Colunista do “Lance!”, Lucio de Castro voltou a fazer críticas John Textor. O jornalista, que lançou uma série contra o empresário norte-americano um dia após o Botafogo golear o Flamengo por 4 a 1 em 2024, afirmou que o ex-controlador da SAF que deveria ter gratidão e que está “levando milhões” do clube.
– O projeto do John Textor é uma destruição ao Botafogo. É triste falar isso. O Botafogo que tinha muitos problemas etc. Mas o projeto do Textor é devastador contra o Botafogo. Tanto que a gente está vendo aí, ninguém sabe o que vai acontecer com o Botafogo. Tem gente falando em falência, e é possível. Eu brincava sempre com alguns grandes amigos botafoguenses, familiares, assim, no auge, e eles falavam assim “não importa, foi campeão da Libertadores etc”. E eu sempre falava naquele momento. E era difícil você vislumbrar assim. “Cara, não dá pra falar isso agora, que valeu a pena, que vale a pena”. É óbvio que o título da Libertadores tem toda, pô, uma coisa espetacular, maravilhosa. Eu não tenho esse lugar de fala que o botafoguense tem para definir o que é. Mas assim, você só vai saber, o botafoguense só vai saber se valeu a pena se amanhã ou depois estiver na terceira divisão, e aqui não estou falando nenhum desejo, estou falando uma coisa palpável hoje em dia, com a ruína que esse cara está deixando o Botafogo, desse time numa segunda divisão, numa terceira. E aí, se chegar esse momento, o torcedor vai poder dizer se valeu a pena ou não – cornetou Lucio de Castro, em vídeo divulgado pelo “Lance!”.
– Eu acho que o Botafogo é muito grande, tem uma história muito grande pra você pensar que valeu a pena por um título um cara chegar aqui e destruir. E assim, me impressiona muito o botafoguense, por exemplo, alguém falando, ter gratidão a ele. Pô, o Botafogo é muito grande, cara, o Botafogo de Mané Garrincha, de Jairzinho, de Quarentinha, de tantos jogadores, ter gratidão a um cara que chegou aqui e destruiu o Botafogo, sabe? Pô, é uma vergonha. Ele que tem que ter muita gratidão ao Botafogo, cara. Como é que você pode pensar? Esse cara tinha que agradecer ao Botafogo todos os dias, ir embora e agradecer, “gratidão”, porque ele está levando milhões do Botafogo, levou, ganhou uma glória, mas para ele não interessa muito, para ele interessa o dinheiro. Então ele tem que ter uma gratidão eterna ao Botafogo. E aí você vê o botafoguense falando, eu tenho gratidão a esse cara. Pô, olha pra história do seu clube, né? – cutucou.
Leia outras respostas de Lucio Castro.
Comparação a Kia Joorabchian
– São lições imensas. Infelizmente, a gente não vai aprender. Porque isso que está acontecendo com o John Textor a gente já viu com o Kia Joorabchian, no Corinthians, o mesmo modelo. E eu vou contar, eu brinco muito com o Juca Kfouri, imenso jornalista, referência enorme na minha carreira, para todo mundo, para toda a geração de jornalistas. O Juca passou exatamente por isso, né? Porque na época ele fez matérias da MSI, que era do Kia Joorabchian, a torcida do Corinthians caía de pau nele, ele que é corintiano. O Juca chegou a não poder ir a jogo do próprio time, porque a torcida ficava puta com ele. E o tempo mostrou que ele tinha absoluta razão. A gente está falando de um aventureiro que desembarcou no Brasil, pegou no extrativismo total, pegou o dinheiro e foi embora. Um aventureiro. E anos depois acontece a mesma coisa. E vai acontecer de novo, sabe? Porque as pessoas adoram se enganar também, porque os mecanismos do Brasil são flácidos. Eu falei uma coisa que eu repito. John Textor encontrou o mundo perfeito para o negócio dele. Ele mexia em outras áreas etc. Só que ele não podia ter o lugar mais perfeito. Ele encontrou o futebol e o Brasil, dois cenários perfeitos para um cara como ele agir sem o rigor da lei, com as estruturas muito flácidas. O futebol é assim e o Brasil é assim. Então ele casou duas coisas perfeitas. Fazia os negócios dele no futebol e no Brasil. Falei pra caralho, mas é o seguinte. Esse assunto é inesgotável e, infelizmente, ainda vai render muito. Para todo mundo. Para o botafoguense, para o brasileiro. Entender John Textor não é só entender John Textor. É entender toda uma estrutura por trás das SAFs, o negócio futebol e o Brasil.
Estilo de dirigentes do passado
– Eu enxergo muito isso. É uma versão desse dirigente com airbag, com vidro elétrico, com tudo. Muito mais sofisticada. Esses dirigentes atuavam com propina, caixa 2, venda de jogadores, queimão de empresário, como existe até hoje. Não é só… O Textor é muito mais sofisticado. O Textor é um cara inteligentíssimo. E eu vou resumir, para não me complicar muito, tudo isso que os dirigentes de antigamente faziam o Textor tem uma forma muito mais sofisticada de agir. Ele conseguiu evoluir esse modelo dos dirigentes antigos para uma coisa chamada engenharia financeira, onde cabe muita coisa aí.
