Desde antes do apito inicial, já era possível ouvir a torcida do Botafogo no setor visitante de São Januário. O campo estava vazio, mas a arquibancada estava cheia de amor e sangue nos olhos. Se tem faltado gasolina no Rio de Janeiro nesses últimos dias, os loucos alvinegros, que encheram o espaço destinado ao Glorioso, foram um grande combustível para a equipe.

 

Correspondendo ao incentivo, o Botafogo entrou ligado e fez seus melhores 45 minutos no Campeonato Brasileiro até aqui. Com linhas definidas, um plano de jogo bem traçado e explorando as – várias – deficiências do rival, chegamos ao 2 a 0 até com certa facilidade. Os setores estiveram mais compactos e preenchemos cada espaço do campo no momento defensivo, travando as subidas cruzmaltinas.

 

O volante Jean, cuja contratação foi bastante cornetada por mim, deu outra cara ao meio-campo. No primeiro tempo, jogou por ele e por Lindoso – e ainda arranjou um tempinho para ir à linha de fundo e cruzar com perfeição para o gol de Kieza. A lesão de Marcos Vinicius fez entrar em campo o Pimpão, que, se não uma ótima opção ofensiva, fechou os espaços pelos lados; com Marcos e Valencia em campo, ficaríamos mais vulneráveis.

 

Falando no chileno, parece que a boa atuação na derrota para o São Paulo o encheu de confiança. Ainda precisa melhorar nos arranques para organizar os ataques, mas a bola parada está impecável – e, de seus pés, saiu o cruzamento para o gol de Rabello. Ali, a pressão da torcida local era quase insustentável e as vaias, ensurdecedoras. Tudo favorável. E é aí que mora o perigo.

 

Já viu aquela vitória tranquila, por 2 a 0 e sem sustos do seu time? Parabéns, pois eu não. Todo bom botafoguense passou os 15 minutos do intervalo roendo as unhas. Nunca soubemos atuar com a vantagem no placar – e hoje não seria diferente. Cheguei a comentar com os amigos que me sentia mais nervoso a partir do segundo gol do que com a vitória magra por um gol de diferença.

 

Vitor Silva / SSPress / Botafogo

Vitor Silva / SSPress / Botafogo
Kieza, jogando como centroavante, fez gol de oportunismo

 

Na volta para a segunda etapa, o time relaxou e deu espaços. O Vasco cercou nossa intermediária, ganhou espaço e, em um chute de muito longe, diminuiu a diferença e mudou completamente o jogo. Demos mole para o azar. O que poderia ser um jogo tranquilo, administrando a posse e tentando espaço para um placar mais dilatado, transformou-se em um deus nos acuda.

 

A torcida dos caras se empolgou, o time cresceu e veio para cima. No entanto, tirando um susto ou outro, conseguimos suportar a pressão. Como dizem hoje em dia, “soubemos sofrer”. E como sofremos! Até mesmo diante de um time horroroso como esse atual do Vasco, a gente não consegue ter paz.

 

Mas o que importa, no final das contas, é que saímos com três pontos da casa do rival – onde nossa torcida deu o tom. Cantamos o jogo inteiro, mandamos no confronto durante 45 minutos e soubemos nos defender no restante. Faltou capricho nos contra-ataques, mas essa bronca eu deixo para o Valentim. Hoje é dia de comemorar.

 

A vocês, alvinegros, que estiveram em São Januário: muito obrigado. O Botafogo não é o Valentim, não é o Kieza e não é o Rabello. O Botafogo é cada um de vocês, honrando e lutando pela nossa Estrela – mesmo que seja contra o mundo inteiro. A cada grito, a cada aplauso, a cada vibração e a cada xingamento, vocês fizeram a diferença. A vitória hoje é de vocês. Parabéns!

 

Ao nosso treinador, um primeiro tempo que mostra luz no fim do túnel. Jogamos um futebol organizado e com qualidade, tendo posse de bola e agressividade sem se desguardar na defesa. Independente da qualidade do adversário, tivemos personalidade e bom futebol. Que seja um espelho para seguirmos durante o resto da temporada.

