Em Lisboa, solitário, ex-Botafogo Perivaldo assume os erros: ‘Foi a morte do artista’

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Bob Marley pelo visual, Peri pelo nome. E brasuca pela origem. É assim que Perivaldo Lúcio Dantas, 60 anos, é conhecido pelos vendedores da Feira da Ladra, em Lisboa. É no tradicional mercado da capital portuguesa que o ex-jogador da Seleção, do Botafogo, Bahia, Palmeiras e Bangu vende roupas e objetos usados para se sustentar. Perivaldo vive em Lisboa há 23 anos e perdeu o contato com quase toda a família no Brasil. Só não perdeu a boa disposição e a alegria de viver. Como lateral-direito, para ele, só Carlos Alberto Torres e Toninho Baiano foram superiores. Mas, se em campo, era capaz de acertar cruzamentos na medida, como o para Mendonça em vitória sobre o Fla por 3 a 1 nas semifinais do Brasileiro de 1981, na vida disse ter cometido erros capitais. Desde os amigos aos conselhos ruins responsáveis pela mudança do rumo da sua vida. Uma mulher, carros e maus investimentos foram os grandes problemas, segundo o baiano, que afirmou não ser alcoólatra mas parou para beber uma cachaça. E ele se assumiu como grande culpado pela situação difícil em que se encontra.

– O erro foi meu. Vim para cá, fiz tudo errado, foi a morte do artista. Eu tinha um Rolex de ouro que valia 50 mil dólares e tinha diamante. Vendi, gastei tudo. Comprei carros, vendi também, fui gastando tudo o que tinha e depois não consegui recuperar. Emprestei dinheiro a amigos, dei dólares a um cara para comprar umas ações para mim e ele desapareceu com o dinheiro. Se eu tivesse juízo, até tive um bom trabalho quando cheguei em Portugal. Em 1992, trabalhava como cozinheiro em Porto Santo (Madeira), ganhava um dinheiro bom naquela época, uns 4 mil dólares por mês. Mas conheci uma pessoa em Lisboa, uma portuguesa, que nem vale a pena falar, dos olivais sul, larguei tudo por ela… As melhores mulheres da minha vida foram a sul-coreana, que me ajudou muito, e a minha esposa, que está em São Paulo e ainda me ajuda – revelou em tom emocionado o Rei da Pituba, que não quis se alongar sobre seu passado e família.

Perivaldo considera a forma como chegou a Lisboa outro erro capital para a situação em que se encontra – o ex-jogador disse no último sábado à reportagem do GloboEsporte.com que aluga vaga em quarto de albergue, graças ao faturamento na feira e à ajuda mensal dada pela ex-exposa, que confirmou a informação, apesar de as câmeras do “Fantástico” o terem flagrado como morador de rua.  E foi, segundo ele, na saída da Coreia do Sul, onde atuou por três anos, que sua vida começou a mudar para pior. Antes de terminar o contrato, disse ter resolvido voltar ao Rio para tentar a sorte e depois ter ido para Lisboa sem qualquer garantia, aconselhado por alguns amigos.

– Foi uma das maiores besteiras da minha vida. Eu tinha um contrato de 100 mil dólares lá em Seul. Ganhava bem, uns 9 mil dólares por mês, era muito dinheiro. Mas rescindi o meu contrato, voltei para o Rio e me disseram para vir para cá, para Lisboa, que ia aparecer um clube. Nunca apareceu nenhuma proposta boa e eu fui ficando, fui me acomodando e trabalhando aqui e ali.

O ex-jogador disse que jamais usou drogas nem foi alcoólatra. Mas parou durante a reportagem para beber uma cachaça e disse que a mulher, por telefone. reconhece quando bebeu.

– Bom, eu não tenho vícios, não uso droga. Eu tomo assim uma bebidazinha ou outra, mas não tomo muito, porque a minha mulher não gosta e ela diz que sente o cheiro da bebida por telefone. você não sabe o que significa sentir o cheiro da bebida por telefone, significa que a voz, que a língua, já não é igual.

Perivaldo montagem (Foto: Infoesporte)
À la Bob Marley, Perivaldo vende casacos e outras roupas usadas para sobreviver em Lisboa (Foto: Infoesporte)

 

Camisas, camisetas, casacos, celulares e fones são alguns dos objetos que ele vende, mas sem muito sucesso com a clientela. A feira da Ladra é a mais antiga de Lisboa e é conhecida por vender todo tipo de produtos e de todas as qualidades. Todas as terças-feiras e sábados de manhã, Perivaldo chega na área carregando uma mala com tudo aquilo que reuniu durante a semana para ganhar uma grana. Mas, às vezes, sai de bolso vazio.

– O Perivaldo? O ex-jogador de futebol? Ele está por aí, deve estar na praça central porque ele nunca falha numa feira – comentava um vendedor de discos do mercado indicando para o largo principal, onde se encontrava o Peri da Pituba, como era chamado carinhosamente nos clubes por onde atuou no futebol brasileiro.

O vendedor

Já passava das 11h30m da manhã de sábado quando a reportagem do GloboEsporte.com encontrou Perivaldo chegando à feira.

  • – Você sabe que acordar cedo para mim é um problema – disse, brincando.

