Bolívar, de pai para filho: a origem da patente de general

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A hereditariedade nem sempre significa sucesso no esporte. Muitos filhos de grandes jogadores sequer conseguem emplacar uma carreira mesmo nos clubes onde os pais foram ídolos. Mas o DNA também traz benefícios. Em 1986, Bolívar, zagueiro do Botafogo, tinha apenas seis anos de idade quando seu pai, também Bolívar, viveu uma das maiores  glórias de sua carreira ao ser o capitão da Inter de Limeira na conquista do Campeonato Paulista, o único da história.

O Bolívar pai foi batizado com o nome do general libertador, e o filho deixou de ser Fabian e acabou herdando o nome para jogar futebol, e a patente como apelido. Em campo, o espírito de liderança se manteve com o atual zagueiro do Botafogo, capitão do Internacional na conquista da Taça Libertadores de 2010.

bolívar botafogo ao lado do pai (Foto: Thales Soares)
Bolívar: filho e pai são conhecidos pela liderança e espírito de luta dentro de campo (Foto: Thales Soares)

– Ele é melhor do que eu fui. Ganhou 12 títulos só no Internacional em sete anos. O cara tem estrela, joga para caramba e tem estrela. Só tem essa fama de jogador violento por minha causa. Não sei porque reclamam tanto dele. Quando apareceu o Botafogo, sabia que daria certo – afirmou Bolívar, pai, que está visitando o filho no Rio, cidade na qual não pisava há 40 anos.

Aos 58 anos de idade, com história na Inter de Limeira e passagens por Grêmio e Portuguesa, além de clubes do interior do Rio Grande do Sul, Bolívar está em plena forma. Ele tem aproveitado os dias no Rio para caminhar na praia e foi ao Maracanã assistir ao empate em 0 a 0 com o São Paulo, mas se decepcionou.

– Não consegui assistir ao jogo. Não tinha lugar para sentar. Eu e o Tales (seu neto, de 12 anos) ficamos no corredor vendo pela televisão. Não volto mais – comentou Bolívar.

No entanto, mesmo esse episódio não tira o bom humor do ex-jogador, que atuava como zagueiro e lateral-esquerdo. Na lembrança, as histórias aparecem com facilidade. O filho sabe todas de cor e brinca com a questão da violência, afinal foi eleito o jogador mais violento do futebol brasileiro em pesquisa feita pelo GLOBOESPORTE.COM e pela revista “Monet” com 343 atletas de 23 clubes das Séries A e B do Brasileirão esse ano.

– Meu pai diz que perto dele eu sou uma mãe – brincou Bolívar, o filho, que chegou a 45 jogos com a camisa do Botafogo sem levar um cartão vermelho sequer.

Meu pai diz que perto dele eu sou uma mãe”
Bolívar, o filho

Entre as histórias do Bolívar original, a conquista do Campeonato Paulista de 1986 tem seu lugar especial. Como capitão do time e aos 31 anos na época, considerado em fim de carreira, ele não esquece o dia 3 de setembro e a conversa que teve antes dos jogos decisivos com o Palmeiras.

– Era um time do interior com dois jogos no Morumbi. A gente só ouvia que o Palmeiras estava a um gol do título. Só tinha macaco velho no nosso time e dois meninos, o Lê e o Tato. Disse a eles que era nossa última chance de sermos campeões. Seguramos o 0 a 0 no primeiro jogo e fomos para matar no segundo. Ganhamos de 2 a 1, com um gol do Tato e outro do Kita – lembrou.

Nessa época, Bolívar precisava driblar os árbitros que já o observavam com mais atenção. Arnaldo César Coelho e José de Assis Aragão estão entre os principais lembrados pelo ex-jogador.

– O Arnaldo dizia que quando olhava para trás e via aquele cabelo voando já marcava falta. O Aragão mandava o representante falar comigo no vestiário e avisar para eu não entrar com trava de alumínio. Eu pintava para esconder, mas uma vez na Vila Belmiro, com o campo molhado, apagou (a tinta) e o bandeira viu e avisou. O Aragão chegou perto de mim e mandou tirar – contou.

Se houve momentos de glória e outros divertidos, Bolívar foi testemunha de uma das maiores tragédias do esporte. O ex-jogador representou o Brasil no torneio de futebol das Olimpíadas de Munique e estava na Vila Olímpica durante o atentado terrorista que matou 11 atletas israelenses.

– Era um ambiente de confraternização dos povos. Ouvimos os tiros e quando acordamos de manhã cedo havia barulho de helicóptero, pessoal falando alto, cachorro latindo e polícia no local. Ficamos mais um ou dois dias, e depois o pessoal da CBD disse para irmos embora. O encanto havia acabado, aquela alegria não existia mais. Murchou. Quando organizaram a competição, diziam que havia muita segurança, mas conseguiram entrar lá. Até a boate dentro da Vila passou a ficar vazia – disse.

Em campo, Bolívar lembra com carinho apenas do jogo com a Hungria. Com alguns jogadores que haviam atuado na Copa do Mundo de 1966, a seleção húngara ficou com a medalha de prata, perdendo para a Polônia na final. O Brasil caiu ainda na primeira fase, perdendo para Dinamarca e Irã, mas arrancando um empate em 2 a 2 com os húngaros, em Munique.

– Fizemos uma preparação de quatro meses, mas nossa seleção era muito jovem. Eu tinha 17 anos. Nesse jogo contra a Hungria entrei no segundo tempo. É algo que nunca vou esquecer – afirmou.

O Bolívar mais jovem já completou 33 anos de idade e ainda se apresenta em boa forma física. Com 45 jogos disputados este ano em 51 possíveis, é o jogador que mais entrou em campo pelo Botafogo. Com uma história diferente do pai, com carreira de ídolo no Internacional e se consolidando no Botafogo como líder, não vê motivos para sair do Rio de Janeiro.

– Quando começou o Carioca, e eu estava fazendo gols, ligava para o meu pai, e ele brincava dizendo que eu peguei gosto pela coisa. Antes de vir para cá não tinha essa visão do Rio. Se eu soubesse que era tão bom teria vindo muito antes. O cara vive aqui – disse o zagueiro, que tem contrato até o fim do ano, e há uma negociação de renovação em curso.

Se depender da vontade do pai, tem tudo para continuar no Botafogo. Com o mesmo espírito que fez o velho Bolívar fazer história na Inter de Limeira, e o mais jovem se transformar em general.

– O nome é pesado – brincou Bolívar, o filho.



Fonte: Globoesporte.com
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