O ano de 1989 começou com Valdir Espinosa sendo anunciado como técnico do Botafogo. Campeão da Libertadores pelo Grêmio, ele vinha de bons trabalhos no Paraguai. Apesar disso, existia um clima de desconfiança. Nem tanto pelo profissional. Mas pelo longo jejum de títulos. Será que aquele gaúcho, que nunca tinha trabalhado no Rio de Janeiro, teria condições de devolver o grito de “é campeão” ao torcedor.

Como todos sabem o final da história foi feliz e o título invicto foi conquistado em uma final contra o Flamengo no Maracanã. Aliás, ser campeão invicto era todo pelo treinador como a única solução.

– Desde o começo a gente sabia que se não ganhasse de forma invicta seria muito complicado, pois se o Botafogo perdesse um jogo a torcida ia desanimar, ia pensar que seria mais um ano sem títulos – recordou Espinosa, que teve que lidar com a ansiedade até de Emil Pinheiro, homem forte do futebol do clube: ” A primeira coisa que fiz foi pedir para o Emil Pinheiro parar de contratar.”

Espinosa tirou a pressão do elenco

O FOGÃONET ouviu Espinosa e ele recordou vários momentos importantes daquele histórico título e revelou um sonho que tem como torcedor:

FOGÃONET: Como foi o começo de todo aquele trabalho de 89. Falo do início mesmo, do período de pré-temporada em Friburgo, da formação do grupo…?

ESPINOSA: Cheguei em um momento complicado, pois a cada ano a torcida ficava mais exigente e frustrada com o aumento do jejum. O torcedor desconfiava de tudo. Conhecia alguns jogadores, como o Josimar, o Mauro Galvão e o Paulinho Criciúma. Mas precisava conhecer o grupo todo. A primeira coisa que fiz foi pedir para o Emil Pinheiro parar de contratar. Assim analisei o grupo. Depois fizemos algumas contratações pontuais, como o Marquinhos, lateral-esquerdo, o Vitor e o Milton Cruz por exemplo.

Também trabalhei no sentido de mostrar aos jogadores que era preciso chamarmos a ideia de quebrar esse jejum, que eles assumissem isso. Porém, deixando claro que eles não poderiam assumir o peso daquele jejum, não eram responsáveis pelo jejum. E todos eles responderam muito bem.

FOGÃONET: O primeiro jogo marcante foi o 1 a 1 com o Flamengo. O Paulinho Criciúma fez um gol nos acréscimos e o árbitro apitou o fim com a bola morrendo no gol. Ali começou a crescer a rivalidade com o Flamengo dentro da competição?

ESPINOSA: A gente sabia que dos quatro o Flamengo era o que tinha o time mais forte. Era o time do Zico. Aliás, depois vinha o Fluminense e o Vasco. O Botafogo era apontado como quarto nesta escala se tivéssemos que apontar quem ganharia o campeonato. Portanto, ganhar do Flamengo teria um peso muito importante e nos encheria de confiança. Talvez isso foi o que mais lamentamos naquele jogo. Mas o grupo acreditava muito naquilo que ele queria conquistar.

Botafogo teve momentos delicados na conquista

Espinosa carregado pelos jogadores após o título (Foto: Reprodução Youtube)

FOGÃONET: Como o grupo lidou com a perda do primeiro turno, que por muito pouco não foi conquistado?

ESPINOSA: Realmente a gente queria ganhar a Taça Guanabara, o primeiro turno, pois ali você daria um passo gigantesco. Mas infelizemente não conseguimos. Porém, não chegou a desanimar, pois os jogadores sabiam que tinha um turno inteiro ainda para ser conquistado.

FOGÃONET: No segundo turno outro jogo marcante foi o 3 a 3 com o Flamengo. Quando o rival abriu 3 a 1 e perdeu muitos gols você pensou que a invencibilidade estava perdida?

ESPINOSA: Olha que foi um jogo complicado. Principalmente por que a gente sabia que se perdesse ali ia ficar muito difícil. Além disso, desde o começo a gente sabia que se não ganhasse de forma invicta seria muito complicado, pois se o Botafogo perdesse um jogo a torcida ia desanimar, ia pensar que seria mais um ano sem títulos. Isso fez que a gente não desistisse, pois o árbitro ainda não tinha apitado o fim do jogo. Lutamos até o fim e fomos premiados com isso.

Espinosa lembra de clássico que não pôde agir

FOGÃONET: O empate com o Bangu na última rodada, quando o time dependia das próprias forças, e perdeu a chance de ganhar a Taça Rio foi outro momento chave. O título veio com o Vasco ganhando do Flamengo na noite de segunda-feira. Como foi ali?

ESPINOSA: Depois daquele jogo a gente passou a depender de uma derrota do Flamengo para o Vasco. Você me perguntou dos 3 a 3, mas ali a gente podia atuar, agir. No jogo do Flamengo e Vasco a gente não podia fazer mais nada. Lembro que quando o Flamengo fez o gol de empate, foi em uma falha do Paulo Roberto, que tinha sido meu lateral no Grêmio. Eu xinguei muito ele, xinguei ele demais. Aí deu a saída de bola e quem faz o gol da vitória do Vasco? justamente o Paulo Roberto. Parecia que ele estava me respondendo.

Valdir Espinosa quer ver Botafogo campeão da Libertadores (Foto: Divulgação)

FOGÃONET: O nível intelectual do grupo é sempre enaltecido por você. Isso foi determinante?

ESPINOSA: O nível intelectual daquele grupo foi determinante. Porque eles ouviam o que era passado e discutiam entre eles e com a gente. Eles aceitaram o compromisso de tirar o Botafogo daquele jejum e por ser um momento de pressão este nível intelectual acabou pesando muito. Se hoje é importante, naquela época era importante demais.

Espinosa quer ver Botafogo campeão da Libertadores

FOGÃONET: Como foi a relação com o Emil Pinheiro, que comandava o futebol do clube?

ESPINOSA: Costumo dizer que todos que participaram daquela campanha têm o mesmo peso nos méritos da conquista. Apenas dois podem dizer que contribuíram mais, que foram mais importantes para a conquista: a torcida, que apoiou o tempo todo, e o Emil Pinheiro. E não estou falando da questão financeira, das condições de trabalha que ele dava. Logicamente que pela condição dele ele chegava junto e garantia o pagamento, os prêmios, etc. Mas falo de como ele conseguiu transmitir a todos nós o amor pelo Botafogo. O Emil tinha um amor ao Botafogo contagiante. Ele acompanhava todos os treinos, seja qual fosse o treino ele ficava até o fim. Ia para a concentração. Conversava com os jogadores. Ele só não dormia na concentração. Mas o resto estava presente sempre. Foi muito importante.

FOGÃONET: Hoje, 30 anos depois, você gostaria de falar para o torcedor botafoguense algo que você ainda não falou?

ESPINOSA: Na verdade não gostaria de falar algo, gostaria de compartilhar um sonho que eu tenho como torcedor. Eu quero ver o Botafogo no topo da América e do mundo. Eu quero ver o Botafogo campeão da Libertadores e campeão mundial. Claro que o Botafogo é conhecido mundialmente, foi base da Seleção Brasileira. O Botafogo é conhecido no mundo todo. Mas sei que a torcida cobra isso e eu queria muito ver o Botafogo campeão da Libertadores e do Mundial. A torcida precisa cobrar isso, logicamente que com responsabilidade. Aliás, precisa cobrar e se cobrar. Pois o Botafogo merece isso. Em 89 todos se uniram e temos que nos unir sempre pelo clube.

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