Não tinha como ir para o jogo de hoje sem lembrar do confronto ocorrido há 10 dias. Uma goleada dentro de casa que machucou o botafoguense, freou a empolgação com a reação no Campeonato Brasileiro e enterrou qualquer expectativa de avançar na Copa do Brasil.

Mas o destino cisma em brincar com a gente e, na verdade, a lembrança importante seria outra – essa, um pouco mais distante. Há 4 anos, o Glorioso invadia Minas Gerais e derrubava o Cruzeiro com um golaço do até então camisa 10. Trata-se nada mais, nada menos que Seedorf, o holandês que desfilou com nosso manto pelo Brasil em 2012 e 2013.

 

Na melhor atuação do Botafogo na atual temporada, Camilo também coroou nossa vitória com um lindo gol que impressionou pela semelhança plástica do que ocorreu no Horto, com esta mesma camisa. Pegando de primeira, na veia, num sensacional sem pulo, fez a bola morrer no cantinho e o torcedor se esgoelar de euforia e alívio com o 2 a 0 no placar.

Antes disso, no entanto, muita coisa aconteceu. Sob a desconfiança de muitos, o técnico Jair Ventura resolveu inovar e escalou o time no 4-2-3-1, formação que o Glorioso não usava há alguns anos. Além disso, colocou um zagueiro na lateral-direita e um lateral-esquerdo no trio de meias. À primeira vista, senti um frio na espinha – mas, conhecendo bem o Fogão, decidi pagar pra ver.

Espelhando a tática do adversário, Jair conseguiu neutralizar as principais armas de Mano Menezes e usar isso a seu favor. Os jogadores assimilaram bem as instruções defensivas, embora ainda se enrolasse ao sair pros contragolpes. Ainda assim, houve tempo pra Neílton desperdiçar a melhor oportunidade da primeira etapa.

Jair detectou esses problemas e, certamente, orientou os jogadores no vestiário. Era nítido que, podendo fazer uma ótima parceria entre Victor Luis e Diogo Barbosa, insistir em jogadas pela direita, onde estava Emerson improvisado, era completamente desnecessário. O grupo percebeu o erro e voltou ainda melhor do intervalo, saindo pro jogo com mais inteligência.

Desde o apito inicial do 2º tempo, as tabelinhas pela esquerda se tornaram frequentes. A ótima dobradinha entre Victor e Diogo rendeu ótimos ataques – como o do primeiro gol, marcado por Canales. Com a frieza que esperamos meses para conhecer, o chileno finalmente comemorou seu primeiro tento com a nossa camisa.

Daí em diante, o desespero tomou conta do Cruzeiro e Mano lançou o time de vez ao ataque. Fechadinho, o Fogão esperou o momento certo pra liquidar a fatura. Aos 36, Victor recebeu boa bola na linha de fundo, levantou a cabeça e cruzou com perfeição pra Camilo, que chegava de trás. Ele mostrou porque tem sido a peça fundamental na reação Gloriosa no campeonato, matando o jogo e lançando o Botafogo à oitava colocação – nossa melhor em 2016.

Os 10 minutos finais foram de apreensão. Mesmo marcando com certa segurança, o time não conseguiu evitar uma meia dúzia de boas chances do adversário no sprint final. Com defesas de Sidão e bicos pra frente, resistimos bem e não sofremos gol mais uma vez. Espero que o barbudo esteja aprendendo algo ao assistir do banco de reservas.

Notas

Sidão: 8
Enfim voltou a ter ótima atuação. Fez, pelo menos, 4 grandes defesas.

Emerson: 7
A ideia de trocar um lateral por um zagueiro surtiu bastante efeito. Emerson fechou a casinha durante os 90 minutos mas, naturalmente, teve sérias dificuldades ao se arriscar no apoio.

Joel Carli: 8
Mais uma atuação excelente do nosso xerife argentino. Com a braçadeira de capitão, mostrou tranquilidade e liderança. Sua suspensão foi um absurdo cometido pelo árbitro e ele fará muita falta contra o Santos.

Emerson Silva: 7,5
Fez o simples e rebateu todas as bolas. Teve muito trabalho e foi bem contra o bom ataque do Cruzeiro.

Victor Luis: 9
Pra mim, o melhor em campo. Incansável, fechou muito bem o lado esquerdo e mostrou muito talento na frente, dando as duas assistências do jogo e criando ótimas jogadas nas dobradinhas com Diogo.

Dudu Cearense: 7,5
É um jogador com muita técnica, mas começou em ritmo um pouco lento. No decorrer do jogo, cresceu bastante e foi importante na consistência do meio-campo.

Bruno Silva: 6,5
Mesma coisa que o Dudu: começou devagar e subiu de produção aos poucos, principalmente no segundo tempo. Foi bem, mas abaixo dos outros.

Diogo Barbosa: 7
Ao contrário do clássico contra o Fluminense, se encontrou na posição. Como winger, teve menos preocupações defensivas e pôde se soltar no ataque. Ainda carece de adaptação à função, mas foi bem – principalmente nas tabelas com Victor, provavelmente muito treinadas durante a semana.

Camilo: 8
Correu muito, orientou os companheiros e fez um gol que dispensa comentários. Só de estar em campo, o time já cresce. Importantíssimo.

Neílton: 6
Perdeu chance clara no primeiro tempo. Não conseguiu repetir as ótimas atuações das últimas partidas.

Sassá: 5,5
Aparentando desgaste desde o início do jogo, pouco participou do jogo. Não mostrou a movimentação de sempre e foi sacado no intervalo.

Canales: 7,5
Entrou no intervalo e finalmente deu as caras. Fez um gol de matador, com frieza e habilidade, além de participar bem com toques inteligentes de primeira e jogadas de pivô. Se fosse sempre assim, agregaria bastante.

Rodrigo Pimpão: 4
Insisto: até quando?

Gervasio Nuñez: sem nota
Entrou no lugar de um esgotado Victor Luis já no fim e pouco participou.

Jair Ventura: 10
Sou justo. Adotando a tão falada “meritocracia”, procuro elogiar e criticar com justiça. Dessa vez, ele ganhou o jogo. Desde a escolha tática, passando pela escalação até as instruções no intervalo. Podem colocar esses 3 pontos na sua conta, pois fez o grupo assimilar perfeitamente o seu plano de jogo. Deu o famoso “nó tático”.

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPN FC