Ele era o João sem medo. Polêmico e irreverente, só chamava Pelé, carinhosamente, de crioulo, e era contra o futebol feminino. Em tempos do politicamente correto, certamente saberia driblar o patrulhamento e seria deliciosamente imbatível usando as ferramentas digitais.

João Alves Saldanha ou João Alves Jobim Saldanha nasceu no Rio Grande do Sul – em Porto Alegre ou no Alegrete, as controvérsias começam desde o nascimento. Em 73 anos de vida intensa, rodou por boa parte do planeta, ora como celebridade esportiva, ora com militante clandestino, quando utilizou codinomes para escapar da perseguição da polícia política.

Admirado e amado por jogadores e amigos e odiado e respeitado pelos adversários, João Saldanha era um personagem controverso. Craque multimídia e jornalista mais popular de sua época, foi comunista histórico. Fichado no DOPS desde 1947, participou da guerrilha de Porecatu (Paraná), virou treinador da seleção brasileira durante a ditadura, montou o time das “feras” da Copa do Mundo de 1970, não aceitou imposições dos militares e nunca abriu mão de seus ideais.

O João Saldanha apaixonado por futebol foi apenas uma parte da biografia de quem esteve com a vida em jogo em vários momentos. João foi muitos e sempre corajoso. Não era fácil desafiá-lo para um combate físico ou ideológico.

Filho de líder maragato, conviveu com a revolução ainda criança. Defendeu a liberdade e a democracia até os últimos dias e se revoltava contra as injustiças com argumentos ou com tiros. Era de paz, mas afirmava: “Eu tive que me defender algumas vezes”.

Extremamente solidário e leal até com inimigos, Saldanha não levava desaforo para casa e pontuava: “Eu não brigo para ganhar. Eu brigo porque tenho razão”.

Como era bom ler, ouvir e ver o João comentando uma partida de futebol de maneira simples, objetiva, fazendo com que pessoas de todas as classes sociais pudessem entender o que rolava durante um jogo. Saldanha construiu uma carreira de grande audiência no rádio e na televisão e de milhares de leitores diariamente nos jornais. Popularidade comprovada por quem andava pelo anel do Maracanã e ouvia sua voz de rádio em rádio.

João fez escola. Escrevia como falava, com a linguagem do povo. Incorporou palavras do cotidiano e revolucionou a crônica esportiva. O locutor Waldir Amaral anunciava: “E agora com vocês, aquele banho de comentários”. E lá vinha João: “Meus amigos…”

A cada intervalo de transmissão, ele criava uma sintonia entre a cabine de rádio e a geral do Maracanã. Conversava com geraldinos enquanto esculhambava cartolas como Caixa D’Água, impagável apelido de Eduardo Vianna, então presidente da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Elogiava os craques e detonava os “cabeças-de-bagre”.

Como imaginar que um treinador não recebesse salário para dirigir um clube? Assim foi João Saldanha no seu Botafogo -paixão máxima desde a chegada ao Rio de Janeiro nos anos 1930. Campeão do Carioca de 1957, comandando um timaço que tinha Nilton Santos, Garrincha, Didi, Paulo Valentim e Quarentinha, João foi carregado nos ombros de torcedores eufóricos, após a goleada de 6 a 2 contra o Fluminense do ponta Telê Santana.

Imprevisível, surpreendeu a todos quando aceitou ser técnico da seleção em plena ditadura militar. E continuou quebrando regras inimagináveis ao escalar seu time de feras sem consultar a comissão técnica repleta de militares. Surpresa maior aconteceu quando, na fase eliminatória, classificou o Brasil para a Copa do México vencendo todas as partidas.

O êxito do comunista assustou o regime e ameaçava, então, o uso do futebol pela ditadura como cortina de fumaça aos crimes e incremento ao ufanismo do “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

A cena da Taça Jules Rimet nas mãos de Médici jamais existiria com João na seleção. Vítima de forte campanha para desestabilizar seu sucesso, Saldanha reagiu. Diziam que Médici queria convocar Dadá, atacante do Atlético-MG. João respondeu: “Nem eu escalo ministério e nem presidente escala time!”.

Dias depois, João foi derrubado da seleção, mas seguiu vibrando e torcendo pela vitória do time que tinha a sua alma e genialidade.

Homem sério e de tolerância zero para perguntas sem fundamento, Saldanha era hilário até de mau humor. Em debate numa universidade do Rio, a estudante desavisada perguntou sobre a proposta do Partido Comunista Brasileiro para os índios. João devolveu de bate-pronto: “Índio na Cidade do Rio de Janeiro, só se for do Cacique de Ramos! [tradicional bloco carnavalesco]”

O João da Portela e da Banda de Ipanema aprendeu a manha dos cariocas quando conheceu o lendário Neném Prancha, de quem foi jogador no famoso time da praia de Copacabana.

Neném inspirou o gaúcho na criação de frases antológicas e repetidas até hoje: “Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão invicto”.

Em 1990, mesmo com a saúde debilitada, João Saldanha driblou os médicos e, escondido, pegou um avião para trabalhar na Copa da Itália. Viveu seus momentos finais fazendo o que gostava. O guerreiro resistiu o quanto pode, escreveu sua última coluna na cama do hospital, criticou a “burrice siderúrgica” do técnico Lazaroni. Partiu no dia 12 de julho de 1990.

Por tudo que protagonizou, João Saldanha merece todas as homenagens e a saudade eternizada nas palavras do seu grande amigo e camarada Oscar Niemeyer: “João, quanta falta você nos faz!”

ANDRÉ IKI SIQUEIRA é jornalista, autor da biografia “João Saldanha uma vida em jogo” e codiretor do documentário “João Saldanha”

Fonte: Folha de S. Paulo