A sorte parou de conspirar, a bola parou de entrar e os adversários deixaram de vacilar por três rodadas. O suficiente para tirar o Botafogo da liderança – usada como muleta para encobrir erros primários – e alçá-lo ao quarto lugar. Poderia ter sido pior: estaríamos fora do G-4 caso o Náutico vencesse o CRB. O fato é que o Botafogo é um barco à deriva e seu destino está se decidindo por resultados alheios.

Seria mentira se eu dissesse que não esperava por isso. Todas as decisões dessa nova diretoria sempre me fizeram enxergar essa possibilidade. Não estou aqui criticando ações desde janeiro pelo simples fato de ser corneteiro, mas sim por ter a realidade diante dos meus olhos desde o princípio.

O Botafogo é, sem dúvidas, o time grande do Brasil mais limitado por suas dívidas. No Ato Trabalhista, é o que possui a maior relação parcela/orçamento – paga mais de R$ 1 milhão por mês. Isso obriga o clube a ter uma margem de erro perto de zero e exige a realização de um trabalho moderno, profissional e certeiro; ou seja, tudo o que não vem sendo feito.

Alguns fatores podem ser considerados pecados capitais.

Em dezembro de 2014, ignorando a necessidade de renovar o departamento de futebol com profissionais novos, atualizados e competentes, o presidente Carlos Eduardo Pereira nomeou Antônio Carlos Mantuano e o “delegado” Antônio Lopes como os cabeças de sua gestão. O primeiro representa tudo de ruim que existe no cenário político de General Severiano e nunca fez nada de bom pelo clube; o segundo foi rebaixado com o Atlético-PR em 2011 em seu último trabalho como treinador, além de ter sido péssimo na função de homem forte dois anos depois. O que o credenciou ao cargo em um ano tão importante?

Em janeiro de 2015, o técnico René Simões assinou seu contrato. O Botafogo jogou fora a oportunidade de dar chance a um bom profissional da nova safra e contratou alguém que, em 30 anos de carreira, teve como sua maior vitória uma vaga na Copa do Mundo com a seleção da Jamaica. Apontei isso aqui no blog. Em sete meses, seu time não evoluiu em nenhum aspecto. O clube jogou mais de meia temporada no lixo por ter contratado um treinador tão obsoleto quanto nosso gerente de futebol. Só foi demitido ao jogar 700 mil reais no lixo com a eliminação patética na Copa do Brasil.

Ainda em janeiro, nosso departamento de futebol deu mais uma demonstração de total despreparo ao desconhecer o potencial dos jogadores remanescentes. A não renovação de Gilberto é revoltante, visto que o lateral só foi procurado em março, quando já estava de cabeça feita para viajar à Europa. Um clube com tão poucos recursos não pode abrir mão de um talento dessa forma. Se querem valorizar as divisões de base, como tanto repetem, que façam de maneira correta. Entupir a escalação com jogadores bisonhos como Diérson, Gegê, Octávio e Sassá é fazer isso de maneira totalmente errada, ao passo que Sidney, Dedé, Fabiano, Emerson e Jeferson Paulista são ignorados. Cadê o critério?

Em julho, o Botafogo iniciou o desmanche de um elenco já limitadíssimo. A saída de Marcelo Mattos foi tecnicamente ótima, mas não foi reposta – assim como a de Bill, jogando a responsabilidade no colo de um jovem de 17 anos. Já as perdas de Gilberto e Pimpão são irreparáveis e o clube não se precaveu quanto a isso em nenhum momento. Não se pode perder as duas melhores armas ofensivas sem ter nenhuma amarra contratual para ao menos tentar segurá-las. Em nenhum momento se prepararam para o cenário de propostas e possibilidade de perda de atletas. Ou acharam que iam esperar o Botafogo concluir sua missão do acesso?

Em agosto, com a demissão de René, o clube ganhou nova chance de experimentar novos ares no comando técnico. No entanto, entregaram o cargo a um treinador que estava fora do mercado há quatro anos. Não culpo – ainda – Ricardo Gomes pela queda do time, mas o momento exigia alguém com ritmo de trabalho, experiência com elencos limitados e constante atualização de filosofia de trabalho. O Botafogo ignorou isso tudo e deu um tiro no escuro. Ricardo é ótima figura e sua volta ao futebol é um grande exemplo de superação, mas o clube não podia se dar ao luxo de arriscar novamente.

Nesse meio tempo, o clube tentou repor as perdas do elenco. Resultado das contratações: um volante reserva da Série C, dois uruguaios anônimos do mesmo empresário de Nicolás Lodeiro e uma eterna promessa de novo Neymar. Essas contratações, de forma alguma, podem ser consideradas reforços. Nosso departamento de futebol está brincando com a sorte e fazendo pouco caso do destino de um clube centenário, glorioso e gigante.

A minha conclusão é que não existe futuro para o Botafogo, a não ser uma total abertura política, possibilitando a votação por parte dos sócio-torcedores e uma renovação do quadro de sócio-proprietários e grupos políticos em General Severiano. Até por isso, divulgo aqui a ótima petição que busca regulamentar essa possibilidade de voto, que foi, inclusive, promessa de campanha da Chapa Ouro.

A diretoria plantou amadorismo e está colhendo crise. Nada que não fosse previsível lá em janeiro. A muleta da liderança já não existe mais, e o presidente mostra a outra face nas redes sociais ao perder a humildade e não aceitar críticas construtivas ou ajuda de terceiros. Quem paga é o Botafogo, com o acesso cada vez mais ameaçado. Nos resta torcer para que os deuses do futebol tenham clemência.

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPN FC