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Botafogo: uma semana entre o discurso e os fatos

Leonardo Andrade

Por: Leonardo Andrade

- Atualizado em

Gabriel de Alba e João Paulo Magalhães Lins, do Botafogo
Reprodução/Instagram
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O botafoguense viveu uma semana em que até o desastre dentro de campo precisou dividir atenções com o caos fora dele. Como se a eliminação na Sul-Americana, após o vexatório 6 a 1 na altitude, não fosse suficiente, os dias seguintes ainda tiveram a atrapalhada demissão de Franclim Carvalho, contratações, entrevistas e versões conflitantes. E talvez nada simbolize melhor essa turbulência do que o contraste entre as palavras de Gabriel de Alba, a entrevista do presidente João Paulo e as escolhas feitas para o departamento de futebol.

Franclim Carvalho ficou cinco dias demitido pela imprensa. Nesse período, comandou o time contra o Vitória e ainda aplicou o treino de terça-feira para, somente no fim do dia, pela imprensa e antes da nota oficial, sermos informados de sua saída. O curioso é que estamos falando do mesmo profissional que, há pouco mais de um mês, recebeu aumento salarial e por quem o Botafogo recusou uma boa compensação financeira para liberá-lo ao Vasco. Trinta dias depois, será o clube quem pagará uma boa quantia para que ele saia.

Junto com a saída, vieram os anúncios de Paulo Bonamigo, Ronaldo Torres e Marcelo Salles para o departamento de futebol. Nomes ligados à confiança do presidente e com passagens pelo Boavista, clube que também possui ligação com João Paulo. A reação nas redes sociais foi imediata. Uma parte considerável da torcida enxergou nas escolhas justamente aquilo que mais teme neste momento: uma influência cada vez maior do clube social sobre a administração do futebol.

Acuado pela repercussão, João Paulo concedeu uma entrevista de “coração aberto” ao canal do Manel. Era a primeira entrevista mais ampla do presidente em aproximadamente um ano. Mostrou suas angústiaspessoais com o peso do cargo e do momento do Botafogo, porém, em vários momentos, parecia alguém pouco acostumado a ser questionado.

O problema é que, durante todo o processo envolvendo a saída de John Textor, muitas movimentações aconteceram, muitas informações circularam e poucas explicações públicas foram dadas de maneira aprofundada.

Segundo informação relatada pelo canal do Manel em entrevista ao Glorioso Connection, a primeira tentativa de afastar Textor teria acontecido ainda em janeiro, antes de uma ruptura com Thairo Arruda inviabilizar o movimento. Ainda segundo o relato, havia a possibilidade de utilização de uma alta linha de crédito do BTG. Pouco depois, o mesmo BTG, apresentado no processo como uma consultoria independente, participou da avaliação que vetou a movimentação de Textor com a GDA, que, à época, era tratada pelo clube social como um fundo abutre. Hoje, curiosamente, a mesma alcunha parte de John Textor. Santa cara de pau, Batman. Meses depois, já após a saída do antigo mandatário, o banco emprestou cerca de US$ 5 milhões ao Botafogo, em operação com juros de 25% ao ano. E aí surgiria uma pergunta perfeitamente legítima: qual a linha tênue dessa independência?

Ou a argumentação utilizada contra uma possível diluição das ações da Eagle. Segundo o presidente, essa alternativa seria lesiva ao Botafogo. Mas, depois da saída do Lyon da Eagle com a sensação de uma bela pernada da Michele Kang e do Botafogo permanecer preso sozinho a uma estrutura da qual buscava justamente se desvincular, a solução encontrada não acabou produzindo, na prática, algo semelhante por outro caminho?

Ou ao falar constantemente do passivo de R$ 2.7 bilhões, passivo não é dívida de saída de caixa imediata, ele pretende então pagar R$ 800M ao Lyon/Eagle sem receber nada, ou pagar o valor total dos impostos sem o refiz? 

São perguntas, entre outras, como conselho paralelo, que nunca foram confrontadas antes. Nunca precisou responder.

Na entrevista, João Paulo começou especialmente fora do tom e teve dificuldades para explicar algumas das escolhas feitas para o departamento de futebol. A expectativa de parte da torcida era que, com a chegada de Gabriel de Alba ao Brasil, surgissem nomes mais técnicos, profissionais de mercado, pessoas identificadas com um novo projeto esportivo.

