Oito vitórias, três empates e oito derrotas. Dezoito gols marcados, dezenove sofridos, saldo negativo. 47,4% de aproveitamento. Olhando apenas os números, definitivamente não é uma campanha de Brasileiro durante um turno para se orgulhar. Muito menos para um clube tradicional e no grupo dos campeões nacionais.

Mas olhando o contexto do Botafogo afundado em uma crise financeira que beira à penúria, não é nenhum absurdo chamar a realidade de décima colocação, ainda na primeira página da tabela e nove pontos à frente do Fluminense, 16º colocado, como um “milagre”.

Feito que tem nome e sobrenome: Eduardo Barroca. O treinador de 37 anos que consegue trabalhar conteúdo e modelo de jogo com um grupo de jogadores no qual alguns já entraram no quarto mês sem salários e os mais experientes, que conseguiram construir um patrimônio ao longo da carreira, estão ajudando os jovens com remunerações mais modestas – oficialmente a informação é de dois salários na carteira e três de direitos de imagem, mas o blog apurou que a situação é mais complicada. Tanto que os atletas continuam se recusando a expor os patrocinadores em entrevistas coletivas.

Enquanto o clube busca parceiros dentro do projeto “Botafogo S/A” para sanear as finanças, Barroca vai trabalhando com o que tem. A posse de bola tão valorizada pelo técnico, a quarta maior entre os 20 times da Série A segundo o Footstats, acabou se transformando em ferramenta de defesa, para evitar ser mais fustigado pelos oponentes. Nas estatísticas do site Whoscored, o time é o que trabalha mais dentro do próprio campo, defendendo ou com a posse sem entrar na intermediária do rival (33%).

Em quase todas as partidas, a dificuldade da equipe é acelerar as transições ofensivas. Se fecha no 4-1-4-1, recua muito os ponteiros para auxiliar os laterais e apenas Diego Souza fica mais adiantado, o que praticamente inviabiliza os contragolpes em velocidade. Alex Santana, o mais agressivo e intenso dos meio-campistas, é que muitas vezes se apresenta como válvula de escape. Não por acaso é o artilheiro da equipe na competição junto com Diego Souza, ambos com cinco gols. A média é de menos de um por partida e o time só finaliza mais que o CSA, ambos com média de nove por jogo (Footstats).

O sistema defensivo se desdobra para compensar com organização e linhas compactas, mas não conseguiu evitar que Gatito Fernández e Diego Cavalieri, este em quatro partidas, ficassem entre os goleiros com maior média de intervenções e o time fosse o líder em ações de defesa. No empate sem gols com o Ceará no Castelão, um sufoco de 21 finalizações contra, cinco no alvo. Apesar dos 57% de posse de bola, apenas três finalizações. Nenhuma na direção da meta adversária.

Um ponto a ser comemorado dentro de cenário complexo, mas uma campanha com entendimento do campeonato que o Botafogo disputa: das oito vitórias, cinco foram sobre adversários diretos na luta contra o rebaixamento – Fortaleza, Fluminense, Vasco, CSA e Avaí. Mais uma sobre os reservas do Athletico que prioriza o mata-mata.

Ser forte no Estádio Nílton Santos e arrancar pontos como visitante é o que resta. A meta de 30 pontos estipulada por Barroca – quinze nos nove jogos antes da Copa América e mais quinze nos outros dez do turno – se mostrou ambiciosa demais. Até porque é difícil cobrar até o básico quando não se cumpre com a obrigação do pagamento mensal.

O Botafogo abre o returno em casa na manhã de sábado diante de um São Paulo em crise. Chance de buscar os três pontos e se manter entre os dez primeiros. Bem longe do Z-4, apesar do orçamento e do elenco mais limitado que de muitos clubes que estão abaixo do alvinegro na tabela. Graças ao sacrifício de todos, mas, especialmente, ao comando de Barroca. Um saldo mais que positivo até aqui no grande desafio da carreira do jovem treinador.

Fonte: Blog do André Rocha - UOL