No jogo da volta, quarta-feira que vem, o Botafogo têm condições de dar o troco e passar à fase de grupos da Libertadores. Se triunfará mesmo no mata-mata, é outra coisa. Possui elenco melhor do que o fraco Deportivo Quito, que bateu ontem o time carioca por 1 a 0, na altitude de quase 3.000 metros da capital equatoriana. O alvinegro precisa vencer no mínimo por dois gols de diferença. Se ganhar por 1 a 0, decide nos pênaltis.

Na maior parte da partida, em que o Deportivo somou chances mais perigosas de gol, meu principal sentimento foi o de saudade do craque Seedorf, que trocou as chuteiras por sapatos pretos lustrosos e se tornou técnico do Milan, do técnico Oswaldo Oliveira, cujo Santos ontem achocolatou o Corinthians por 5 a 1, e até do atacante Rafael Marques, cuja movimentação intensa era muito útil ao toque de bola da equipe que viveu grandes momentos no ano passado _o magrela desengonçado transferiu-se para a China.

Não sei se o Dória sentiu o ar rarefeito, mas começou mal, levando bola nas costas e falhando no gol de Estupiñán, aos 18 minutos do primeiro tempo. Quando era para dar um chutão para longe ou para a lateral, após uma bela defesa de Jefferson, o zagueiro deu um chutinho que parou no pé do atacante adversário.

Até sofrer o gol, o Botafogo apostava em lançamento longos demais e bolas aéreas. Não era a orientação do técnico Eduardo Hungaro, conforme Jefferson contou no SportTV. A ordem era tocar a bola, insistindo na característica desenvolvida em 2013. Cruzamentos para a cabeça do centroavante Ferreyra era a última opção, disse Jefferson, mas virou a primeira.

O problema é que com três volantes (Marcelo Mattos, Rodrigo Souto e Gabriel) fica mais difícil manter a bola nos pés.

O time foi se recuperando, mas a posse de bola de 54% (fonte: Footstats) não se refletiu em chances promissoras. Jefferson esteve bem, idem Lodeiro. Para mim, a surpresa positiva foi Jorge Wagner, veterano que correu até o fim e tentou organizar o time. Pena que ele tenha deixado Edilson, em noite sofrível, desperdiçar cobranças de falta. Jorge Wagner, que quase marcou um gol olímpico, deveria tê-las batido.

Jorge Wagner, contudo, está muito longe de ser Seedorf.

O argentino Ferreyra, estreando no clube que voltou à competição continental depois de 18 anos, foi frustrante. A certa altura, o locutor da TV disse: “Ferreyra briga pela bola”. O mais preciso seria “briga com a bola”. Não conseguiu dominar, trocar passes, ganhar uma corrida. No comecinho da partida, diante do goleiro Ramírez, poderia ter marcado, mas se atrapalhou.

Pode vir a ser feliz no Botafogo, mas o seu estilo tanque, paradão, contrasta com a ideologia de jogo consagrada por Oswaldo Oliveira, de movimentação obsessiva e controle do jogo. A equipe perdeu só de 1 a 0, mas Ferreyra levou uma goleada da bola.

Fonte: Blog do Mário Magalhães - UOL