Jefferson já consegue olhar para a frente. Enxerga um grupo de amigos e parentes partindo em caravana de São José do Rio Preto para prestigiar seu retorno ao gol do Botafogo, mais de um ano após a primeira cirurgia no braço esquerdo. Vê o vínculo com o clube ultrapassar dezembro, o nome na lista de convocados para a Copa da Rússia, a aposentadoria digna, o motor potente da F Maxx de nove lugares, sonho de consumo que ainda não cabe na garagem do apartamento.

Jefferson já consegue olhar para trás. Vê a dor insuportável, a primeira cirurgia em maio, a volta ao treino três meses depois, mais dor insuportável, a segunda cirurgia em novembro, a dúvida própria de quem não consegue enxergar nada, nadinha, à frente.

– Você desanima, sabe? A cara do médico não era nada boa quando ele veio me dizer que eu tinha de operar de novo. Fiquei chateado. Sou funcionário do Botafogo, acatei o que mandaram eu fazer, mas perdi tempo. E decidi que pararia se, depois da segunda cirurgia, continuasse com dor. Mas voltei sem dor. Já estou em condição de ficar à disposição do treinador – relata o goleiro.

Sem pressa. A bola está com Gatito, e Jefferson freia a ansiedade sem medo de deixar o nome na poeira.

– Sou um ídolo. Minha história no Botafogo não vai se apagar. Gatito está em um bom momento, tenho de respeitar – diz, tranquilo, mas disposto a ir aos poucos assumindo o lugar perdido: – Quando eu voltar (a ser titular), vou precisar de muito ingresso, viu? Muita gente vai querer vir lá de São Jose do Rio Preto para me ver.

A cidade no interior de São Paulo, onde nasceu a mulher de Jefferson, é o retiro da família. Foi lá que o goleiro abriu há oito meses a Beato Cafeteria. É lá que o goleiro planeja estacionar sua picape F Maxx quando aposentar as luvas.

– Esse carro, fabricado no Paraná, é um sonho meu. Mas é muito grande. Não cabe na minha garagem. Só vou comprar a F Maxx quando me aposentar e for morar em Rio Preto. Até aproveitei esse período de recuperação para tirar a habilitação categoria “D” – para o transporte de mais de oito passageiros. Fiz as aulas em micro-ônibus (risos).

A aposentadoria está planejada, falta a data. Por saber, aos 34 anos, que o fim talvez esteja próximo, Jefferson não quer um contrato longo.

– Há alguns meses, eu não queria falar em renovação. Poderia dizer: “Já deu”. Mas estou me sentindo bem nos treinamentos, sem dor, e acho que está chegando a hora de a gente se encontrar para falar do contrato, que termina em dezembro. Não vai ser difícil, pois a conversa será entre duas pessoas que amam o Botafogo. Meu foco é ganhar títulos aqui e ir à Copa. E não quero um contrato longo, de quatro anos. Quero ir avaliando… Não vou jogar por nome, mas por rendimento – afirma Jefferson, de novo esquentando o motor para o que vier.

Fonte: Blog da Marluci Martins - Extra Online