– Essa engenharia financeira que eu estou falando é a natureza dos projetos dele. Quer dizer, essa coisa de um caixa passando para outro… A essência dele, isso não sou eu que estou falando, tá? É a justiça americana, que tem diversos processos. Eu mergulhei, como a maioria das pessoas sabe, na vida desse cara antes e pude levantar mais ou menos o modus operandi dele. O que foi importante, quando eu fiz a série de reportagens “Os Segredos de Textor”, eu pude identificar o que ele fazia até ali. Prever o que vinha depois você prevê estabelecendo um modus operandi. E o modus operandi dele, segundo a justiça americana, é por essa engenharia financeira, é por palavras da justiça americana em vários momentos, das denúncias que ele recebeu lá, Esquema Ponzi, pirâmide financeira, né? Tudo isso. Então, é isso que a gente está vendo.
Textor enfraquece SAFs?
– Enfraquece totalmente. Enfraqueceu desde o começo, cara. Eu acho que as pessoas foram muito, e a imprensa, acho que é um ponto que eu sempre me peguei, a imprensa foi totalmente flácida e frouxa em relação ao Textor. Esse cara chega aqui e as pessoas ficaram numa disputa para ver quem era mais amigo do John, né? Se você almoçasse com o John, era glória. Eu sou horrível de data, mas essa data eu vou lembrar, porque ela é muito marcante, inclusive ela abre a série “Os Segredos de Textor” que eu fiz, até no ICL Notícias, que são quatro reportagens, contando um pouco esse modus operandi dele. E a série abre no dia 22 de abril de 2022. É o Textor no Congresso Nacional, diante de deputados, senadores. Esse cara fala “o futebol brasileiro está sendo manipulado, os crimes estão sendo cometidos”, sem prova alguma. E ele caga uma regra sobre o futebol brasileiro, sobre o Brasil, com uma arrogância. Eu vendo aquelas imagens na televisão, aquilo me chocou profundamente. E assim, com um pouco de altivez, né cara? E eu acho que um pouco de nacionalismo, eu acho que é uma posição política também, de não ser tão entreguista, sabe? Vem um gringo, cagando uma regra no Congresso Nacional, tratando a gente como um bando de merda, sabe? E aí ele mente nessa sessão, que ele fala assim “eu vou contar a vocês como eu fiz minha fortuna. Eu fiz minha fortuna através de uma empresa etc”. E hoje a gente está vendo que não foi assim. Ele não fez fortuna assim. Ele faz lá a fortuna dele. A gente está vendo que ele está pedindo dinheiro pros outros, né? Então ele fala o dinheiro, literalmente, a frase dele é, “o dinheiro que me permitiu comprar esse clube”, e a gente está vendo que tinha gente, financiador externo, que ele dependeu de empréstimos. Enquanto isso, me revoltava muito, cara, ver a imprensa de quatro para esse cara, sabe? Nenhum questionamento, tirando, sempre é bom falar, raríssimas exceções, que graças a Deus elas sempre existem. Era um jornalismo de quatro pra esse cara.
Projeto de Textor deu certo?
– Está aí uma coisa que eu não tenho a menor dúvida. Ele é um visionário, ele não perdeu a mão de nenhum projeto. Só que ele é um visionário dele mesmo, e o projeto dele deu muito certo, cara. As pessoas não têm que ter a menor dúvida quanto a isso. O Textor não deu errado. O projeto dele sempre foi isso, a história dele é essa. A Baby Universe, a Digital Domain, toda a história dele é a mesma coisa. E no final, todas quebram, todas, sem exceção. O histórico dele, o modus operandi, todo mundo quebra e ele sai muito bem. E aí eu tenho alguns depoimentos de tantas pessoas que eu ouvi, pessoas nos Estados Unidos, pessoas que conviveram com ele nos negócios, que elas têm uma frase espetacular. Que, inclusive, eu falei de como começa a matéria e estou contando como ela acaba. Ela acaba com a frase de um amigo dele. “Mas John sempre acaba voltando”. Porque esse amigo que viu, conhece muito bem o modus operandi, alguns amigos que falam a mesma coisa. Cara, no final ele sempre se dá bem. E ele sempre volta. E aí um deles questiona assim, “mas a pessoa não tem Google, cara, pra entender quem é ele?” Esse cara faz isso tudo a vida dele e depois ele volta, aí ele reaparece em algum outro lugar anos depois fazendo o mesmo tipo de negócio e as pessoas acreditam. Então ele, o projeto dele, é muito bem estabelecido. E me choca um pouco, vendo as pessoas ainda não entenderam. Mesmo quem está contra. Ainda não entenderam muito bem o que está acontecendo, o que acontece. As pessoas ficam falando, “porque ele quis salvar o Lyon”, ele não quis salvar ninguém, ele quis se salvar. No final, o dinheiro vai para ele, ele sai sempre muito bem, sabe? Ele vai ficar mais rico. E tinha gente até falando, cara, que isso me comovia, de verdade, quando eu via falando assim, lá atrás, ele se apaixonou pelo Botafogo mesmo, né? Não é possível, gente.