Em vez disso, o presidente fez uma ampla defesa do Botafogo social que, por alguns minutos, me fez pensar se eu tinha acompanhado os últimos 30 anos do clube por uma dimensão paralela. Fui quase conferir o site oficial para saber se, enquanto eu estava distraído, o Botafogo tinha empilhado títulos nacionais e continentais, em vez de viver rebaixamentos, crises e algumas das maiores vergonhas de sua história.

Porque o Botafogo vencedor é o de Garrincha, Didi e Nilton Santos. Todos nomes corretamente lembrados pelo presidente. O pequeno detalhe é que nenhum deles pertence exatamente à realidade recente que precisa ser explicada. Carlito Rocha provavelmente pediu para baixar o volume.

João Paulo tem razão quando diz que não pode ser responsabilizado pelos últimos 50 anos do Botafogo. Ninguém sozinho pode. Cada gestão possui sua parcela de responsabilidade. Mas é curioso que, minutos depois, ele próprio tenha apresentado um exemplo bastante ilustrativo da política alvinegra ao lembrar que apoiou o candidato derrotado em 2015 pelo CEP. E esse mesmo nome de 2015, ele indicou esse ano para o Conselho de Administração da SAF. Um conselho que já possui forte presença de indicações vindas do clube social, assim como é a do atual CEO. 

Mas talvez o ponto mais curioso da semana tenha sido a elasticidade das responsabilidades em relação a Gabriel de Alba.

Quando uma notícia é positiva, Alba aparece. Como na negociação envolvendo a recusa de uma proposta por Danilo, por exemplo.  Quando a discussão envolve uma decisão controversa, a resposta é outra: ele ainda não assinou, é preciso esperar, o processo está em andamento.

Ou seja, Gabriel de Alba pode participar diretamente de uma negociação de quase R$ 200 milhões, discutir e recusar propostas, dar aumento para o Franclim, falar em janela de transferência ainda aberta, mas, quando o assunto é apresentar um projeto esportivo ou indicar profissionais para o departamento de futebol, precisamos aguardar a assinatura.

É uma espécie de Schrödinger Alvinegro: ele está e não está no Botafogo ao mesmo tempo, dependendo do assunto.

Pouco depois, Alba concedeu entrevista ao GE. Em tom bem mais sóbrio fez promessas importantes e falou sobre o futuro. Naturalmente, todos esperamos que elas se concretizem. Mas ainda falta entender, de maneira mais clara, como o barco navegará até esse destino. Talvez a visita prevista para setembro seja uma oportunidade para isso. Que sua próxima passagem pelo Rio traga uma coletiva realmente esclarecedora, com espaço para perguntas e explicações, e não apenas uma sequência de cerimônias de beija-mão.

Gabriel de Alba pode ajudar muito o Botafogo. É natural que, neste primeiro momento, confie em quem participou de sua chegada e também busque fazer gestos de aproximação com a torcida. Textor fez isso quando chegou. Perguntou sobre um jogador que havia saído e que a torcida gostaria de ver de volta. O nome era Oyama. Hoje o nome é Luiz Henrique. O sarrafo aumentou, o desafio agora é ainda maior, especialmente diante do processo de recuperação judicial.

Espero que, com o tempo, Alba consiga trazer para posições estratégicas profissionais mapeados pela própria GDA e reduzir a necessidade de centralização em determinadas áreas. O futebol brasileiro já mostrou que boas ideias, profissionais capacitados e metodologias modernas podem fazer enorme diferença. principalmente em um ambiente que, por décadas, foi conduzido de maneira amadora e, na maioria dos clubes, ainda é. Todos que apostam no Botafogo merecem, inicialmente, um voto de confiança.

Mas a torcida também aprendeu, da maneira mais dolorosa possível, que confiança não significa ausência de questionamento. Ela não quer trocar o inconsequente pelo insuficiente.

No fim, fica uma adaptação de uma frase que Cazuza eternizou e que talvez resuma melhor esta semana do Botafogo do que qualquer coletiva, entrevista de coração aberto ou nota oficial publicada depois que a imprensa já contou tudo.

As ideias precisam corresponder aos fatos.

E, nesta última semana, os fatos parecem ter seguido por um caminho bem diferente.

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