha que eu já lidei com reestruturações complicadas, com (fundos) abutres, mas eu nunca tinha visto nada parecido com isso. Eu mandei um e-mail, né? Porque é difícil falar com o John, nem sempre ele retornava, semanas sem responder, pedindo, dizendo que estava preocupado com o futuro, o que está acontecendo. No dia seguinte, ou dois dias depois, eu recebo uma carta da SAF dizendo: “olha só, vou pagar aqui um pedaço do teu contrato de CEO.” Um pedaço que não é todo. Assim como o jogador tem um contrato com salário, bicho, prêmio, bônus, luva, o salário de executivo no mundo corporativo, com a minha experiência e o meu tamanho, também tem outras variáveis que não só o fixo. “Então eu vou pagar um pedaço do seu fixo e não reconheço mais nada que foi celebrado com você”. Cara, e aí, a minha vida foi ficando muito complicada depois desse e-mail. Se a tua pergunta é “por que eu entrei com uma ação?”, é porque eu não tive alternativa. Eu durante seis meses, primeiro sozinho, depois com ajuda, eu pedi ajuda aos estatutários, ao presidente do Deliberativo, ao Durcesio, ao presidente do Conselho Fiscal, nos últimos meses com os advogados, para tentar compor uma solução amigável e não consegui – encerrou.

Na noite desta segunda-feira, o Botafogo havia se antecipado a eventuais entrevistas que Jorge Braga concederia, acusando o ex-CEO de “promover inverdades, se vitimizar e usar a opinião pública para interferir no seu processo”.

Jorge Braga falou ainda sobre o processo de “escanteamento” das suas funções e do problema de saúde que o afetou recentemente, dizendo nunca deixou de trabalhar pelo Botafogo mesmo internado.

Confira outros trechos da entrevista:

Decisão por acionar a Justiça

“Eu levei muito tempo me perguntando o que tinha acontecido. Porque até um dia eu era respeitado, e dito “sem você não teria ocorrido a transação”, isso com mensagens, e-mails, da XP, do John, dos conselheiros. No dia seguinte, eu passei a ser um problema? Até escutar a convicção dos meus advogados. Um dos motivos que me fez contratá-los foi, ao contar o que estava acontecendo, um deles olhou para mim e disse: “há muito tempo eu não via nada dessa natureza, a justiça precisa ser feita por você”. A argumentação deles é de que, como a proposta do John era 70% de desconto parcelado em três anos, sem juros, o quanto antes eu saísse, mais barato ficaria. É a convicção deles. Falo por eles aqui. Estou tentando entender ainda o que aconteceu. Na visão deles, tudo o que eu senti de humilhação, de esmagamento, não foi pessoal, foi uma estratégia financeira de pagamento.”

Escanteamento

“E aí eu vou te dar alguns exemplos, que nenhum deles sozinho é um problema, mas no conjunto eles demonstram o meu sentimento, o que eu passei. Primeiro, o escopo de atuação. “Desculpa, contratos de futebol não são mais contigo, você não entende de futebol”. E eu atribuí a isso talvez um pouco ao ruído, de ter defendido o clube por tanto tempo, da negociação ter sido tão dura, para proteger dívida, coisa e tal. “Não, você não entende de futebol”. Na sequência, eu comecei a ter muita dificuldade a ter acesso a relatórios financeiros, decisões estruturadas. É muito perigoso você ter responsabilidade sem ter autoridade. O meu histórico, o meu passado, é de muito comprometimento. Ainda assim, meu senso de responsabilidade… Eu fui focando no que tinha que fazer. Todos os jogos que estava no Nilton Santos, eu estava lá. De placa de LCD a grama. Inclusive, num dos momentos bonitos, em um dos jogos eu estava vendo se o LCD funcionava, e a torcida começou a falar comigo, bater palma, porque não é comum ver um CEO descer para ver se o LCD, se a grama do campo estava funcionando, mas nenhum detalhe, ainda que menor, me passava despercebido.”

Liga e patrocínio da Blaze

“Todas as grandes transições, a negociação de liga, a reunião em São Paulo, a reunião em que o Botafogo entrou na Libra, fui eu que orquestrei, enderecei, viabilizei. Outros, por exemplo. O patrocínio da Blaze. Em maio, o Lênin apresentou, e apesar de na época a colocação do John era de que não queria ter uma betting [casa de apostas], porque o Crystal Palace não tinha, porque não era bem visto, nós apresentamos uma proposta de R$ 15 milhões de patrocínio, que foi rejeitada. Curiosamente, dois meses depois, foi aceita. Não sei por quais valores, mas foi aceita. Todos os momentos importantes de esforço, comprometimento, receita, transação, eu estive presente.”

‘Meu compromisso com o Botafogo foi absoluto até o último dia’

“Até que eu fiquei doente. Foram dois meses, fiz duas cirurgias, fiquei internado. Em momento nenhum deixei de ir. Em determinado momento, eu estava internado no Einstein, teve a invasão do CT, eu estava monitorado nas máquinas, ela disparou porque minha pressão subiu, as enfermeiras entraram correndo no quarto querendo me tomar o celular. Meu compromisso com o Botafogo foi absoluto até o último dia, e eu não consegui entender essa resenha de “não ajudou”, “não participou”. Até que eu escutei a resposta dos advogados. A tese deles. Aí começou a fazer um pouco mais de sentido para mim. O meu sentimento foi de muita humilhação. Teve situações de gente que eu contratei, de eu mandar um e-mail, e a resposta ser: “não posso te responder, desculpa, tô proibido de te responder”. O que podia ter sido resolvido de qualquer outro jeito, né? O meu contrato tinha cláusulas de saída, de rescisão, podia ter sido tratado a qualquer tempo. Mas não foi.