    Depois, sempre se desculpava com um sorriso nos lábios enquanto arrumava suas coisas em cima de um plástico no chão.

– Eu vendo aquilo que pinta, roupa minha, coisas que me deram, celular, é isso aí. Às vezes venho para cá e ganho uns 300 euros, outras vezes não dá nem para ganhar um – explicou.

Enquanto negociava um casaco com um senhor que reclamava da sujeira do tecido, Peri da Pituba tentava ganhar o cliente.

  • – É só limpar, é só limpar – dizia Perivaldo, tentando convencê-lo, sem sucesso.

Sem contato com filhos e netos

Longe da família, o baiano diz ter mais amigos do que dinheiro e por isso escolheu vender na feira, para passar o tempo e jogar conversa fora.

  • – Vim aqui fazer compras uma vez e fui gostando, isso é mais uma ‘higiene mental’, serve para passar o tempo. Eu gosto de estar aqui. Todo mundo me conhece. Perivaldo daqui e brasuca dali, e o cara vai curtindo, sem chatice, fujo do estresse e é isso. Pronto! Eu gosto disso! Mas eu agora queria ver se voltava para o Brasil, queria muito assistir à Copa do Mundo, tenho lá os meus netos que nunca vi – relatou o baiano, que vive em Lisboa há 23 anos e diz nunca ter retornado à sua terra nesse período.

Convocado para a Seleção por Telê Santana em 1981, Perivaldo disse que vive em um quarto alugado no Centro da cidade e que paga o aluguel com algum dinheiro recebido da primeira esposa, que vive no interior de São Paulo e com quem retomou contato há 12 anos. Para o resto, afirma que se arranja como pode com algum dinheiro que vai ganhando na feira e também recebe um salário da Coreia do Sul, onde jogou futebol no fim da carreira, conheceu sua segunda esposa e teve um filho.

– Tenho 12 filhos. Tenho filho em Seul, em El Salvador, em São Paulo, na Bahia, no Rio de Janeiro no Ceará. Em todo o mundo. Eu não tenho filho, eu fiz filho – contou, sorrindo.

Perivaldo Botafogo 1980 (Foto: Jorge Marinho / Agência O Globo)
Primeiro à esquerda, no alto, Perivaldo no Botafogo de 1980: boas lembranças (Foto: Jorge Marinho / Agência O Globo)

 

Botafogo no coração

Dentro de campo, a maior saudade é da camisa alvinegra. Peri da Pituba foi revelado pelo Bahia nos anos 70 e estourou no Botafogo no início dos 80, indo depois em 1983 para o Palmeiras e, no ano seguinte, para o Bangu, antes de partir para o exterior.

  • – O Botafogo fez tudo por mim. A torcida me adorava porque eu marcava muitos gols. Era da defesa mas era artilheiro também. Tinha raça, treinava de manhã, à tarde e à noite. Disposição nunca me faltou. A torcida sabia que eu tinha raça e era lindo ouvir 70 mil pessoas gritando 1,2,3,4, 5 mil, quem não gostar do Perivaldo vai na Polícia do Rio, recordou Rei da Pirituba animando a feira.

    Como jogador, as melhores recordações que Perivaldo guarda, além dos gols, foi a vitória do Botafogo sobre o Flamengo por 3 a 1 nas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1981 – ele centrou na medida para Mendonça marcar o primeiro -, as vitórias no Campeonato Baiano com o Bahia em 1975 e 1976 e um amistoso com a seleção brasileira contra a antiga Tchecoslováquia no Morumbi, quando o então lateral-direito salvou um gol certo numa espetacular puxeta. Uma acrobacia que lhe rendeu a admiração de meio mundo e também o aproximou dos colegas Zico e Junior, que passaram a respeitá-lo, mesmo depois de ter provocado a expulsão do Galinho num clássico Botafogo x Flamengo.

  • – O Zico? Foi ele que esquentou a cabeça. Foi ele que se expulsou, o lance foi indiscreto, não dá para falar aqui não. Mas na Seleção os que mais me ajudaram foram ele e o Junior. E eram eles os que mais me detestavam em campo. Eles falavam que eu era chato, mas me ajudaram muito depois – continuou.

Do passado de jogador, Perivaldo não se importa de falar. Ri quando lembram dos momentos em que irritava a torcida com os centros por trás do gol. Fala também com alegria da boa disposição nos treinos aos gritos da torcida até a comparação com outros da posição. E o ex-lateral cita o capitão do tri mundial da Seleção Carlos Alberto Torres e Toninho Baiano, ex-Fla e Flu, na “eleição” do melhor brasileiro da posição. 

– Só esses dois jogaram mais bola do que eu.

Hoje, o Rei da Pituba acompanha pouco o futebol e a seleção brasileira, mas sonha em assistir a um jogo da Copa no Brasil. Baiano de nascença e carioca de adoção, leva as duas cidades no coração e até no sotaque em que mistura as duas cadências ao sotaque luso. Mas é no Rio de Janeiro, onde a torcida mais o emocionou e onde disse ter vivido os melhores momentos de sua vida, que Perivaldo quer fazer sua última boa jogada.

– Rio de Janeiro é a minha terra, é lá que eu vou encerrar a minha vida. E não é um sonho, é realidade mesmo.

Fonte: Globoesporte.com

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