Dória pede passagem e tenta se impor aos 18 anos

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Ao entrar em campo, no Maracanã, neste domingo, às 18h30m, Dória usará a técnica distribuída em 1,88m de altura para tentar impedir os avanços de Juninho, Fágner e outros do Vasco, além de manter o Botafogo na liderança do campeonato. Na verdade, já pode ser 1,90m de imposição na zaga. O garoto de 18 anos não sabe: “A última vez, era isso, mas acho que cresci.” Certo é que o zagueiro, promessa do alvinegro, está em fase de crescimento. Principalmente do seu futebol.

O sorriso ainda infantil, que exibe o aparelho azul nos dentes, pode até enganar um desavisado. As feições de quem há pouco atingiu a maioridade se tornam armas dentro de campo. Afinal, que atacante vai temer um zagueiro com rosto de criança? Mas eles temem.

— Às vezes é bom, porque podem me subestimar. Mas, quando estou jogando, acho que meu semblante muda. Tento me impor, fazendo meu papel, me antecipando, não xingando nem gritando. Não na palavra, mas no futebol — explica.

O menino, que chegou um tanto desengonçado ao clube, em 2009, ganhou porte físico de respeito. Em um ano no profissional, passou de 80kg para 84,5kg, com apenas 8,9% de gordura corporal, nível de atleta, e igual apenas à de Seedorf. Massa muscular pura para ajudar no combate direto. E força, como a usada para bater o quinto pênalti contra o Figueirense, pela Copa do Brasil. Ele mesmo pediu ao técnico Oswaldo de Oliveira para cobrar a última penalidade.

Mesmo em desenvolvimento, Dória tem feito brilhar os aguçados olhos do mercado europeu. Virou, sim, fonte de renda futura para o Botafogo. No fim do ano passado, quase foi negociado para o Juventus, da Itália, mas o clube não aceitou o valor de sete milhões de euros. Teve sondagens do Barcelona, e o Cruzeiro tentou ficar com ele via um fundo de investidores. O alvinegro também tenta aumentar a percentagem que tem sobre seus direitos econômicos, que hoje é de 40%. Por enquanto, o presente é no Botafogo até 2017.

— Isso tudo eu deixo com o meu pai, o clube, meus empresários. Eles vão decidir o que é melhor para mim. Não parei para pensar para onde quero ir, quero estar feliz — despista Dória, que renovou contrato ano passado, e mostra maturidade para lidar com o assunto.

Seja onde for, um futuro que promete ser bem diferente dos dias duros no subúrbio carioca de Marechal Hermes, onde treinam as divisões de base do clube. Cada passo é monitorado pelo Botafogo, que reconheceu seu talento assim que ele chegou, aos14 anos, vindo de escolinhas de futsal.

— Acordava às 5h da manhã, pegava barca, ônibus, trem. Sempre chegava atrasado ao colégio, às vezes sem almoçar. Não tinha campo adequado para treinar, bolas, uniformes. Acho que foi muito esforço da diretoria que acreditou nos meninos e hoje somos quatro no time titular (ele, Gabriel, Vitinho e Gilberto) e 16 no elenco. Agora, as coisas estão melhorando na base. Usam uniformes e bolas iguais às nossas, voltaram a viajar para o exterior em excursões — conta o zagueiro, que concluiu o ensino médio ano passado, em Niterói, onde mora, mas não quer seguir outra carreira. — Nunca pensei ser outra coisa, sempre quis ser jogador. Sempre gostei de joguei como zagueiro. Quem não tem talento vai lá para trás, né?…

Dória está enganado. O talento apareceu mesmo lá atrás. Talvez facilitado por não ter a pressão imposta pelas dificuldades da vida. Nascido em São Gonçalo (RJ), o jovem nunca teve luxo, mas também o seu futuro no futebol não foi determinante para a vida da família. Hoje, o pai parou de trabalhar para acompanhar o filho e levá-lo aos treinos até tirar a carteira de motorista.

— Sei que, jogando bem, vou dar melhor qualidade de vida a eles, mas não sofro pressão por isso. Tirei meu “coroinha” do trabalho para ele poder me acompanhar mais — diz, referindo-se ao pai.

O zagueiro prefere não fazer planos. Deixando a vida levá-lo, ele tem chegado longe. Foi convocado para a seleção principal, participou da péssima campanha da sub-20 no Sul-Americano, deu a volta por cima e voltou a ser titular do Botafogo. No meio do ano, tornou-se capitão da seleção de base nas conquistas de dois torneios disputados na Europa. E ainda levou prêmios de melhor zagueiro e melhor jogador.

Provas da qualidade do defensor, que hoje vai enfrentar o ataque vascaíno. Dória espera, ao fim do jogo, ter feito bem o trabalho para voltar a Niterói e fazer o de que mais gosta: dormir em paz.

Fonte: O Globo Online

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