A cifra é alarmante. O diagnóstico apresentado ao Conselho Deliberativo do Botafogo aponta um passivo na casa de R$ 1 bilhão. O número apresentado durante a votação da criação de uma empresa para gerir o futebol alvinegro leva em conta a soma feita até 30 de novembro. Mas como o clube atingiu esse patamar de endividamento, se na semana passada emitiu nota oficial negando que a dívida estivesse na casa do bilhão?

Segundo o vice-presidente de finanças, Luiz Felipe Novis, é preciso fazer uma diferenciação entre dívida, que ainda não superou R$ 800 milhões, e passivo.

– Toda dívida contábil é um passivo. Mas nem todo passivo é uma dívida. Então, a lei diz que você classifica como dívida tudo aquilo que gera despesa financeira. Por exemplo, o Profut. Tem juros, correção. Ato trabalhista também tem correção anual. Mas um processo que ainda está em discussão não é uma dívida, mas é um passivo – disse ele ao GLOBO.

Loja do FogãoNET por Estilo Piti | O Site oficial do torcedor do Botafogo

O dirigente explicou que para apresentar a viabilidade do negócio Botafogo S/A aos investidores, é preciso considerar montantes que não são levados em conta na formulação dos balanços financeiros anuais. E isso envolve, em geral, valores que estão sob discussão na Justiça.

– A lei diz o seguinte: se a chance de perder for remota, não precisa colocar como passivo. Se for possível de perder, ele não entra no balanço, mas entra nas notas explicativas. Se for provável que você perca, tem que ter uma conta de contingenciamento, guardar valores, para pagar no próximo exercício. Mas, pelo conceito técnico, não é dívida. Senão, iria comparar banana com maçã – contou Novis.

Entre o que o Botafogo considera como passivo total e o que é dívida, a diferença começa a ser vista nos valores contingenciados para causas judiciais que são, segundo Novis, difíceis de perder. Só nisso já “surgem” R$ 230 milhões. De outros compromissos não dá para fugir. O Profut, por exemplo, é responsável por R$ 308 milhões do passivo.

O saldo dos passivos do Botafogo (em mil):

Tributos parcelados: R$ 318.725
Dívida financeira: R$ 154.529
Acordos a pagar (cível, trabalhista e outros): R$ 127.524
Credores por participação de atletas: R$ 27.096
Obrigações tributárias: R$ 33.094
Obrigações com pessoal + uso de imagem: R$ 25.738
Contas a pagar: R$ 11.890
Contingências (1): R$ 82.433
SUBTOTAL: R$ 781.039
Potencial passivo adicional (2): R$ 230.569
TOTAL: R$ 1.011.598

(1) Contingências de natureza trabalhista, cível e fiscal/tributária que estão provisionadas em balanço

(2) Contingências de natureza cível, tributária e trabalhista cuja probabilidade imputada de realização pelos especialistas é menor do que provável.

Busca por investidores

Segundo o vice de finanças, considerar um cenário pessimista no momento atual do Botafogo, que busca investidores, é importante para dar um panorama fidedigno a quem se candidatar a colocar dinheiro no clube. Além de aplicar um valor mínimo de R$ 200 milhões exclusivamente no futebol, quem assumir o controle da futura Botafogo S/A irá adquirir toda a dívida do clube social.

– A dívida é menos relevante do que a avaliação do risco financeiro do negócio todo. Para a avaliação do risco, eu tenho que averiguar os passivos, estejam eles provisionados no balançou ou não. Porque é uma questão de risco. O investidor que for comprar tem que saber, tem que entrar na análise dele – completou Novis.

Sem garantias, operação via Ferj

O Botafogo se afundou tanto em dívidas que perdeu a capacidade de gerar receitas em um volume que lhe seja possível sair do buraco em um tempo menor do que 120 anos, de acordo com a estimativa atual.

– Se eu pegar tudo o que eu gasto e tudo o que eu recebo, a diferença teoricamente é o que eu usaria para pagar a dívida. Só que esse valor diante do passivo é muito pequeno. Demoraria mais 100 anos para fechar isso. É um ciclo vicioso. Você não paga, tem mais penhoras, mais risco. Fica complicado. Chega a um ponto de insolvência – pontuou o vice de finanças.

Com nome sujo e de mãos atadas, o Botafogo recentemente precisou recorrer à Ferj para conseguir pagar parte dos salários atrasados dos jogadores. A operação foi um empréstimo de R$ 4,5 milhões junto ao banco BMG. Como o alvinegro não tem mais garantias para dar, entrou nesse trâmite como avalista. Quem na verdade fez o empréstimo foi a Ferj.

– Garantias acabam. O Botafogo hoje não tem crédito para fazer uma operação. A operação do BMG foi atípica. Quando a Ferj recebeu, nos repassou o dinheiro e jogou como dívida nossa no corrente da Federação. É muito difícil. E esse dinheiro já foi usado – explicou Novis.

Sem patrocínios robustos desde que a Caixa saiu, a solução a curto prazo é vender jogadores, enxugar a folha salarial de R$ 3 milhões para cerca de R$ 1 milhão e nem assim ter a certeza de que haverá caixa para cumprir os compromissos. No mesmo relatório feito aos conselheiros, o cenário apresentado é de pendência com direitos de imagem desde setembro. Salários, desde novembro. Além disso, o Botafogo diz não ter dinheiro para pagar os salários de dezembro, parte do 13º e os salários de janeiro de 2020.

Fonte: O Globo Online