O torcedor do Botafogo que nasceu do meio da década de 80 para cá é feliz. Basta perguntar a um alvinegro mais experiente, que presenciou o incômodo jejum de 21 anos sem títulos, entre 1968 e 1989. Mas a história do fim do jejum – que seria quebrado com título em cima do Flamengo e o lendário gol de Maurício – pode começar a ser contada um ano antes, em 1988.
Em agosto daquele ano, um remodelado Botafogo foi até a cidade de Palma, em Mallorca, na Espanha, para disputar o Torneio Cidade de Palma (ou Torneio Palma de Mallorca), um campeonato amistoso, ao lado dos gigantes Boca Juniors e Barcelona e do anfitrião Mallorca. Os jogos foram disputados no Estádio Lluís Sitjar, que hoje nem existe mais – foi demolido em 2015.
E o Botafogo montado por Emil Pinheiro fez bonito. Na semifinal, no dia do aniversário do clube (12 de agosto), o Glorioso bateu o Boca Juniors por 3 a 1, com gols de Josimar, Carlos Magno e Helinho para o Botafogo e Correa, de pênalti, descontando, em partida que teve cinco expulsões – três dos argentinos e dois dos alvinegros. Na decisão, o temido Barcelona do técnico Johan Cruyff.
– O Boca Juniors respeitou bastante o Botafogo. Esperava que viesse para cima, brigar, bater, como era tradição ainda mais naquela época. Fiquei impressionado com eles nos respeitando. Ganhamos de 3 a 1 e fomos enfrentar o Barcelona, uma equipe muito forte, muito técnica, que estava se preparando para temporada europeia – relembrou o zagueiro Wilson Gottardo, titular da equipe, em recente entrevista ao canal do Fabiano Bandeira no YouTube.
Final contra o Barcelona
Apesar do público aquém do esperado – cerca de 10 mil pessoas -, Botafogo e Barcelona estava recheado de expectativas. O Botafogo conseguiu sair na frente com Marinho, aos 21 minutos – Gottardo iniciou a jogada do chute de Carlos Magno, quando Recarte salvou em cima da linha antes do ponta estufar as redes. Os catalães pressionaram, perderam um pênalti com Carrasco, e o Fogão saiu campeão.
– Foi um jogo muito intenso, muito cansativo, o Barcelona estava cheio de energia e pressionou muito, mas conseguimos fazer o gol com o Marinho. Foi um jogo muito difícil. Tomamos pressão em alguns momentos, e após do jogo foi uma alegria diferente. Comentei com o Emil Pinheiro: “Esse aqui foi o primeiro de muitos”. Foi o primeiro título. Comentei na ocasião: “Quebramos a porteira e virão outros”. E aconteceu – lembrou o “profeta” Gottardo.
‘Botafogo já pensa até em ser campeão’
Falando da chegada da delegação alvinegra no Brasil, após mais alguns amistosos na Espanha e em Portugal, o Jornal do Brasil estampou a seguinte chamada: “Botafogo já pensa até em ser campeão”. O Jornal dos Sports escreveu: “Nem parecia um time que não vê um título há 20 anos. Confiantes, os jogadores voltam a falar em títulos, sem gaguejar, com segurança e certeza de que o trabalho está fluindo pelo caminho certo’.
– Esse é o Botafogo dos meus sonhos – exclamou Emil Pinheiro, vice-presidente de futebol e patrono do time, naquela oportunidade.
De fato, a partir daí aquela geração conhecida como “Os Cavaleiros da Esperança” pôs fim ao jejum e ganhou dois títulos estaduais em sequência, 1989 de forma invicta e 1990. Wilson Gottardo ainda faria parte da maior glória da história alvinegra, como capitão: o título brasileiro de 1995.
FICHA TÉCNICA
BARCELONA 0 x 1 BOTAFOGO
Data-Hora: 13/08/1988 – 17h30 (horário de Brasília)
Estádio: Lluís Sitjar, em Mallorca
Árbitro: Victoriano Sánchez Arminio (ESP)
Público: 10.000 torcedores aproximadamente
Cartões amarelos: Milla (BAR); Gilmar e Vitor (BOT)
Gols: Marinho 21’/1ºT (0-1)
BARCELONA: Zubizarreta; López Recarte, Serna, Milla e Julio Alberto; Eusebio (Urbano 11’/2ºT), Roberto e Beguiristain; Carrasco, Julio Salinas e Soler (Roura 22’/2ºT) – Técnico: Johan Cruyff.
BOTAFOGO: Ricardo Cruz; Josimar, Wilson Gottardo, Mauro Galvão e Renato Martins; Luisinho, Vítor e Carlos Magno; Marinho, Mazolinha e Gilmar – Técnico: João Batista Pinheiro.




