Ex-pedreiro, dez clubes no currículo e 7.731 km percorridos antes chegar ao Botafogo. Arnaldo ralou muito até conseguir um lugar em uma equipe que disputa o Campeonato Brasileiro da Série A. Ele será titular na partida contra o Flamengo, neste domingo, às 11h (de Brasília), em Volta Redonda.

Desde cedo, o lateral nascido em Uberaba-MG apreendeu com o pai a seguir que para conseguir realizar seus sonhos era preciso se esforçar.

“Eu trabalhava com meu pai como servente de pedreiro. Foi dos 14 anos até uns 16. Aprendi muitas coisas nesse período. Infelizmente tive amigos que foram para o lado ruim da vida também. Eu sempre tive cabeça boa e ajuda da família”, contou o lateral, ao ESPN.com.br.

Apesar de ter algumas habilidades no serviço, Arnaldo era um pouco desastrado ao lidar com as ferramentas.

“Eu sabia fazer uma boa argamassa e ficava um tempão caprichando. Só que uma vez íamos entregar um muro na sexta-feira. Eu fui limpar o reboque e caiu a parede em cima de mim. Ele perguntou: ‘O que aconteceu?’. Eu disse: ‘Foi o vento, pai’ (risos). Depois, contei a verdade”, garantiu.

E como todo adolescente, ele encontrava um tempinho para se divertir com os amigos durante a obra.

“Onde trabalhava só homem já imagina como era a zoeira (risos). Deixávamos meu pai bem nervoso algumas vezes. Éramos moleques novos e quando passava mulher na rua o pessoal esquecia do trabalho (risos)”, recordou.

Com tanto esforço no expediente, Arnaldo descontava sua fome na hora do almoço.

“Eu comia demais. Aquela história do prato de pedreiro não é mentira (risos). Minha mãe fazia minha marmita e eu comia ainda o que sobrava do meu pai. Estava em fase de crescimento (risos)”, garantiu.

“Uma vez tinha comido muito e me bateu aquele sono depois do almoço. Eu estava sentado pintado uma grade cheia de detalhes. Eu acabei capotando e quando meu pai chegou me flagrou dormindo com o pincel na mão (risos). Ganhei uma bronca dele”, relatou.

O pedreiro que virou jogador

Durante a adolescência, Arnaldo não via o futebol como prioridade, mas mudou de ideia quando surgiram oportunidades em clubes profissionais.

“Eu estudava e trabalhava. Só jogava bola de final de semana no campinho ou na rua. Eu gostava de soltar pipa também. Defendia um time da escola e me chamaram para fazer testes no Cruzeiro e no Santo André, mas não deu certo. Voltei a trabalhar normalmente com meu pai até que fui indicado para o Mirassol. Lá consegui passar e fiquei”, afirmou.

Na equipe do interior paulista, o lateral se profissionalizou e começou ver a realidade da maioria dos times do país.

“No Mirassol uma vez o ônibus quebrou no meio da rua e os jogadores precisaram descer uniformizado para empurrar. Motoristas tudo buzinando para gente. Ajudar, ninguém queria (risos)”, relatou.

“Outra vez nosso roupeiro esqueceu as chuteiras dos jogadores antes de uma partida. Tivemos que esperar ele voltar para o clube, deu a maior confusão”, completou.

Do Mirassol, o lateral foi ao América-RN, voltou para o seu primeiro clube e foi no ano seguinte jogar na Portuguesa. Ele atuou depois no Penapolense, Criciúma e Joinville. O atacnte não teve sucesso nas equipes catarinenses e voltou para o interiror paulista, em Novo Horizonte e Itu, onde conseguiu ter uma sequência de jogos. Ao todo foram 7.731 km percorridos pelo Brasil para conseguir disputar a série A do Campeonato Brasileiro.

“Ainda no Joinville não deu certo. Voltei ao Novorizontino, joguei pouco. Fui ao Ituano e tudo andou de verdade. Tive sequência grande que nunca tinha conseguido antes. Eu nunca ficava de fora. Esse ano só perdi um jogo”, bradou.

No clube de Itu, Arnaldo disputou a Série D do Campeonato Brasileiro e o Campeonato Paulista, sendo campeão do Troféu do Interior. Sua enorme regularidade chamou atenção do Botafogo.

“Apareceram algumas propostas de clubes da Série B, Série C e alguns times de Série A. Eu disse ao meu empresário para esperar porque tinha confiança que aprecia algo bom. Foi arriscado, mas graças a Deus deu muito certo”.

“Fui para casa depois da final do Interior e quatro dias depois fararam do Botafogo. Eu sinceramente não botava fé nisso. Demorou para a ficha cair. Deu tudo certo, fui pra lá com uma alegria enorme. Agora é não deixar cair meu desempenho, se manterem time grande é muito mais difícil”, acrescentou o lateral.

Emprestado ao Botafogo com opção de compra, Arnaldo estreou no jogo contra a Ponte Preta, em casa, na segunda rodada do Campeonato Brasileiro.

“Tem horas que eu nem acredito. É a realização de um sonho, quando comecei lá atrás tinha essa vontade de chegar a um time grande assim, jogar os maiores campeonatos do Brasil. Consegui. Até brinquei com meu irmão: ‘A ficha só vai cair quando o juiz apitar domingo’. E foi o que aconteceu. Agora saiu ansiedade e é dar sequência”, finalizou.

Fonte: ESPN.com.br