Estimativa de lucro de concessionária do Maracanã atinge R$ 95 milhões ao ano

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O plano de negócios do Complexo Maracanã S.A., anexo 7 do contrato de parceria público privada número 27/2013, especifica todas as estimativas de fluxo de caixa, investimentos, preços aplicados e contratação de serviços na operação do estádio. O plano prevê 75 jogos ou eventos e dois concertos por ano e estimativa total de investimento em R$ 721 milhões (o mínimo exigido pelo contrato de concessão é de R$ 594 milhões). De acordo com as tabelas de fluxo de caixa, a concessionária começa a obter lucro na operação do estádio apenas a partir do segundo ano de contrato, com prejuízo de R$ 43 milhões nos primeiros 12 meses. A partir daí, o lucro operacional não para de crescer e, de 2026 até o fim da parceria, oscila entre R$ 90 milhões e R$ 95 milhões ao ano. Em 35 anos, o lucro chegaria a R$ 12,9 bilhões. No documento, a estimativa de custo operacional por dia de jogo em tabela é de R$ 127 mil.

comitiva vistoria estádio maracanã (Foto: André Durão / Globoesporte.com)Contrato de concessão do Maracanã é válido pelos próximos 35 anos (Foto: André Durão)

A cronologia do plano de negócios prevê investimentos até o quarto ano de parceria. Os valores incluem as obras incidentais e, se o contrato de concessão for mantido pelo governo do Estado, é provável que haja uma adaptação dos números vigentes hoje. Para o primeiro ano, estão previstos investimentos de R$ 36 milhões, com R$ 216 milhões no segundo ano, R$ 432 milhões no terceiro e R$ 36 milhões no quarto ano de concessão.

No organograma de estrutura de receitas, o plano de negócios só prevê receita para a concessionária nos setores premium do estádio. A ideia inicial da empresa, que esbarrou, por exemplo, nos interesses do Flamengo, era deixar a comercialização dos setores populares, atrás dos gols, para os clubes, operando a parte mais nobre do Maracanã. A fórmula agradou ao Fluminense, que priorizou o fato de não ter qualquer custo ou risco de prejuízo para jogar no estádio. O clube assinou por 35 anos. A negociação com o Flamengo, porém, se arrastou por alguns meses até ser firmada uma parceria de dois anos, que o próprio presidente do clube, Eduardo Bandeira de Mello, disse não ser definitiva – tanto que prevê possibilidade de rescisão unilateral sem ônus para qualquer uma das partes, em qualquer período do contrato.

Tabela - plano de negócio do Maracanã - contrato (Foto: Reprodução)Tabela no contrato determina custos da operação no Maracanã: R$ 127.187 por jogo (Foto: Reprodução)

Entre as receitas de serviços, a concessionária prevê patrocínios, locação de áreas comerciais, alimentos e bebidas, estacionamento, tours e museu, manutenção de assentos perpétuos, revenda de assentos prêmium e bilhetagem com eventos e concertos. O documento detalha ainda a quantidade de assentos para cada tipo de ingresso e traz estimativas de preço para cada um deles. A previsão de custo dos bilhetes varia entre R$ 50 e R$ 500 reais. Conforme descrito no plano de execução em outro anexo do contrato de concessão, o público alvo para os setores premium são executivos, dirigentes e indivíduos de alto poder aquisitivo. As estimativas de preço para o Maracanãzinho variam entre R$ 105 e R$ 200.

Por e-mail, a assessoria da concessionária respondeu, ao ser questionada se as projeções de preço de ingressos poderiam ser alteradas, que há variadas faixas de preço e que o intuito é garantir o acesso de todos.

– O projeto prevê variadas opções de preços, dos assentos de cadeiras dos setores norte e sul aos setores dos camarotes, onde são oferecidos serviços extras aos torcedores que estão dispostos a pagar mais por um diferencial. O intuito é garantir o acesso de todos ao estádio. Também são atendidos todos os direitos dos torcedores como as meias-entradas, promoções do sócio torcedor e gratuidades.

Tabela - plano de negócio do Maracanã - contrato (Foto: Reprodução)Contrato determina número de eventos por ano no Complexo do Maracanã (Foto: Reprodução)

O plano de negócios segue descrevendo as receitas esperadas pela concessionária, determina uma taxa de 30% sobre os serviços de alimentação e bebidas a serem explorados por terceiros e também o uso de espaços do estádio para conferências e banquetes.

O ponto que se tornou complicado no plano inicial da concessionária está no item 3.1.7.6 do anexo do contrato de concessão. A empresa teria 85% de 2.450 vagas disponíveis com a construção de edifício-garagem em função da demolição do estádio de atletismo e do parque aquático no complexo. Mas o governo do Estado desistiu de demolir os equipamentos e ainda não decidiu se manterá ou não a concessão. Uma nova proposta para continuar o contrato foi entregue pela concessionária na última sexta-feira. A primeira foi rejeitada.