‘Eu me senti assediado, humilhado’

“A minha percepção é de que o processo foi desnecessariamente dessa forma. Eu me senti assediado, humilhado. De verdade, numa das muitas reuniões que eu tentei acertar isso com o John, ele me disse: “se você sair e entrar na Justiça para cobrar o que você acha que tem direito, você vai colocar a tua reputação em risco, o teu legado em risco”. Então, ainda tinha essa ameaça velada, no meu entendimento, de atacar minha reputação, se eu simplesmente cobrasse o que foi repactuado com 70% de desconto, pago em três anos, sem juros e correção monetária. Eu também tenho muita dificuldade de entender.”

‘Escutar que eu abandonei o Botafogo… Falar disso me emociona’

“E, mais do que isso, um ano e meio de investimento brutal da minha vida. Você sabe: oferta no meio do Natal, Ano Novo, Réveillon, Carnaval, John ligava de madrugada, batemos recorde de tudo o que você puder imaginar de prazo, consistência, um comprometimento absoluto, longe da minha família. Detalhe, né? Hospedagem do meu bolso, passagem de avião. Meu projeto era de risco. Você entende isso no mundo corporativo. As pessoas abrem mão de um fixo muito grande, e o bônus vem quando você consegue o impossível. E a gente fez o impossível. E depois disso tudo, escutar que eu abandonei o Botafogo, enquanto eu negociava se ia fazer boletim de ocorrência ou não, aumentava a segurança na invasão do CT, internado dentro do Einstein, malandro. Internado! Cheio de tubo! Falar disso me emociona, porque os próprios advogados disseram que fazia muito tempo não viam algo tão complexo, sabe?

Problemas de saúde

“Já (está bem). Eu comecei com um resfriado que virou uma sinusite. Como eu não consegui parar de trabalhar, de cima para baixo, vai tomando antibiótico, corticoide… Novembro, dezembro, janeiro, fui trocando os antibióticos, essas bobagens que a gente faz, né? Ah, não funcionou, troca de antibiótico, até que eu lembro que na véspera da reunião da liga, em São Paulo, eu estava completamente entupido, com dor. Fui à emergência do hospital, o cara fez uma tomografia e falou: “você está com os seios da face e da testa completamente entupidos de secreção”. Aí vem a dor, né? Os antibióticos não funcionavam. A recomendação foi desobstruir um dos canais, para permitir que secreção saia e o remédio chegue. Fiz a primeira cirurgia, mas a infecção não debelou.”

“Meu nível de resistência, que no meu entendimento era de absoluto estresse, estava tão baixo, que fez com que a infecção se instalasse. Ela não cedia, eu aumentei muito as doses de antibióticos, chegou um momento que não conseguia mais tomar via oral. E isso trabalhando, jogo, campo, reunião na CBF, reunião de liga, desenho de processo, infraestrutura, faz reunião com irmãos Moreira Salles para resolver, tenta administrar as obrigações que deveriam ter sido resolvidas no closing. Chegou um momento em que os médicos disseram… Eu estava com infectologista, otorrinolaringologista, dentista… “Olha só, vamos te internar de novo e vamos raspar tudo”. Foi uma cirurgia gigante. Eu comecei a tomar os remédios no intravenoso, não conseguia mais tomar os remédios por via oral, porque eu tinha enjoo, passava mal, então fui obrigado a ser internado para tomar as medicações. Graças a Deus, estou melhor, bem melhor, e você desculpa o desabafo.”

‘Amadorismo 2.0’

“Hoje, aqui, eu abri o kimono. Eu estou mais emotivo do que o normal, porque esse é um processo inédito para mim, né, cara? O grau de humilhação, difamação. E olha que eu já lidei com cenários complicados, mas para mim… E escutar que eu abandonei o Botafogo, trabalhando, negociando, se a gente aumentava a segurança [do CT], internado num leito do hospital, entubado: só quem não tem ideia do que é isso. Mas você tocou num ponto importante. Tirando a questão pessoal, a minha preocupação era exatamente do legado. Eu entrei nesse projeto acreditando que é possível ter uma gestão profissional. Esse tipo de prática, que fizeram comigo, ela envergonha os antigos amadores. É o amadorismo 2.0. E aí é uma provocação interessante. Só porque a gente virou SAF, não significa que as práticas mudaram.”

Recado para o torcedor

“Que a gente merece ver o Botafogo campeão, que a gente precisa acreditar, mas tem que cobrar. Tem que fiscalizar. A minha experiência de perto, pessoal, com o John, ela é muito diferente desse John açucarado que você vê na mídia. A minha bandeira é de justiça. Evidentemente, que eu estou brigando por um interesse meu, é claro, mas eu estou convencido de que essa minha ação vai colocar luz nessas práticas. Um segundo caso parecido com o meu vai ficar cada vez mais difícil de ser repetido. Torçam. Essa torcida é diferente. Se apaixonem, mas cobrem. Fiscalizem, exijam dos seus representantes, que eles tratem a segunda chance que a gente deu ao Botafogo com o respeito, a importância que ela merece. E aí juras de amor não resolvem. Precisa de independência, isenção, conhecimento, postura. Acredito que tudo vai dar certo, mas tem que ser fiscalizado.”

Fonte: Redação FogãoNET e Blog Negócios do Esporte (GE)

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