A semana do Botafogo foi marcado por polêmicas. Uma delas a frase “chiem o que quiserem“, do presidente João Paulo Magalhães Lins, em áudio para justificar a contratação como gerente de futebol de Thiago Alves, ex-Boavista e seu amigo pessoal. Na newsletter “Que Jogo é Esse“, do jornal “O Globo”, o jornalista Thales Machado tratou o tema.
Para ele, João Paulo tem méritos na transição e no processo de acerto com a GDA Luma, mas tem tomado à frente do futebol.
– Enquanto investidores liderados por Gabriel de Alba negociam assumir a SAF, o associativo, dono dos 10% restantes, recupera influência direta sobre o futebol. O principal personagem deste novo momento é João Paulo Magalhães, presidente eleito do associativo e ex-dirigente do Boavista. Seria injusto ignorar sua importância quando a gestão Textor mergulhou o Botafogo no caos: ele ocupou um vazio que alguém precisava ocupar e emprestou presença institucional a uma operação sem rumo. O problema começa quando a autoridade conquistada na emergência se transforma em autorização para redesenhar o futebol. Apagar um incêndio dá crédito ao bombeiro, mas não o transforma automaticamente em arquiteto da reconstrução – escreveu Thales Machado.
O jornalista citou que o currículo de Thiago Alves citado pelo presidente não é exatamente como descrito e que outras indicações já foram feitas.
– A contratação não é um caso isolado. Depois da goleada por 6 a 1 sofrida para o Cienciano, pela Sul-Americana, João Paulo participou da reformulação que levou o assistente técnico Marcelo Salles e o preparador físico Ronaldo Torres ao futebol da SAF, além de tentar contratar Paulo Bonamigo como coordenador. Bonamigo, sem comandar um clube havia quatro anos, desistiu depois da reação negativa da torcida; Ronaldo Torres vinha do Araruama, vice-lanterna da segunda divisão do Campeonato Carioca. Todos, junto com Thiago, trabalharam com João Paulo no clube de Saquarema – lembrou.
Para Thales Machado, o Botafogo associativo tem ido além de sua função.
– É neste cenário que surge a AssociaSAF: dinheiro privado, método associativo e responsabilidade espalhada. Se funcionar, todos ajudaram; se der errado, ninguém decidiu sozinho. O clube social tem uma função indispensável, sobretudo depois da experiência com Textor: fiscalizar o investidor, proteger o patrimônio e a identidade do Botafogo, acompanhar contratos e impedir que o clube volte a ser tratado como peça de um portfólio internacional. Quando esse fiscalizador passa a administrar informalmente o futebol, porém, perde parte da independência necessária para cobrar quem administra – ressaltou.
– O Botafogo não precisa escolher entre o poder sem freios de John Textor e a restauração dos métodos que a SAF prometeu superar. Os títulos de 2024 provaram o que capital, competência e uma estrutura profissional podem produzir; a crise posterior mostrou o perigo de uma empresa desenhada em torno de um homem. O associativo tem agora a oportunidade de impor limites ao próximo controlador. Se, em vez disso, tentar substituir o anterior no comando informal do futebol, deixará de ser contrapeso para se tornar apenas o próximo personalismo. João Paulo disse que os outros podem chiar. Podem mesmo. Num clube ou em uma empresa que não explica como escolhe, quem decide e quem responde, o chiado talvez seja o ruído mais profissional da história. Trocar o dono da SAF sem trocar a lógica do dono é apenas mudar o homem autorizado a mandar os outros chiarem o quanto quiserem – completou.