Foram 36 dias. A proposta do Botafogo fez Marcos Paquetá voltar a trabalhar em solo brasileiro depois de 14 anos. O trabalho, porém, durou apenas cinco partidas. Sob forte pressão da torcida, foi demitido após derrota para o Nacional-PAR. Duas semanas depois, o treinador conversou sobre o retorno à rotina pouco paciente do futebol nacional, e falou sobre um possível maior erro, o pedido à diretoria, as dificuldades e a mágoa. Com o clube, o sentimento é positivo.

– Torço muito por eles, me abriram as portas depois de tanto tempo. Tudo que pedi me deram, com a exceção das contratações (risos). Meu sentimento é de que não consegui fazer tudo que queria, poderia dar mais – lamenta Paquetá.

Desde que o nome do técnico foi cogitado no Glorioso, houve rejeição da arquibancada e vozes dissonantes na diretoria. Apesar de os primeiros jogos do Campeonato Brasileiro no período pós-Copa do Mundo do Botafogo serem contra adversários de maior investimento (Corinthians, Flamengo e Internacional, fora a Chapecoense), quatro derrotas e só uma vitória lhe derrubaram. Por quê?

– Não sei. É uma pergunta que não pode ser feita para mim. A diretoria é que pode passar. Logicamente, eu não era unanimidade. Talvez pelo fato de não estar há muito tempo trabalhando no Brasil. Mas eu acompanho. Estive fazendo curso o Pró, da CBF, fiz observação no próprio Botafogo e no Fluminense – recorda.

Para Marcos Paquetá, os anos no Oriente Médio – fora o Pune City, da Índia, ao qual ele estava vinculado quando do convite alvinegro – diminuíram a visibilidade dele no país. Ele acredita que foi tido como um profissional de pouca qualificação, apesar dos títulos mundiais com as Seleções Brasileiras Sub-17 e Sub-20 (2003), e numa participação em Copa do Mundo, com a Arábia Saudita (2006).

– O que me deixou chateado é que algumas mídias colocaram que “não tem experiência”. Não tem experiência de quê? De repente faltou isso para que as pessoas entendessem. É até bom falar isso: passei por todas as categorias que tem que passar, de experiência, de ver jogador da base. ser preparador físico, observador… todas as categorias. Mirim, infantil, juvenil, júnior… departamento autônomo (antigo futebol amador) – desabafou, antes de concluir:

– Trabalhei até no mais alto nível do futebol que é a Copa do Mundo. Fui a três competições mundiais. Participei de três Copas do Mundo e ganhei duas. Acho que está bom, não é? A falta de conhecimento foi o que me chateou mais. “Ah, o cara é amador.” É o tipo da coisa que não dá para engolir.

A saída do clube com apenas cinco jogos fez de Paquetá um dos treinadores que menos duraram no clube, ao lado de Mário Sérgio (três jogos, em 2008), e Dé Aranha (também cinco jogos, em 2001). Ele não se esquiva de responsabilidade, e revela qual pode ter sido sua grande falha.

– Talvez a minha forma de trabalhar tenha batido um pouco de frente no início. Mas ajeitamos as partes tática, técnica e física para nos adequarmos ao que vinha sendo feito. Sempre gosto de tirar o jogador da zona de conforto. Talvez isso tenha atrapalhado um pouco, tenha sido meu grande erro. Mas percebi isso e, rapidamente, consegui fazer o que fosse bom não para mim, mas para o clube, para os jogadores – explica.

BATE-BOLA COM MARCOS PAQUETÁ

Olhando para trás, você se arrepende de ter aceitado o convite do Botafogo?
A gente sai chateado. Acho que poderia ter dado mais da minha experiencia para o clube, tenho bastante bagagem para ajudar na confecção do time, que tem muitos jovens, e esse talvez tenha sido um dos problemas. São muitos jogadores que precisavam vivenciar mais competições de alto nível. Eu estava mesclando com jogadores experientes, mas a maturação dos jogadores só se adquire em ação. Tem que tomar cuidado para que eles possam ter evolução, mas sem ficarem marcados. Acho que eu poderia ajudar nesse aspecto.

E algum jovem chamou mais a sua atenção?
Tem vários meninos. Ezequiel precisa jogar mais, João Pedro, Gustavo (Bochecha), vários… Kanu, Helerson, jogadores promissores, mas demanda tempo. E em time grande, como o Botafogo, há cobrança nos atletas. E percebi a fisionomia muito tensa porque a cobrança é muito grande. Tínhamos que trabalhar o emocional. Não deu tempo.

Pode falar melhor sobre a questão da fisionomia dos atletas?
Durante a competição… Não podemos negar que a dificuldade financeira influencia. Três anos pagando em dia, teve esse probleminha agora e acaba interferindo. Todo mundo trabalha e a gente sabe que é difícil trabalhar com salários atrasados. Mas não posso falar, os atletas trabalharam bastante, se dedicaram. Tivemos oportunidade de botar um nível mais alto de trabalho e tivemos dificuldade. Mas rapidamente percebi, com o Anderson (Barros, gerente de futebol) e alguns jogadores, sentamos, conversamos e vimos o melhor caminho para não fugirmos do padrão que vinham tendo, e chegamos a um padrão determinado. Logicamente,eu pedi para que eles não se fechassem ao novo, que é importante para a evolução. Foi um conjunto de situações num curto espaço de tempo que prejudicou as ações que eu tinha em mente.

