O caos no Rio de Janeiro não é segredo. Estado falido que não paga os servidores, ex-governador preso, atual cassado, Polícia Militar protestando e atuando abaixo do seu efetivo. É evidente que o futebol não teria como escapar disso. Se a falta de segurança estimula a ação de criminosos, óbvio que sabendo do baixo efetivo da PM, os brigões de sempre iriam pra porrada, mesmo com algumas organizadas proibidas nos estádios.

GAZETA PRESS

Houve confusão do lado de fora do Engenhão
Houve confusão do lado de fora do Engenhão antes do clássico Botafogo x Flamengo

Cenário previsível, que poderia ser evitado com medidas antecipadas, como o adiamento do clássico entre Botafogo e Flamengo. Mas não instantes antes do horário marcado para o pontapé inicial, e sim na quinta-feira ou sexta. Por mais que sejam bem-intencionados e estejam, cada um à sua maneira, tentando tirar seus clubes do buraco, os dirigentes protagonizaram um show de horrores em meio a essa barafunda.

O domingo no Nilton Santos, o Engenhão, teve tudo de errado. De falhas operacionais a oportunismo barato e arrogância. Na incerteza de disponibilidade do efetivo da PM e a informação de que policiais do Gepe (o grupamento que faz a segurança nos estádios do Rio de Janeiro) ficaram presos no batalhão de Deodoro, incluindo seu comandante, o Major Silvio, o adiamento deveria entrar em pauta, não tão tardiamente.

Mas a ideia só cresceu quando mais de 20 mil pessoas já estavam no local do cotejo ou a caminho. Não realizar o jogo àquela altura poderia ser pior, acirrando os ânimos e obrigando todas aqueles torcedores a retornarem para casa antes do previsto, em meio a uma atmosfera tensa e absolutamente insegura. À última hora, o fato de um dos times atuar com reservas pode ter pesado na postura de cada lado.

Então surge dirigente alvinegro dando entrevista com camisa de clube e informações desencontradas. Outro, rubro-negro, faz ironias sobre mais PMs no Engenhão do que torcedores do time rival. O presidente do Flamengo, desinformado, fala sobre questões de segurança pública, garantindo condições, sendo que não era o mandantes e três torcedores tinham acabado de ser baleados. Um morreria.

Com sensibilidade paquidérmica, perfil do Flamengo no Twitter solta uma comemoração exagerada após o triunfo apertado ante os reservas do Botafogo, cuja conta na rede social, por sua vez, vai além e insinua que a do rival estaria fazendo apologia à violência. A conta do Vasco, cujas organizadas historicamente se unem com os botafoguenses em brigas com os rubro-negros; entra na discussão virtual. Bizarro!

E segue. Vice flamenguista defende a postura do clube em seu perfil pessoal, e o @Flamengo trata o assassinato de um alvinegro de forma desproporcional com um “Lamentamos a morte do torcedor e os ocorridos no Engenhão…” Óbvio que se trata de um problema de segurança pública refletido no futebol, mas isso não justifica banalização e reações. Em meio ao caos, os clubes passaram o domingo brigando.

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Pelo Twitter, provocações fora de hora
Pelo Twitter, provocações e confronto fora de hora

Cartolas de Flamengo e Botafogo vêm alimentando rivalidades tolas fora do campo. Quando reforçam isso em declarações por redes sociais ou entrevistas, só atrapalham em rasgos de amadorismo que beira a irresponsabilidade. Falta a esses apaixonados torcedores de arquibancada compreender a diferença da conversa de bar para o momento no qual representam seus clubes. Eles agora são dirigentes. É diferente.

Num mundo ideal o Rio de Janeiro não estaria falido, os servidores receberiam em dia, o Maracanã não teria sido estuprado e o ex-governador preso andaria pelas ruas sendo cumprimentado pelos eleitores por uma ótima gestão. Também nesse ambiente imaginário, os presidentes de Flamengo e Botafogo se reuniriam, dariam um ponto final a essa briga tola que há tempos seus clubes alimentam. Pois com ela todos perdem e só têm mais a perder.

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Nação 12 se solidarizou com a Bravo 52 e seu integrante agredido durante o clássico
Nação 12 se solidarizou com a Bravo 52 e seu integrante agredido durante o clássico

PS: uma semana antes, Pedro Scudi, 23 anos, integrante da pacífica barra do Fluminense Bravo 52 foi espancado nas imediações do Maracanã quando voltava do jogo com a Portuguesa, em Xerém. Passou por cirurgia na cabeça, gente com camisas de todas as cores foi até o hospital doar sangue, mas segue internado. Enquanto organizadas de Flamengo e Botafogo se matavam e dirigentes não se entendiam, a Nação 12, a barra rubro-negra, exibia no Engenhão um trapo, uma faixa dando apoio ao jovem tricolor que há oito dias luta pela vida.

Fonte: Blog do Mauro Cezar Pereira - ESPN.com.br