Toca o telefone e do outro lado da linha está um amigo botafoguense. Sua paixão pelo clube é do tamanho de sua aversão pela política — qualquer que seja ela. Daí jamais ter participado de nenhuma diretoria, embora tenha estado próximo de todas — justamente por ser um ilustre botafoguense apolítico.

Naturalmente aflito com a situação dramática de seu clube, à beira de novo rebaixamento, ele me liga e decide contar, tintim por tintim, os motivos dos afastamentos de Emerson, Bolívar, Edílson e Júlio César.

— É claro que todos são considerados lideranças negativas. Mas não é só isso. O Maurício Assumpção recebe a cada jogo um “scout” detalhado da partida e foi assim que ele descobriu que 43% dos gols sofridos pelo Botafogo eram pelo lado direito de sua defesa. O Edilson se mandava para frente, e o Bolívar não tem mais velocidade para fazer a cobertura. O resultado era uma autêntica avenida. O mapa da mina — me diz ele.

No caso específico do zagueiro central, entretanto, ele me conta que houve agravantes:

— O presidente sempre o considerou um dos seus homens de confiança. A ponto de, certa vez, Bolívar ter cometido uma grave indisciplina, na concentração, durante uma viagem, e Maurício tê-la perdoado e acobertado. Nunca ninguém soube disso. Daí ele se sentir especialmente traído quando soube que o zagueiro era um dos líderes que fomentava o movimento de greve.

Nem o fato de os salários estarem atrasadíssimos serviu como atenuante:

— Certa vez houve uma proposta de amistoso, contra o Botafogo da Paraíba, e a cota era de R$ 160 mil. Maurício chamou o Bolívar e disse que esse dinheiro seria depositado diretamente nas contas dos jogadores e funcionários que ganhavam e menos e estavam passando por necessidades. Ele topou, disse que ia falar com os outros mas na hora H ninguém foi.

Outro caso que revoltou o dirigente foi o de Emerson. Conhecido por dar festas que varam a madrugada, em sua cobertura, na Barra, numa delas antecipou, abertamente, que não iria enfrentar o Criciúma.

— Tudo porque ele soube que teriam que enfrentar três horas de ônibus. Quando soube disso, nem fez segredo. Falou pra vários dos amigos que estavam presentes que não iria de forma alguma. O que fez, então? Cavou a expulsão naquele famoso jogo em que, depois, ao sair de campo, foi para uma câmera dizer que a CBF era uma vergonha. Pra você ver, vergonha maior era o que ele estava fazendo…

Na mesma partida, houve outra expulsão.

— Júlio César entrou na do Emerson e também resolveu armar pra não ir. A ponto de ter ido xingar o juiz, depois que o jogo terminou, só pra levar cartão vermelho. Um absurdo. O Botafogo já tinha vários desfalques para este jogo e ficou sem mais dois.

Pergunto se, apesar disso tudo, não teria sido melhor esperar, pelo menos, o final do campeonato, já que ao menos três dos quatro afastados eram titulares absolutos e, tecnicamente, ainda fazem falta ao time. Meu amigo pensa um pouco e conclui:

— Olha, nessa estou com o Maurício Assumpção. Acho que se eles tivessem ficado, aí mesmo é que o Botafogo já teria caído.

Será? Nunca vai se saber…

Fonte: Blog do Renato Mauricio Prado - O Globo Online