O fator anímico foi o que mais pesou para o insucesso?
De tudo um pouco. Não podemos negar. Mas em nenhum momento os jogadores se mostraram incapacitados ou não querendo jogar. Mas os resultados são marcantes numa cultura de futebol errada no Brasil. O Botafogo hoje está num posição na tabela de acordo com o investimento que foi feito. Não podemos negar. O Botafogo sempre foi uma grande equipe, sempre será, porém os investimentos realmente ficam aquém de buscar posição maior na tabela. Dentro desses resultados, todos conseguimos manter a mesma posição na tabela. Não caímos muito porque os times que estavam na mesma situação enfrentaram grandes equipes. O jogo que vencemos foi contra quem estava abaixo de nós (Chapecoense), era uma obrigação nossa jogando em casa. Demonstra bem o campeonato que o Botafogo vai enfrentar. Contra equipes que estão abaixo.

E você acha que as críticas das redes sociais influenciaram na demissão?
Não. Depois do jogo (contra o Nacional-PAR), falaram que os resultados não foram bons e que não tinha como dar continuidade. Não tem problema nenhum. É uma coisa que não deveria ser normal, mas que parece ser normal no futebol brasileiro. Por isso estamos caminhando cada vez pior por aqui. Não conseguimos ter base, mudando, e eu acho que a internet influencia muito.

Dá para dizer que você chegou demitido ao Paraguai?
Se for analisar por torcedor, não tem como. Tem que ser racional. Procuro trabalhar com o racional. E futebol é isso. Quem trabalha com futebol tem que administrar. Eu não vou ser o primeiro e nem o último. O que me deixa chateado foi não ter tido mais tempo para provar que tínhamos condição de melhorar.

Teve aquela constrangedora entrevista coletiva após o jogo…
Saí chateado, não foi um resultado absurdo, pois conseguimos um gol, ainda tivemos outra boa chance (com Brenner). Foi um jogo pesado e nós não tínhamos muitos jogadores acostumados com um jogo internacional. Eles marcam duro e apostam na bola longa. Mas o Botafogo tem muito mais qualidade, pode reverter tranquilamente aqui. Sinceramente, não sei se voltaria com o cargo se tivéssemos empatados, mas o resultado não foi ruim.

Ficou a mágoa de alguém?
De maneira nenhuma. Onde passo deixo amigos. Entendo que há cobrança, sabemos que são cobrados (diretoria) também e têm que dar resposta. Tenho que assumir minha parcela de culpa, não posso me eximir, mas minha parte fizemos com empenho e coração. Trabalho não faltou, mas, infelizmente, não deu certo.

Consegue apontar as virtudes do Botafogo?
É um grupo trabalhador demais, que não corre do trabalho, são aplicados e o ambiente interno é bom. O clube também dá todo suporte, é muito organizado, em todos os setores. Todos os profissionais são gabaritados.

E o que pode melhor no elenco do Botafogo?
A necessidade de contratação. É importante que tenham mais jogadores para que o clube tenha mais inspiração para brigar pela zona da Libertadores. O Botafogo também tem diversos jogadores que vão expirar seus contratos no fim do ano, então precisa se planejar visando a próxima temporada. Contratações pontuais precisam vir. Até porque, jogadores de mais idade, com 33, 34 anos, estão com o ciclo acabando e será importante um planejamento com uma nova roupagem, traçando metas antecipadas.

Acredita que os extremos são as maiores carências?
A minha primeira observação foi essa. Tem um jogador que tem muito para crescer: Luiz Fenando, que é um jogador introvertido. Incentivei e ele foi o que mais cresceu, fazendo gol, entrando na área… Mas a necessidade era essa, jogadores de lado. O clube continua procurando, a dificuldade é o fator financeiro. Também vejo necessidade de um atleta que jogue atrás do atacante.

A respeito do Valencia, que passou por uma polêmica nesta semana, o que pode dizer de sua importância para o time?
Valencia se dedica e sempre, é o último a sair e se cobra muito. Quer sempre jogar, normal, às vezes sai chateado mesmo. É muito bom e vinha numa crescente boa, colabora demais. É agudo, colocou mais o pé dentro da área quando eu pedi. Quando joga pelo lado, é mais tático, mas acaba tirando a velocidade. O Botafogo só poderia jogar com dois pontas mais lentos se ambos fossem extremamente habilidosos, para cair por dentro e colaborar por trás do centroavante, mas o time não tinha isso.

Mudando de assunto, o que mudou no futebol brasileiro de 2004 para cá?
O futebol brasileiro caiu muito a sua qualidade técnica. A saída de vários jogadores tem se dado cada vez mais precoce. O refugo está vindo para cá, o que não é mais útil para a Europa, vem para o Brasil. A Europa está se especializando em acabar com o futebol do mundo.

Fonte: Terra