Sentado na mesma posição há vários minutos enquanto encaro mais uma derrota na televisão, reflito sobre as festas em campo que nunca são nossas e sinto o amargo e repetido gosto da decepção.

Isso porque não é a primeira vez que o nosso fim de ano se encaminha para um número a mais na fila de títulos. Já são 22 e já não consigo mais olhar para a próxima temporada e, fingindo otimismo, pensar: “ah, na próxima dá.”

Ainda não consegui entender o que aconteceu ali na virada do século; apenas consigo ver que, desde então, o Botafogo está estagnado, parado no tempo. Vários outros levantaram troféus, enquanto nós, passivos, apenas assistimos, ano após ano.

É claro que o abismo financeiro cada vez maior não pode ser ignorado, mas também não consigo deixar de pensar naqueles times cheios de brio que, ainda que devendo na técnica, nos encheram de taças na década de 90.

Durante esta semana, Jair Ventura comparou duas idas consecutivas à Libertadores a escalar o Everest ou ir à Lua. Isso ajuda a entender o que acontece ano após ano em que amargamos o jejum: nós temos medo de altura.

Não daquela que causa vertigem ao olhar do topo de um prédio ou da janela de um avião; falo da altura das conquistas, da grandeza dos objetivos ainda não alcançados, dos recordes a serem estabelecidos; falo, aqui, do topo do pódio.

Sigo à espera de um grupo que faça a diferença, que não use muletas para justificar fracassos, que não use o jejum para dizer que já estão “acima do esperado”, transformando o período sem títulos num ciclo sem fim.

Enquanto tentamos equilibrar contas irreais e finanças insustentáveis, sonhamos com um time que tenha culhão o suficiente para diminuir essa distância monetária na marra e nos devolver às glórias com as quais nos acostumamos.

Falo aqui de Túlio Maravilha, Wágner, Gonçalves, Gottardo, Sérgio Manoel e dezenas de outros que fizeram o Botafogo ser Botafogo pela última vez. Com uma torcida que sobe em asa de avião, não se pode ter medo de alçar grandes vôos.

Precisamos de menos Brunos Silvas e mais Zés Robertos, como o craque que, hoje, se despediu do Palmeiras. Menos jogadores que nunca ganharam nada e se acham craques, mais ídolos que, ainda que com carreiras fantásticas, ainda se coloquem abaixo da grandeza dos clubes – esses, sim, sabem o que é o futebol.

Enquanto isso, seguimos esperando o Botafogo voltar. Quanto à Libertadores, melhor parar de se iludir. Para ser da forma que está sendo, prefiro dar vaga a quem quer e merece. Enquanto uns se justificam, outros escalam o Everest.

Notas

Gatito Fernández: 7
Uma ou outra boa defesa. Às vezes fico imaginando a agonia que deve ser assistir esse time de dentro de campo sem poder fazer nada.

Arnaldo: 3,5
Começou bem, mas novamente foi uma negação no ataque e, no segundo tempo, entregou a paçoca. Primeiro ao deixar Dudu disparar sozinho para o gol; depois, com uma tentativa de recuo patética com o peito. Muito fraco.

Joel Carli: 6
À medida do possível, foi bem. Neutralizou, junto com Rabello, o ataque do Palmeiras.

Igor Rabello: 6,5
Bem nos botes e desarmes, tentou até armar o jogo diante da ineficiência do nosso setor ofensivo.

Gilson: 3
Gostaria de saber quem o enganou a respeito de ser jogador de futebol. Horroroso. Errou tudo no ataque e, na defesa, deu espaço para o cruzamento no 1º gol – assim como em vários outros gols que sofremos neste campeonato.

Rodrigo Lindoso: 6
Ocupou bem os espaços e tentou chegar à frente. Em um dos lances, deu cruzamento perfeito – e prontamente desperdiçado por Pimpão.

João Paulo: 6,5
Lutou como sempre, mas nem ele foi tão bem hoje.

Bruno Silva: 5
Tentou jogar alguma coisa, mas logo desistiu. Foi mais fácil levar um amarelinho e antecipar as férias.

Rodrigo Pimpão: 4,5
Há algum tempo não joga nada, segue no time por falta de opções melhores. Perdeu um gol ridículo, onde era só escorar o cruzamento para as redes.

Leo Valencia: 3,5
Errou tudo o que tentou. Nervoso, pilhado e sem ritmo, irritou com suas passadas curtas adiantando a bola. Precisará de um intensivão na pré-temporada caso queira algum sucesso no Brasil.

Guilherme: 3
O pior finalizador do time jogando como camisa 9 num jogo onde precisávamos vencer. Isso já diz tudo. Falta só um jogo para nunca mais vermos essa desgraça com nossa camisa.

Marcos Vinícius: 5
Entrou, acertou umas duas invertidas legais, mas pouco acrescentou ao time.

Vinicius Tanque: 5,5
O time estava tão mal que a sua entrada melhorou o desempenho do setor ofensivo – ao menos serve como referência.

Ezequiel: sem nota
Garoto muito promissor que estreou com 2-0 fora de casa. Desnecessário colocá-lo em campo hoje diante destas circunstâncias.

Jair Ventura: 5
Inventou com Guilherme na frente. Sua declaração durante a semana, citando o Everest, fez com que muitos perdessem a paciência sobre o seu já contestado trabalho. Ainda o considero o principal responsável pelos bons resultados do primeiro semestre, mas o jogo ofensivo é uma deficiência grave que precisa trabalhar – além, claro, de suas declarações bizarras.

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPN FC