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Coluna: ‘Há espécie de seita que proclama Portela equivalente ao Botafogo’

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Piada repetida. Carnaval? Sou membro da velha guarda do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Frankfurt, a popular Escola de Frankfurt, que desde o desfile de 1936 apresenta o mesmo enredo, criado pelo carnavalesco Walter Benjamin: “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”.

Talvez até seja uma boa piada, sobretudo se se resistir à tentação de nomear Theodor Adorno para o cargo de supervisor de alegorias e adereços, algo no que acabo de fracassar, mas também é uma meia-verdade. Não que eu goste de carnaval, não gosto. Só que curto o bom samba e tenho uma escola favorita. A do título aí à direita.

É quase certo que o culpado seja Paulinho da Viola. “Foi um rio que passou em minha vida” é o primeiro samba de que me lembro. Na ocasião, em 1970, eu não tinha a menor ideia de que se tratava de um gesto de reconciliação com o povo de sua escola de coração, magoado pela exaltação a uma rival, cometida um pouco antes, em parceria com Hermínio Bello de Carvalho: “Sei lá, Mangueira.” Criança ainda, simplesmente fui arrastado pela bela letra e pela fina melodia de Paulinho para a Portela.

Por isso, no tempo em que vencia o sono para assistir aos desfiles, de fato torci pela Portela. (Ficou a falsa impressão de que a sua águia-símbolo só entrava na avenida com o dia raiando.) Não pensei em virar a casaquinha azul e branca estalando de nova nem quando o refrão de Zuzuca para o samba-enredo “Festa para um rei negro”, do Salgueiro, contagiou a cidade no ano seguinte. “Olelê, olalá/ Pega no ganzê…”

A minha admiração pelo portelense Paulinho da Viola só fez crescer com o passar do tempo, diferentemente do meu gosto pelo tipo de samba que se tornou quase hegemônico já na era do Sambódromo, inaugurado em 1984. Tudo contou a seu favor. A elegância pessoal, a riqueza minimalista de seu repertório, a capacidade de se manter fiel à tradição do samba e do choro e, ao mesmo tempo, de renová-los sutilmente… Ou, como escreveu Tárik de Souza em sua coletânea “Tem mais samba”, no artigo sobre Paulinho: “Ele virou a mesa mas não derrubou as prateleiras”. Coisa de bamba.

Há, contudo, outro culpado por esta minha simpatia, quase amor, pela Portela. Ou melhor, culpada. Clara Nunes. Pré-adolescente, eu era apaixonado por Clara Nunes. Com isso quero dizer que gostava das músicas que ela cantava, muitas compostas pelo pessoal da escola, gostava de como ela as cantava e ainda a achava uma bela mulher. Clara se foi muito cedo, aos 39 anos, mas sempre que é muito justamente lembrada (como nos 30 anos de morte, completados em 2013), a sua Portela vem junto.

Existe um terceiro nome que explica parte do meu interesse pela azul e branca. Antônio Candeia Filho. Se Paulinho e Clara correm o risco de desmentir o que Nelson Rodrigues disse sobre unanimidade, Candeia é um personagem polêmico. Policial violento, certo dia tomou cinco tiros, um dos quais atingiu a medula, deixando-o paraplégico. Seus sambas ficaram mais reflexivos, melancólicos, e chegaram ao nível das composições dos mangueirenses Nelson Cavaquinho e Cartola, que, aliás, gravou uma lindíssima versão para “Preciso me encontrar”. Candeia saiu da Portela em 1975, para fundar a Quilombo, de saudosa memória. Morreu três anos depois, aos 43.

Quando assisti ao portelense Zeca Pagodinho pela primeira vez, em 1986, num showmício do PDT no velho campo do América, minha queda pela escola já estava consolidada, mas foi bem reforçada. Durante muito tempo já se falava em Zeca como o “maior cantor vivo de samba”, coisa no mínimo indelicada com o príncipe Roberto Silva, que só morreu até 2012, aos 92 anos. Hoje, porém, não escuto concorrentes.

Por falar em Zeca, há uma espécie de seita que proclama que a escola é o equivalente ao Botafogo — time pelo qual ele e eu torcemos — no mundo do samba. O provável ponto de partida dessa analogia são os longos períodos sem títulos. O Botafogo já passou 21 anos sem conquistar nem o Campeonato Carioca. Se não ganhar o desfile de 2014, a Portela completará 30 anos sem vitórias. Muito tempo, sim, e daí? Ainda assim, a escola continuará sendo a maior ganhadora de títulos, 21.

Seja como for, o amor que se sente por uma escola de samba — ou por um time de futebol — não pode ser ditado pelos campeonatos conquistados, se não não é amor, é interesse. Amigos que frequentam a quadra da Portela relatam que a cada ano cria-se a expectativa de um grande desfile, frustrada a cada ano na hora do vamos ver. Nem por isso os portelenses decidem se bandear para a Beija-Flor.

Gostei do samba da Portela para este ano, composto por Toninho Nascimento e Luiz Carlos Máximo, “Um Rio de mar a mar: do Valongo à Glória de São Sebastião”. Tem um quê de antigamente, tem melodia, sutileza. Portanto, gostei também do perfil de Nascimento — que, aliás, é vascaíno, como Paulinho da Viola — publicado neste jornal, há duas semanas. “Eu chamo de ‘pagode-enredo’ o que essa turma nova está fazendo”, declarou o compositor ao repórter Emanuel Alencar.

Boa sorte, Portela.

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