 

Quarta-feira, receberemos o Ceará no Estádio Nilton Santos. Com todo o respeito possível ao Vozão, time que simpatizo, mas é jogo para embalar. Vista o seu manto, coloque a Estrela no peito e junte-se aos irmãos de camisa. Se hoje fizemos a diferença com menos de 5 mil, imaginem o estrago que podemos fazer com quarenta mil vozes em nossa casa?

 

Vejo vocês lá!

 

Notas

 

Jéfferson: 4,5
Seguro durante toda a partida, mas tomou um gol defensável. A finalização foi forte e muito bem colocada, mas era possível pegar – principalmente para a qualidade do Jeff.

 

Marcinho: 6
Preocupou-se em fechar os espaços e, aos trancos e barrancos, fechou o lado direito. Pouco foi à frente.

 

Joel Carli: 7
Uma máquina de rebater bolas. Se enrolou um pouco com ela nos pés, mas foi o xerife de sempre.

 

Igor Rabello: 8
Desempenho tão bom quanto o de seu companheiro de zaga – e ainda chegou na frente para fazer o seu de cabeça. Ótimo jogo.

 

Moisés: 5
Na minha visão, o pior jogador de linha hoje. Ainda não recuperou a forma depois da lesão e deixou espaços bobos. No ataque, também não foi nem sombra do que já foi. Precisa de tempo para reconquistar a confiança e voltar a produzir.

 

Jean: 8
Calou a minha boca. Marcou muito, desarmou várias e ainda chegou à frente para cruzar. Sem empolgar, pois é o primeiro jogo, mas foi uma grata surpresa. Deu outra cara ao meio de campo. Saiu exausto no começo do 2º tempo.

 

Rodrigo Lindoso: 5,5
Hesitante demais, foi salvo por Jean. Faltou velocidade para iniciar os contra-ataques.

 

Rodrigo Aguirre: 5,5
Ainda visivelmente fora de forma, não conseguiu produzir e mostrar suas qualidades. Não tenho curtido o posicionamento escolhido, muito longe do gol. Não acho que seja jogador para atuar aberto. Seu lugar é perto da área.

 

Marcos Vinicius: sem nota
Pouco tempo em campo para mostrar algo. Saiu machucado sentindo o joelho após dividida. Preocupa. Definitivamente, não consegue ter sequência.

 

Leo Valencia: 7
Escalado para jogar aberto, acabou sendo centralizado com a lesão de MV. Participou bastante e foi dinâmico, mas faltou caprichar nos contra-ataques. Linda assistência para Rabello. Vem ganhando confiança e crescendo seu jogo.

 

Kieza: 7
Jogando onde sabe, se posicionou bem e empurrou para dentro o bom cruzamento de Jean. Voltou bastante para buscar jogo e sofreu faltas importantes. Na segunda etapa, faltou caprichar para matar o jogo.

 

Rodrigo Pimpão: 6,5
Entrou no lugar de MV, machucado, e teve desempenho razoável. Bons passes nos contra-ataques e fechou bem o lado como de costume. Duas participações seguidas para recuperar a confiança em seu jogo depois das vaias.

 

Marcelo: 6
Entrou na vaga de Jean, que saiu muito cansado, e manteve a pegada na marcação. Bom chute de fora.

 

Luiz Fernando: 5,5
Entrou para prender a bola na frente e não conseguiu. Teve chances nos contra-ataques, mas desperdiçou. Perdeu espaço e precisa mostrar personalidade caso queira aproveitar a chance de jogar em um clube grande.

 

Alberto Valentim: 7
Em meio às críticas, organizou o time para jogar com posse de bola e personalidade. O primeiro tempo foi de manual, mas uma desatenção recolocou o Vasco no jogo. Precisa trabalhar a questão psicológica e fazer o time jogar ligado no 220v durante os 90 minutos.

Fonte: Blog do Pedro Chilingue - Preto no Branco - ESPN