Diz o texto: “Nos dias de evento no Estádio (77 ao ano), considerou-se a utilização de 75% da totalidade das vagas por 8hrs, enquanto nos dias de evento na Arena (91 no ano), considerou-se a utilização de 75% de 1,5 mil vagas, a um preço de R$ 20/hora. Nos dias em que não há evento, considerou-se a utilização de 50% das vagas por 16 horas, a um preço de R$ 4/hora (sic)”.

O plano prevê ainda a cobrança de R$ 500 por ano para cada assento perpétuo, para sua manutenção.  No item que trata da bilhetagem, está descrito que a remuneração da concessionária com este tipo de receita será através de “taxas de serviço, taxas de conveniência e das taxas de entrega referentes a vendas dos ingressos. A receita do ingresso propriamente dito será receita do promotor do evento”. É prevista cobrança de taxa de conveniência de 15% em todos os eventos no complexo, sendo que jogos de futebol no Maracanã tem previsão também de receita com uma taxa de administração de 10%. O valor da entrega de bilhetes em todos os casos foi estimado em R$ 10. A taxa de conveniência é cobrada pela empresa que atua como canal de venda de um evento, segundo o texto do plano de negócios.

Tabela - plano de negócio do Maracanã - contrato (Foto: Reprodução)Os preços por assentos em dias de jogos do Maracanã, segundo o contrato (Foto: Reprodução)

O documento aborda ainda tributos, depreciação de bens, e em seguida discorre sobre os custos operacionais. Os custos de administração somam R$ 4,1 milhões. Os custos de operações, não relacionados a realização de eventos no complexo, são estimados dessa forma: R$ 6,4 milhões com folha de pagamento, R$ 101 mil com viagens e hospedagens, R$ 6 mil com transporte, R$ 46 mil com telefonia, R$ 833 mil com suprimentos, R$ 2,4 milhões com serviços de terceiros, R$ 3 milhões com energia elétrica e R$ 2 milhões de gastos com água. Na tabela com todos os custos previstos para um dia de jogo, o total estimado pela concessionária é de R$ 127 mil, sendo R$ 27,8 mil com segurança, R$ 16,9 mil com orientadores de público e recepcionistas, além de R$ 19,6 mil com limpeza.

O plano econômico-financeiro, também incluído no plano de negócios, afirma que a receita bruta no primeiro ano de operação é estimada em R$ 80 milhões, atingindo um pico de R$ 337 milhões no ano nove do contrato de concessão, “ano em que se estima que todos os produtos tenham atingido sua maturidade de vendas”. A margem líquida no primeiro ano de operação é negativa, -64% (está previsto prejuízo de R$ 43,8 milhões nos primeiros 12 meses de concessão) e atinge um pico de 21,7% em 2027.

O contrato de parceria público privada número 27/2013 foi assinado no dia 4 de junho pelo governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o secretário de Esporte e Lazer, André Lazaroni, o presidente do Complexo Maracanã Entretenimento S.A, João Borba, e seu vice, Bruno Barbosa Wegmann da Silva. O GLOBOESPORTE.COM obteve a íntegra do documento, com mais de 700 páginas, através de pedido feito pela reportagem através da lei de acesso à informação. A cópia do contrato foi liberada em cerca de 20 dias.

ENTENDA A CONCESSÃO DO MARACANÃ
O Complexo Maracanã S.A. é a empresa que venceu a licitação para concessão por 35 anos da estrutura, que inclui, além do estádio, o Maracanãzinho, o estádio de atletismo Célio de Barros e o parque aquático Julio de Lamare. A seguintes empresas participam da sociedade da concessionária: Odebrecht Participações e Investimentos S.A. (empresa líder, com 90%), IMX Venues e Arena S.A (de propriedade de Eike Batista, com 5%) e AEG Administração de Estádios do Brasil LTDA (também com 5%).

O resultado da licitação foi anunciado no dia 9 de maio deste ano. O grupo apresentou toda a documentação necessária para o processo de licitação e foi aprovado por unanimidade pela Comissão Especial de Licitação, superando o “Consórcio Complexo Esportivo e Cultural do Rio de Janeiro” – composto por Construtora OAS S.A., Stadion Amsterdam N.V. e Lagardère Unlimited. O concorrente teria cinco dias para recorrer do resultado da licitação, mas abriu mão da medida.

Porém, em junho, o cenário político em todo o Brasil ferveu. Manifestações tomaram proporções surpreendentes, atingiram também a realização da Copa das Confederações com protestos próximos a arenas e, no Rio de Janeiro, fez despencar a popularidade do governador Sérgio Cabral. Diante do clamor popular pela manutenção do Célio de Barros e do Julio de Lamare, o governador voltou atrás, após já assinada e homologada a concessão, e anunciou que manterá as estruturas.

Desde então, governo e concessionária negociam a manutenção do contrato por 35 anos. A primeira proposta da empresa em função das alterações – a área geraria receita com a construção de edifício-garagem – foi rejeitada pelo governo no fim de setembro. A empresa emitiu nota oficial afirmando que considera o contrato válido e informou que entregou nova proposta nesta sexta-feira.

 

Fonte: Globoesporte.com

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