Quis o destino que, ao iniciar sua primeira Libertadores, Eduardo Hungaro, técnico do Botafogo, tivesse que enfrentar uma versão equatoriana de Eduardo Hungaro. Trata-se de Juan Carlos Garay, 45 anos, cinco a menos do que o comandante alvinegro. Verdade que a crise econômica que levou Garay a assumir o Deportivo Quito é muito mais grave do que a política de contenção de gastos que contribuiu na escolha do técnico do Botafogo. Mas ambos viram chegar, de forma inesperada, a chance de dirigir, pela primeira vez, um time profissional.

– Somos parecidos, sim. A vantagem dele é que tem uma base do ano passado. Aqui partimos quase do zero. É lamentável. O grupo que se classificou para a Libertadores foi desfeito – disse Garay.

Como Hungaro, ele foi uma solução caseira, trazida das divisões de base do Deportivo Quito. E agora vive sua primeira experiência à frente do time principal.

– Tenho que ser realista. A oportunidade chegou porque o clube tem um orçamento muito pequeno, vive uma realidade econômica difícil. Aqui sempre preferem contratar estrangeiros. Dão poucas chances aos treinadores equatorianos. Mas quando chega a chance, tenho que aproveitar.

O equatoriano fala quase em tom de resignação. Mistura momentos de conformismo com palavras de motivação, tentando buscar meios de fazer seu time acreditar na chance de bater o Botafogo e chegar à fase de grupos da Libertadores. Porque a realidade ao redor dos jogadores é desoladora.

Ao fim de 2013, o Deportivo Quito tinha razões para ver a vaga na Libertadores como um problema. Devia oito meses de salários aos jogadores. Dos 25 que compunham o elenco, só sobraram seis. Alguns foram vendidos, muitos pediram a liberação por causa das dívidas. O clube contratou 17 reforços, seguindo um limitadíssimo orçamento. Para que se tenha ideia, parte da verba de patrocinadores e de cotas de TV foi destinada a pagar débitos do clube. Restaram US$ 4,5 milhões (cerca de R$ 10 milhões) para custear toda a temporada de 2014. Só como efeito de comparação, o Botafogo espera arrecadar mais de R$ 150 milhões neste ano.

O meia Edison Vega é um dos ídolos da torcida. Entre outras coisas, por ter permanecido no clube em meio ao caos. Para piorar, quatro reforços, como o atacante argentino Bonjour e o goleiro Lemos, se machucaram e não podem jogar.

– Claro que o Botafogo é favorito. Pela história, pelo orçamento, por tudo. Vamos fazer o humanamente possível. É duro termos chegado a este ponto. E os times brasileiros têm orçamentos muito maiores. Ganharam os quatro últimos títulos da Libertadores. Digo aos jogadores que é isto que deve motivá-los: ir a campo jogar contra um time muito maior, com tudo contra. Estará em jogo o futuro deles, a chance de conseguir algo melhor – disse o treinador equatoriano.

É raro ver um técnico, às vésperas de um jogo decisivo, falar em “conseguir algo melhor” para seus jogadores, referindo-se justamente à realidade do clube rival. Mas é um sinal do abismo econômico que separa, neste momento, Botafogo e Deportivo Quito. E, por extensão, o futebol brasileiro e boa parte da América.

– Estou tentando, em meio a isto tudo, incutir uma mentalidade vencedora neles. O Botafogo é forte, contratou Bolatti, tem o Lodeiro, que é indiscutível. Tivemos a sorte de que o Seedorf aceitou ser técnico do Milan – brinca Garay, para logo em seguida repensar e ficar em dúvida. – Bom, seria lindo ter Seedorf jogando aqui. Mas também seria complicado enfrenta-lo. Ele pensa o jogo, dava ideias claras ao Botafogo.

Em meio a tantos problemas, Garay é claro ao definir que time o Botafogo vai enfrentar.

– Somos um time jovem, de muita briga pela bola. Não vamos acreditar em bola perdida. Estamos convencidos de que podemos jogar bem e conseguir a vaga. Aceitamos as coisas como elas são e vamos lutar com o que temos. E lutar no campo.

Fonte: Blog do Mansur - O Globo Online