Imagine uma pessoa que recebe mensalmente R$ 3 mil. Com 13º salário embolsa, em valores, brutos, ou seja, fora os descontos; R$ 39 mil por ano. Agora tente se colocar no lugar desse trabalhador sendo que ele tem uma dívida superior a R$ 255 mil!

Isso mesmo, 6,54 vezes o que ele ganha. Como pagar? Se alguém lhe desse a chance de cobrir esse rombo com um empréstimo, se ele conseguisse quitar R$ 1 mil por mês, ou seja, um terço do seu rendimento bruto, demoraria mais de 21 anos, fora os juros.

Essa é a situação da Ponte Preta, que possui a pior relação endividamento líquido/ faturamento entre os 20 clubes da Série A, mais o Botafogo. O melhor cenário é da Chapecoense, que se fosse esse trabalhador, quitaria tudo com metade do seu 13º.

O time carioca, que disputa a segundona, no exemplo de quem recebe R$ 3 mil mensais levaria 16 anos e meio para cobrir o buraco. Também sem juros, ou seja, numa situação imaginária. Os botafoguenses foram os que mais se endividaram em 2014.

Mas vamos dar uma passeada pela realidade. Numa conta simplista: se a dívida total do Botafogo, R$ 848 milhões, fosse reajustada pela Selic, 13,75%, o clube teria, só de juros, R$ 116,6 milhões em 2015.

Dívidas fiscais e empréstimos bancários trabalham com taxas superiores à Selic, e o faturamento ano passado foi de R$ 160 milhões. Assim, seria possível que juros ultrapassassem o que o clube conseguirá arrecadar em 2015. Desesperador!

Do endividamento total da Ponte Preta, em torno de R$ 146 milhões, o maior credor é Sérgio Carnielli: R$ 102 milhões são devidos ao ex-presidente do clube de Campinas. E tal déficit está todo lançado no curto prazo, o que torna o cenário ainda mais negativo.

Flamengo, Goiás e Chapecoense foram os que reduziram suas dívidas em 2014 entre os 21 clubes analisados pelo blog Balanço da Bola — clique aqui e acesse —, que forneceu as informações contábeis que sustentam este texto. Da Série A, Corinthians, Atlético Paranaense e Grêmio são os que mais se endividaram no ano.

Importante: as contas do Atlético já incluem a dívida com o estádio, gremistas e corintianos não lançam nos seus balanços os custos de suas “arenas”. Naturalmente isso atenua, e muito, o cenário econômico dos atleticanos.

Além da Ponte e do Botafogo, cresceram muito em relação ao faturamento as dívidas de Vasco, Fluminense e Atlético Mineiro. Sem juros, os vascaínos pagariam em 15 anos, os tricolores em quase 11 e o Galo nove. Sempre separando um terço do rendimento.

Nesse cenário imaginário e favorável, com dívidas totais sendo pagas sem cobrança de juros, os clubes teriam que comprometer 33% do que faturam cobrindo os rombos. Pela MP eles podem gastar 80% com futebol. Sobrariam 20% para novos tributos mensais, despesas gerais e pagamento das velhas dívidas. A conta não fecha!

Além de cumprir religiosamente os pagamentos das parcelas, os clubes teriam que encarar juros e sobraria menos para a formação de bons times de futebol. Investir forte em bons (e caros) jogadores e pagar o que devem pra valer é praticamente impossível.

Veja no gráfico abaixo a relação endividamento/faturamento de cada clube em 2014. Ou seja, quantos anos de faturamento seriam necessários para quitar toda a dívida.

Aqui temos endividamento de curto prazo/faturamento 2014, que mostra em quantos anos o clube pagaria apenas os seus compromissos do próximo ano.

No próximo gráfico, a variação do endividamento em 2014, que mostra se a dívida aumentou ou diminuiu de um ano para outro, por isso aparecem resultados positivos (aumento da dívida) e negativo (ela diminuiu).

Fonte: Blog do Mauro Cezar Pereira - ESPN.com.br